Skip to content

Lissauer Vieira: “Muitos falam que defendem o agronegócio, mas não se posicionam ao lado do setor”

Entrevista Lissauer Vieira - pré-candidato a deputado estadual (PL)


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 18/10/2025 - 09:32

Lissauer Vieira
(Foto: Reprodução)

Entrevista Lissauer Vieira – pré-candidato a deputado estadual (PL)

O ex-deputado estadual Lissauer Vieira é uma das principais lideranças do agro no sudoeste goiano. Em 2022 ele deixou de disputar a eleição e, em 2024, perdeu a disputa pela prefeitura de Rio Verde para o candidato do MDB. Na votação do Fundeinfra, se afastou da base do governador Ronaldo Caiado, trocou o PSD pelo PL, e agora se prepara para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa. Se por um lado a votação do Fundeinfra lhe trouxe um derrota, por outro lhe possibilitou reconhecer os representantes do agro que realmente apoiam o setor, e não apenas se apresentam como tal.

Ao desistir da eleição em 2022, o senhor estaria deixando a política para cuidar dos seus negócios e da família, após a morte de seu pai. Em 2024 disputou a Prefeitura de Rio Verde. Estava em seus planos voltar ou o senhor mudou de ideia?

LISSAUER VIEIRA

Não estava em meus planos. Na verdade, 2022 foi um ano muito difícil para mim, com a perda do meu pai. Eu tinha uma ligação muito grande com meu pai e foi uma decisão tomada em um momento de dificuldade psicológica e até mesmo familiar. A minha intenção naquele momento, de fato, era sair da política e cuidar dos negócios, da família e das atividades pessoais. Mas, como todos sabem, política é uma coisa que tem uma porta só, a de entrada. Não é fácil sair. E eu tenho muita referência, muitas pessoas que buscam meu trabalho e minha história, o relacionamento que tenho; essa referência nos motivou a  disputar. Sabíamos das dificuldades que seria disputar (a prefeitura de ) Rio Verde, mas disputando de cabeça erguida, com propósito e com propostas e tenho certeza que a população um dia vai entender quais foram as nossas propostas. Respeitamos o resultado das urnas, como sempre, na democracia, e agora vamos planejar retomar o trabalho na Assembleia Legislativa, que tenho certeza de que será de muita importância para o estado de Goiás, pela nossa experiência, pelo que já vivi e vivenciei e pelo conhecimento que tenho de todo o estado de Goiás e também no que tange a gestão pública.

Que leitura o senhor faz do resultado da eleição de 2024 em Rio Verde? Porque o senhor liderava todas as pesquisas de intenção de voto, bem à frente dos demais candidatos, e foi surpreendido com a virada de Wellington Carrijo (MDB).O que aconteceu ao longo da campanha?

Na verdade, desde o começo nós sabíamos da dificuldade, o prefeito da cidade tinha uma avaliação muito alta, é um município com um poder administrativo e de arrecadação muito grande – a cidade tem R$ 2 bilhões de arrecadação por ano. O jogo é pesado, e nós sabíamos o tamanho desse jogo e o tamanho das dificuldades que nós íamos enfrentar, porque é uma máquina administrativa de uma cidade que arrecada 2 bi por ano. Nós tínhamos a noção disso, o tamanho das dificuldades e da concorrência que nós teríamos. Eu não tinha dúvidas de que seria uma eleição extremamente difícil para nós. E um dos motivos do resultado das urnas foi que a situação – com todo o poder na mão, com a máquina na mão e com uma aprovação boa do ex-prefeito, uma aprovação alta – foi unida e a oposição, que teria que se unir, rachou em quatro candidaturas. Isso dificultou ainda mais a eleição.

Falando nessa divisão, o senhor é pré-candidato a deputado estadual em uma região de forte predominância do agronegócio e que tem muitos políticos que representam o setor. Qual a estratégia para não dividir os votos e acabar não elegendo nenhum representante do setor?

