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“Eu nasci na política e não descarto ser candidata”

Ana Paula Rezende fala sobre o episódio ocorrido na Câmara Municipal no dia 15 de outubro, que gerou incômodo no MDB


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 23/11/2025 - 00:02

Foto: Divulgação
Ana Paula Rezende mantém a essência de seu pai, Iris Rezende, ao receber visitas no escritório que pertenceu a ele, no Setor Oeste. Assim como Iris, ela não recebe sentada do outro lado da mesa, mas lado a lado, sempre com café e pão de queijo quente para oferecer. Ana Paula nasceu na política e certamente o caminho dela continua a ser por ela. Nesta entrevista, ela fala sobre o episódio ocorrido na Câmara Municipal no dia 15 de outubro, que gerou incômodo no MDB, e afirma que está aberta a disputar a segunda vaga para o Senado na chapa de Daniel Vilela.

TRIBUNA DO PLANALTO – De onde surgiu a ideia do Memorial Iris Rezende Machado e qual o propósito dele?

Ana Paula Rezende – A ideia — engraçado — começou com meu pai. Quando ele terminou a carreira política e saiu da prefeitura, ele veio para cá, para o escritório. E pediu: “Minha filha, vamos colocar umas fotos no corredor e assim a gente pode contar minha vida política, desde quando fui vereador até o final. E, quando as pessoas vierem me visitar, eu vou contando minha história”. Ele gostava e já tinha entendido a importância da história dele. Eu disse: vamos fazer. E chamei uma amiga minha, arquiteta, que hoje é a diretora do Memorial, Ana Paula Alves, e falei: “Pai, conta para a Ana Paula o que o senhor quer aqui, e ela vai ajudar a gente”. Ele ficou quase três horas conversando: “Porque aqui pode pôr umas prateleiras de quando eu fui ministro, aqui quando eu fui isso… e a gente vai contando a minha vida desde quando eu vim de Cristianópolis; presidente do grêmio estudantil do Lyceu de Goiânia e da Escola Técnica de Campinas”. Contou tudo e mostrou muita coisa que tinha ganhado. Quinze dias depois, meu pai adoeceu, e nem chegamos a mexer com esse projeto. Três meses depois, ele faleceu. Depois que ele faleceu, chamei a Ana Paula para fazermos do jeitinho que ele queria, aqui no escritório; e eu iria contar a história para as pessoas como ele queria. Aí pensei: a história do meu pai é muito maior do que isso aqui, e essa história não é minha. Eu não posso guardar aqui dentro. E falei: “Ana, vamos fazer um memorial”. E comecei a procurar um lugar. Tentei a Assembleia antiga, que estava fechada, mas não tinha jeito porque havia briga sobre quem iria para lá. Um dia, levando minha mãe ao Flamboyant, ela falou: “Minha filha, a Casa de Vidro… por que você não faz o memorial do seu pai aqui? Eu que trouxe a verba, ele que construiu, e não virou nada, porque era para ser uma escola para crianças carentes de arte, música e dança”. Mas tinha que ver na prefeitura. Perguntei se ela iria comigo caso eu conseguisse marcar com o prefeito — era o Rogério Cruz — e ela concordou. Eu estava tentando marcar quando minha mãe adoeceu. Fiquei um tempo perdida, porque foram duas perdas muito próximas e foi muito agressivo para mim. Um dia, eu estava aqui no escritório, já nem pensando mais no memorial, porque havia decidido dar um tempo para me estruturar, quando minha secretária falou que o vereador Clécio (Alves) queria me fazer uma visita. Na hora eu pensei que o Clécio tinha dado tanto trabalho para o meu pai, e eu tinha problemas com ele por causa da prefeitura, mas decidi recebê-lo do jeito que meu pai receberia. Eu estava mais sensibilizada. Na hora em que ele entrou aqui, falou: “Ana Paula, vim aqui para a gente fazer as pazes. Eu sei que temos problemas, mas eu gostava demais do seu pai e estou vendo que você está procurando um lugar para fazer o memorial. O que você acha da Casa de Vidro?”. Aí contei para ele que minha mãe tinha dado essa ideia, e ele disse que ia arrumar isso para mim. Um mês depois, ele chegou aqui com a lei aprovada. Ele foi atrás de cada vereador, e a maioria deu R$ 100 mil — não foram todos — e ele deu mais. Ele falou: “Você tem isso aqui para fazer o memorial”. Eu me assustei e falei que queria muito fazer, mas sabia como funcionavam essas emendas e tinha medo: “Se você me prometer que cada centavo vai passar por mim, eu é que vou direcionar, vou atrás das empresas… Tem muita coisa que não tem aqui”. “Ana Paula, do jeito que você quiser.” E assim foi. Não tive problema com o prefeito, tenho que ser justa: tudo que eu pedia, ele autorizava na hora. Mas no final tive um problema com o secretário de Cultura, porque tinha que passar pela Secretaria de Cultura, já que o memorial é da Casa de Vidro Antônio Poteiro. Eu perdi R$ 600 mil porque não me submeti ao que o secretário queria. Eu aceitei esse tipo de situação porque meu pai ficou 70 anos na vida pública e não deixou uma mancha. Fiz uma denúncia no Ministério Público, porque não podia simplesmente perder esse dinheiro, que não é meu, é público. Fiz a denúncia, expliquei tudo, e a investigação está correndo. Foi o que consegui, e alguma coisa particular: o piso eu coloquei; a Fieg me ajudou com a sala de espelho, me deu o espelho e o carpete do cinema. Aí precisei ir atrás de ajuda para terminar, porque não queria fazer nada mais ou menos. Acho que a cidade merece, que meu pai merece uma homenagem pelo que fez. Ninguém amou mais este Estado e esta cidade, e fez por ela, do que ele. A gente tem que honrar essa história. Comecei a pedir ajuda: para um, para outro. Pedi demais. Eu tinha tanta dificuldade em pedir; hoje eu peço com a maior facilidade, porque não é para mim, é para um propósito maior. Fui atrás do governador (Ronaldo Caiado), do Sandro (Mabel), do prefeito, dos deputados… Ia em cada um, e nada. Chamei o Daniel (Vilela), que é presidente do partido, para ir lá conhecer, e ele foi. “Me ajuda, você está lá dentro, é vice-governador.” E não consegui. Naquele dia na Câmara (15/10), entreguei um ofício pedindo ajuda para cada vereador. O Anselmo Pereira sugeriu me dar a palavra para fazer o pedido para todos. E assim eu fiz: entreguei o ofício, ele me deu a palavra, e fiz um apelo: “Vocês começaram aquele memorial, ele está lá porque vocês me ajudaram”. Contei a história: tentei muito, andei muito, mas não consegui ajuda. “Então eu volto aqui, que foi onde meu pai terminou a vida política dele. Vamos terminar a obra.” Fiz — não sei se um desabafo — mas um apelo ao partido pelo qual ele tanto lutou até o fim. Era lealdade, um amor, porque ele sabia que um partido forte é instrumento para ajudar pessoas. Ele nunca deixou esse partido. Eu não imaginei que teria a repercussão que teve. Sei que depois disso recebi muitas visitas e muitas promessas de ajuda; ainda não entrou nada, está parado, mas acho que vou conseguir terminar.

