O Brasil se aproxima de mais uma disputa presidencial com um paradoxo à vista: mesmo em meio a turbulências políticas e econômicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece como líder absoluto nas pesquisas de intenção de voto para 2026. Um levantamento Genial/Quaest nessa primeira quinzena de outubro de 2025 indicou que Lula lidera todos os cenários simulados de primeiro e segundo turno, inclusive em confrontos hipotéticos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro – este atualmente inelegível. Os dados trazem à tona uma questão crítica: como o governo de situação mantém vantagem eleitoral significativa, contrariando a tendência de desgaste que costuma atingir governantes em cenários de dificuldades?
De acordo com a pesquisa Genial/Quaest de outubro, Lula registra entre 35% e 43% das intenções de voto nos cenários de primeiro turno testados. Nenhum adversário individual chega perto desse patamar. O nome de oposição melhor posicionado é Jair Bolsonaro, que caso pudesse reverter sua inelegibilidade alcançaria 26%. Em seguida aparecem Michelle Bolsonaro (PL), com 21%, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 18%. Os demais possíveis candidatos figuram ainda mais abaixo nas preferências.
Os resultados de segundo turno reforçam a vantagem do atual presidente. Lula venceria todos os confrontos simulados por margens confortáveis e derrotaria Jair Bolsonaro por 46% a 36%; contra Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, o petista manteria cerca de 12 pontos percentuais de vantagem. Até mesmo contra adversários de centro-direita, como o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD) ou o paranaense Ratinho Júnior (PSD), Lula aparece sempre à frente. O cenário geral apontado pelo levantamento é de uma liderança consistente: Lula é, neste momento, favorito para permanecer no cargo após 2026.
Chama atenção o fato de Lula liderar mesmo enfrentando um contexto nacional conturbado. Em tese, era de se esperar que um presidente sob indicadores econômicos fracos, crises diplomáticas e escândalos administrativos sofresse forte desgaste de popularidade. Porém, observa-se queLula vem ampliando sua vantagem em relação aos rivais.
Parte da explicação está na fragmentação do campo opositor, pois os votos contrários ao governo distribuem-se entre vários nomes, sem que surja até o momento um adversário unificado ou hegemônico. Isso dá a Lula uma dianteira folgada no primeiro turno e coloca todos os cenários de segundo turno a seu favor.
No front externo, o governo Lula enfrentou choques significativos. Em julho de 2025, o presidente dos EUA Donald Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, abrindo uma potencial guerra comercial entre Brasília e Washington. Lula reagiu duramente, chamando as sanções de “despropositadas” e ameaçando iniciar uma “guerra tarifária” caso Washington não recuasse – chegando a acusar “traidores da pátria” internos de estimularem retaliações contra o Brasil.
Essa retórica combativa freou temporariamente a queda de popularidade do presidente, ao reforçar um discurso nacionalista que uniu sua base. Por outro lado, aprofundou o isolamento diplomático: críticos avaliam que a diplomacia brasileira, contaminada por vieses ideológicos, tornou-se ineficiente e equivocada, fechando canais de diálogo essenciais com Washington. Prova disso é que autoridades brasileiras passaram a sofrer retaliações pessoais inéditas – ministros do STF tiveram seus vistos para os EUA revogados, um sinal extremo de esfriamento das relações entre os países.
No âmbito interno, os desafios econômicos são igualmente contundentes. O Brasil de 2025 convive com inflação persistente e juros elevados. Projeções do mercado situam a inflação anual em torno de 5%, valor acima do teto da meta oficial (4,5%). Para conter os preços, o Comitê de Política Monetária elevou a taxa básica de juros (Selic) a 15% ao ano – o maior patamar desde 2006. Com isso, o Brasil passou a ostentar a segunda maior taxa real de juros do mundo, perdendo apenas para a Turquia. Juros tão altos encarecem o crédito e freiam a atividade econômica, ampliando o custo político de governar.
Além da economia fragilizada, escândalos administrativos também minam a imagem do governo. O caso de maior repercussão em 2025 foi o do INSS, em que a Polícia Federal desmantelou um esquema bilionário de fraudes em aposentadorias e pensões. O rombo estimado ultrapassa R$ 6 bilhões. A crise ganhou contorno político porque um dos alvos da investigação é o sindicato de aposentados ligado a Frei Chico (irmão do presidente Lula), fato explorado pela oposição para tentar associar o escândalo ao Planalto.
Por que, apesar de tantas adversidades, Lula e o PT permanecem competitivos? Uma razão está na resiliência da base petista. Ao longo de duas décadas no poder nacional ou na oposição, o PT cultivou um contingente fiel de eleitores que tende a se manter ao lado do partido mesmo em momentos difíceis. Esse núcleo duro garante a Lula um piso de intenções de voto relativamente alto.
Diferentemente de muitos governantes em fim de mandato, seu índice de rejeição pessoal não explodiu: a pesquisa indica que Lula tem porcentuais equilibrados entre quem votaria e quem não votaria nele, ao passo que adversários da direita enfrentam repúdio bem maior – a família Bolsonaro, por exemplo, tem rejeição acima de 60%.
Some-se a isso a fragilidade do campo oposicionista. Com Bolsonaro fora da disputa, a direita está dispersa entre múltiplos nomes e não apresenta, até agora, uma liderança capaz de unificar o eleitorado descontente. Nenhum dos candidatos testados conseguiu capitalizar sozinho os votos anti-Lula; muitos sofrem com baixo reconhecimento nacional. Esse vácuo de liderança na oposição facilita a permanência de Lula na dianteira, praticamente por inércia.
Ainda assim, há sinais de fadiga no eleitorado. 56% dos entrevistados afirmam que Lula não deveria tentar a reeleição em 2026, contra 42% que apoiam uma nova candidatura. Embora a resistência à ideia de um quarto mandato tenha recuado em relação a levantamentos anteriores, o dado revela um desejo significativo de renovação.
Em suma, o próximo ano testará se a vantagem aparente de Lula se traduzirá em vitória nas urnas. Muito dependerá da capacidade do governo de corrigir rumos na economia e na diplomacia, bem como da habilidade da oposição em se reorganizar em torno de um projeto competitivo. Por ora, Lula surfa uma paradoxal onda de resiliência eleitoral em mar revolto, um incumbente sob forte pressão, mas que segue, contra as expectativas habituais, no topo das preferências do eleitorado.
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