O setor agropecuário em Goiás é muito forte, muito expressivo; tem que haver muitas pessoas que representam o setor. Eu entendo que a Assembleia Legislativa, como também a Câmara Federal, não vai ter um representante do setor, vai ter vários representantes do setor. Eu entendo que, na  minha passagem pela Assembleia Legislativa, nos oito anos, eu fiz o meu papel, cumpri com a minha obrigação, na medida do possível, tivemos muitas vitórias, tivemos algumas derrotas – isso faz parte do processo democrático dentro da Assembleia Legislativa – na defesa do setor agropecuário, do setor produtivo, principalmente do desenvolvimento econômico. Eu entendo que quanto mais representatividade tiver, mais cabeças pensando da mesma forma, mais força temos para defender os interesses do setor. Eu vejo que muitos falam que defendem o setor agropecuário, mas na hora do vamos ver, na hora de precisar se posicionar, não se posicionam ao lado do setor. Nós vimos isso claramente na votação do Fundeinfra (Fundo Estadual de Infraestrutura) na Assembleia. Eu era presidente e, mesmo assim, me posicionei contra, fiz todo o possível para derrotar a matéria, mas muitos parlamentares que votaram contra o produtor rural ou a favor da criação do Fundeinfra se diziam representantes do setor agropecuário; não foi isso que que se viu na hora da votação e na hora que os produtores precisaram desse voto que poderia fazer a diferença para derrotar uma matéria que não foi, não é e continua não sendo benéfica, principalmente no momento de crise que o setor agropecuário vive. Saímos derrotados nessa matéria. Eu defendi a derrota da matéria e criei talvez até muitas animosidades, não posso dizer inimizades, porque isso não faz parte do meu vocabulário, mas animosidades, algum distanciamento da base do governo do Estado, justamente porque me posicionei contra naquela oportunidade.

Naquele momento, houve uma crise entre o setor do agro e o governador Ronaldo Caiado. Essa crise foi debelada, Ronaldo Caiado ainda representa o setor ou ele ficou com a imagem um pouco desgastada em razão da taxa do agro?

Não tem como não ficar sequelas em um processo tão traumático como foi. O governador, ao longo da sua carreira política, principalmente como líder classista e parlamentar no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, sempre defendeu o setor agropecuário e, nas principais pautas, como a securitização e outros momentos de crise do setor agropecuário,  o atual governador, na época deputado federal ou senador, sempre foi um dos que levantou a bandeira e foi um dos principais na trincheira em defesa do setor agropecuário. Ronaldo Caiado como governador do estado criou o Fundeinfra. Eu entendo que não necessitava, isso é uma opinião minha. Entendo que poderia ser menos traumático, poderia ser uma situação mais conversada, mais dialogada para se chegar a um denominador comum para se fazer as obras, que são importantes e fundamentais para o setor e para o desenvolvimento do estado. Precisa-se ter infraestrutura, mas foi em um momento de muita dificuldade, porque o setor estava vivendo uma transição de governo, do Jair Bolsonaro, que é da direita e representa o setor, para um governo de esquerda do PT; um momento de muita instabilidade fiscal e econômica para o setor agropecuário, e acabou, de fato, prejudicando o setor, que ainda hoje não vive um momento tão bom no que tange à economia, aos resultados, à margem de lucro  Teve, logicamente, um trauma com relação à história do governador com o setor agropecuário. Agora veio mais uma crise com a decisão do ministro Alexandre Moraes de suspender as obras do convênio com o Ifag (Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás), e com toda certeza ficaram sequelas. Ficaram algumas feridas que talvez nem sejam curadas, mas entendo que o governador tem habilidade, o poder nas mãos para poder ir aos poucos curando isso e resolvendo esse problema, entregando o que de fato o produtor quer. Se ele está pagando o recurso, nós estamos pagando, porque eu sou produtor rural também, o mínimo que o governo tem que fazer é devolver isso em obras. 

Com a decisão do STF de suspender o convênio do governo com o Ifag, qual a expectativa do senhor em relação à taxa do agro?

Eu entendo que essa é uma decisão jurídica e tem que cumprir. Eu não estou acompanhando de perto, mas é preciso dialogar, tentar um recurso que o governo do estado, através da Procuradoria-Geral, já entrou com esse recurso e esperamos que seja revisto isso para as obras continuarem. Isso é o mínimo que o produtor rural espera. Se acaso não tiver como, o governo tem que tratar de agir com celeridade para poder fazer da forma que a legislação manda, que é através da Lei de Licitações, que é a Lei 14.133, para poder dar seguimento às obras. Nós não podemos trabalhar com a hipótese de as obras serem paralisadas, que a morosidade do poder público siga e não dê continuidade a essas obras. O estado está defendendo o caminho correto, que é mostrar que, com a paralisação das obras, há o risco de se deteriorar com o tempo. Mas eu entendo que isso tem que ser definido logo, se for para o lado positivo e retomar as obras, que é o melhor caminho, um caminho mais curto e mais tranquilo, ou então um plano B, que seria não autorizar e o governo fazer o processo devidamente legal, que é através da Lei de Licitações.

Quais as alianças o PL busca para a eleição de 2026? O PSDB é um possível aliado?