Falta o quê para terminar?
É o projeto do prédio público mais bonito de Goiânia. Ele é cheio de sentido. O Leo Romano fez esse projeto e me deu de presente. Tem um busto de 4 metros e meio pronto em São Paulo, do mesmo escultor que fez o do Ayrton Senna. É feito de dois materiais sustentáveis, mais barato do que o alumínio, e 40% de madeira. O busto é o rosto dele quando foi governador, em 1982, ápice da carreira política. Vamos ter um café escola, que o Sesi vai montar de acordo com o projeto do Leo, que criou como se fosse uma pele que vai revestir o prédio. Não vamos derrubar nada, não haverá construção. O prédio tem problemas estruturais que a prefeitura já poderia resolver, mas acho que agora isso não é uma opção. Por um lado, eu não queria que tivesse tido a repercussão que teve, porque não queria prejudicar ninguém. “Ah, foi ruim para o Daniel.” Eu não quis isso; minha intenção não era essa. Eu simplesmente falei que precisava terminar o memorial. Meu foco não é político. Não estou preocupada com o que vai pegar bem ou mal para fulano. Estou preocupada com a história do meu pai. Tenho falado isso para todos que entram aqui. Este ano, se o Paulo Ortegal veio aqui dez vezes, nas dez eu falei: “Paulo, fala lá com o MDB; temos que fazer uma homenagem para meu pai. O MDB não fez uma — nem em vida e nem depois que ele morreu”. O que seria desse partido sem ele? Chega um prefeito do MDB aqui, e eu reclamo para todos. Ninguém toma atitude. É como se ninguém estivesse me ouvindo. Por outro lado, apesar da repercussão — sei que não foi boa para o MDB — acho que eles acordaram para a importância da história que tivemos. Agora está todo mundo preocupado. O governador já me chamou, o prefeito foi ao memorial ver o que faltava: “Ah, porque não precisava; se você tivesse falado…” Eu falei: “Sandro, todas as vezes que encontro você, eu peço.” Todos dizem que vão ver como fazer, porque é um prédio da prefeitura. Eu fico esperando, mas nunca recebo retorno. Agora acho que vou conseguir terminar.