O PL caminha com a ideologia de direita, a ideologia de trabalhar com partidos ligados à mesma ideologia do PL. Você pode ter certeza que nós teremos chapas competitivas para deputado estadual, teremos chapas competitivas para deputado federal, teremos o nosso candidato a senador que hoje está posicionado à frente nas pesquisas, que é o deputado federal Gustavo Gayer, teremos candidato a governador. Eu não estou afirmando a candidatura do senador Wilder Morais, mas é o nome mais preparado, o nome mais próximo, o nome que tem mais condições, que hoje tem um mandato federal, que é ligado ao ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que é ligado ao presidente nacional Valdemar Costa Neto, é uma pessoa que tem condições, que tem história de vida, que tem capacidade administrativa para fazer com que Goiás se desenvolva ainda mais e siga crescendo em desenvolvimento, em desenvolvimento acelerado, como nós vemos a pujança econômica do Estado de Goiás. O PL vive um momento importante no estado, que terá candidaturas sólidas, candidaturas viáveis e que com toda certeza vamos trabalhar para fazer o governador, o senador e o maior número possível de deputados estaduais e federais.

O PL busca a filiação da deputada Maruss Boldrin? 

Isso é uma decisão muito pessoal da deputada. Oa convite já foi feito, não só por mim, que ela é da minha cidade, daqui de Rio Verde, como também pelo senador Wilder, que deixou aberto o convite. Ela não tem como sair agora, como qualquer outro parlamentar, porque só em março abre-se a janela. O deputado federal Gustavo Gayer, eu não conversei com ele sobre isso, mas acredito que ele já esteja conversando com alguns parlamentares em Brasília para poder fazer a composição e virem para o PL. A deputada Marussa tem uma representatividade também do setor agropecuário e tem a ideologia de direita, precisamos alinhar essas situações. Mas entendo que não teria dificuldade de ela vir para o PL, se for o desejo dela e da base política dela.

Além de candidatos do PL, o senhor pode apoiar candidatos de outros partidos, como Bruno Peixoto, do União Brasil?

Não é questão de apoiar. Cada cidade tem sua história. As lideranças políticas de cada município têm um relacionamento político com algum parlamentar. Eu tenho várias bases que vão me apoiar e deputados de outros partidos. Como, por exemplo, o deputado Bruno Peixoto, que é meu amigo; foi deputado comigo; enquanto eu era presidente, ele era líder do governo; fomos parlamentares por oito anos; e ele tem uma força muito grande no estado hoje, na sua pré-candidatura a deputado federal, e nós temos muitas bases em conjunto. Assim como é com o deputado Daniel Agrobom, com o deputado Lucas Calil e tantos outros parlamentares, tanto federal como estadual, que estão pleiteando a candidatura a deputado federal com quem nós vamos, com toda certeza, fazer algumas dobras em municípios. O porquê disso? Porque cada município tem sua história e eu preciso respeitar o entendimento e a opção das lideranças municipais. Essas bases optam por um deputado federal e optam por mim, no caso, como pré-candidato a deputado estadual. Precisamos respeitar isso e, dentro da realidade de cada município, da história de cada município, vamos consolidar esses apoios, essas parcerias políticas dentro do município. Vários deputados federais que hoje têm mandato, outros grupos que vão pleitear o mandato, nós vamos trabalhar em parceria e com alguns do PL também, que é natural, o próprio Fred Rodrigues, Maycon Tombini, do PL de Jataí, que é pré-candidato a deputado federal, e alguns outros que são do PL, mas nunca deixando de manter as portas abertas para os municípios com outras candidaturas que sejam de outras agremiações partidárias, mas que convergem dentro daquele município especificamente.

O senhor tem informação sobre o interesse do Daniel Agrobom de sair do PL?

Não tenho, não sei da condição dele, tenho conversado muito com ele, com a assessoria dele, tem vários municípios em que nós vamos trabalhar em parceria, vamos fazer dobras políticas. Mas eu não posso afirmar isso, porque as conversas que eu tive com ele até hoje, nós não tratamos desse assunto. Ele está no PL, está bem posicionado, o partido quer candidaturas que já estão no partido, que permaneçam, mas isso é uma opção muito pessoal dele e até mesmo de estratégia política.

O senhor falou que Wilder pode ser candidato a governador, mas ele ainda não se manifestou pela candidatura. O MDB é seu adversário político em Rio Verde, tanto que Daniel Vilela interveio no partido na eleição de 2022, tirou a Marussa Boldrin da presidência para garantir o apoio do MDB a Wellington Carrijo. Caso o PL faça aliança com a base do governador Ronaldo Caiado, o que também está em discussão, há possibilidade de o senhor apoiar Daniel para governador?

Eu sou muito de grupo, respeito a decisão partidária e continuarei respeitando a decisão do meu partido. Mas a informação que eu tenho é que o PL terá candidaturas em todas as esferas. Essa possibilidade hoje está descartada. O PL terá candidato a governador e eu trabalho incansavelmente para ser o senador Wilder de Morais o nosso candidato a governador. Mas qualquer decisão que o partido tomar no futuro será respeitada por mim e com toda certeza nós vamos seguir na trincheira que a direção estadual e até mesmo com a obra da direção nacional desse tipo.

O PL deve ter candidato a presidente da República ou apoiar algum candidato. O senhor fica com o candidato apoiado pelo PL ou com Caiado?

Eu entendo que o PL terá candidatura própria à Presidência da República, claro, escolhido exclusivamente pelo nosso líder maior, que é o ex-presidente Bolsonaro. Essa decisão e essa escolha com certeza vai ser logo ali na frente. Tarcísio de Freitas pode vir para o PL ou outro nome, como Ratinho Jr., como o próprio governador Caiado. Vamos aguardar a decisão, mas, como eu falei, a minha decisão, o veredito final do apoio aqui em Goiás, e tenho certeza que o senador Wilder pensa da mesma forma, é apoiar o candidato da direita oficial apoiado pelo presidente Bolsonaro. Eu não abro mão disso. Particularmente, o meu apoio a presidente da República será a indicação do ex-presidente Bolsonaro.

Em 2022, Bolsonaro não esteve em Rio Verde quando visitou Goiás e disseram, à época, que o senhor seria o candidato do Wilder e não o candidato dele. Isso procede?

Bolsonaro esteve em Rio Verde, inclusive ficou dois dias lá. Ele esteve na pré-campanha e, depois, na campanha, não foi possível por conta da agenda dele ser muito corrida. Mas o presidente Bolsonaro esteve em Rio Verde, fizemos quatro reuniões durante dois dias na cidade, fizemos um encontro com líderes classistas, que reuniu mais de 1,5 mil líderes classistas e religiosos. Depois fizemos um evento político, também fizemos uma carreata na cidade. Ele esteve, sim, no mês de julho de 2024, em Rio Verde, na minha pré-campanha, consolidando e avalizando nossa pré-candidatura.

Em 2023, o senhor disse que o agro via com preocupação o governo Lula. Passados dois anos, como está a relação do agro com o governo federal? As diferenças são mais ideológicas ou o governo não tem atendido as demandas do setor?

O setor está extremamente preocupado, extremamente ansioso com tudo que vem acontecendo na economia do país: máquina administrativa extremamente inchada, taxas de juros altas, acesso ao crédito cada vez mais limitado, a possibilidade de fazer investimentos com muita dificuldade e até mesmo a insegurança fiscal e jurídica que vivemos hoje no nosso país. Se eu falei isso em 2023, dessa preocupação, hoje eu falo que ela aumentou. Estamos em um momento de muita dificuldade, muitos produtores rurais estão tentando renegociar as suas dívidas, eu não falo nem tanto aqui em Goiás, mas no Brasil; as frustrações sequentes de safra no Sul do país, ano após ano; todos esses problemas que estão acontecendo, e o setor agropecuário está com a margem muito reduzida. Por isso que eu tenho falado muito e falei e defendi, à época, sobre a não incidência do Fundeinfra. Porque isso pesa muito na conta final da margem de lucro do produtor rural. Nós temos taxas de juros beirando 20% hoje, isso é inviável, é impagável para o setor agropecuário; nós temos um alto custo de produção e nós temos um passivo, até mesmo lá de trás, de alguns investimentos que foram feitos pelos produtores e que hoje muitos deles não estão conseguindo saldar com seus compromissos. Precisamos rever as políticas públicas, precisamos diminuir a taxa de juros, precisamos diminuir o inchaço da máquina administrativa, porque isso impacta na economia de todos os setores do país, obviamente. O que vemos no governo PT é buscar mais arrecadação para cobrir o déficit, o rombo orçamentário. Já se cogita taxar as exportações, interferir na Lei Kandir, que beneficia o setor primário do nosso país; já se cogita aumentar vários outros tipos de impostos; foi feita uma reforma administrativa que não foi benéfica para o setor agropecuário. Tudo isso preocupa muito o setor agropecuário e o governo PT não é um governo que atende às expectativas e deixa nós, pecuaristas, agropecuaristas, produtores rurais inseguros com o futuro do país.

Pesquisa