Falta o quê?
A estrutura do prédio tem problemas com água, drenagem, infiltração, e ali tem milhões em aparelhos. Se entrar água, o prejuízo é enorme. Eu estou mantendo aquele prédio. Se está entrando água, tem que trocar algo, eu vou lá e troco. O ar-condicionado estragou, e os aparelhos não podem ficar sem ar — alguns precisam do ar ligado o tempo inteiro — eu conserto. O café, sou eu. Eu falei: “Sandro, estou mantendo um prédio que é da prefeitura, nem café vocês mandam”. Faço isso com o maior prazer para receber o público, mas falta apoio, falta preocupação. Essa é a nossa história. Para o mundo político, é muito importante. Quando querem mostrar a imagem, eles lembram. Mas, fora isso, não me dão atenção para reconstruir a história dele. Meu apelo foi esse, que hoje acho que deu resultado.

Qual é a proposta do memorial? Como você pensa em contar a história de seu pai?
Quero que seja um lugar onde as pessoas entrem de uma forma e saiam de outra, que reflitam e passem a exigir mais do mundo político. Quero que conheçam: essa é a política verdadeira; a política que transforma, melhora a vida do povo, faz diferença. Goiânia não seria a única capital do Brasil com mais de 1,5 milhão de habitantes sem favelas por sorte; foram projetos públicos pensados e executados ao longo de uma vida. Desde a primeira gestão, em 1965, a grande preocupação dele era dar dignidade. Começava uma favela, ele tirava e construía casas. É uma vida inteira preocupada com abastecimento de água, energia elétrica, ações que não dão resultado imediato. Mas a política tem que pensar nos próximos 20, 30, 50 anos. É isso que quero que as pessoas vejam ali: a importância da política. A importância de escolher um político verdadeiramente preocupado com o bem-estar da população, não consigo mesmo. Os valores estão se invertendo. A política está mudando de forma, e não podemos aceitar isso como normal, porque não é. Hoje ouvimos: “2026 está aí, temos que fazer isso, temos que fazer aquilo…” e todo mundo acha normal. Mas isso não é normal. A política não foi feita para pensar na próxima eleição, mas na população. Ali será um local de informação e reflexão, para que as pessoas se interessem por conhecer o político, por viver a política. Hoje ninguém quer mais, porque não parece interessante; porque só se vê escândalos, impunidade. As pessoas desacreditam. Meu pai falava muito isso: faltava as pessoas quererem participar mais. E ele entendia o motivo — porque estavam desacreditadas.

Como disse, seu pai é sempre citado como referência política, mas me parece que ele não tem um herdeiro político. Por quê?
Eu acho que por falta de sensibilidade dos políticos, porque nós tivemos a melhor referência, o melhor exemplo perto de nós. Era tão perto, era tão comum, que às vezes o mundo político não dava a importância que merecia cada ação, cada atitude dele. Foi uma vida inteira com aquela mesma coerência, com aquele mesmo sentimento, com aquela sensibilidade e sabedoria política. Ele foi um grande professor, e que bom que alguns puderam conviver com ele e pegar um pouco disso dele. Eu acho que existe, sim; acho que temos tudo para continuar essa política, porque ela esteve aqui perto de nós. Essa política que transformou esse Estado inteiro. Falta um pouco de sensibilidade política, porque no mundo hoje tudo é tão rápido, ninguém para para pensar e refletir. Está todo mundo muito preocupado com a próxima eleição. O objetivo maior do memorial é esse: lembrar que a gente pode fazer essa política; lembrar aos políticos que a política verdadeira é essa: vamos mudar, vamos transformar. Que sentido tem a vida se você não fizer o bem? Hoje eu vejo que meu pai tinha essa noção de vida e de tempo. Tanto é que ele tinha urgência. Meu pai nunca perdeu tempo com coisas pequenas; ele não tinha lazer, não tinha vida familiar, não tinha nada. Era só a política, mas ele sabia da importância e tinha a vida dele como missão: “Eu vim aqui para isso.” E ele fez, ele cumpriu. Ele fez política até o último dia de vida dele, com mandato ou sem mandato. Meu pai não fazia outra coisa. Ele tinha essa noção da importância de um trabalho com responsabilidade, com zelo — o zelo que ele tinha com a coisa pública. Ele falava: “Esse dinheiro é do povo”, e desse dinheiro ele fazia conta de centavo. Claro que ele não conseguia controlar tudo, mas, da forma que podia, ele fazia. E ele sempre quis dar esse exemplo e sempre ensinou isso para nós, família. Tentava mostrar para o mundo político, da forma dele, o cuidado que tinha com a coisa pública em pequenos gestos. A coisa particular dele, ele entregava para mim e não queria saber, não queria tomar conhecimento. Ele sabia que eu estava aqui, que não tinha ninguém “furtando ele”, como ele falava: “Agora você toma conta, minha filha, porque eu vou é cuidar do povo”. E assim ele fez. Meu pai foi muito coerente nos mínimos detalhes. Ele nunca nos permitiu fazer nada que não fosse do nosso negócio: “Não inventa sociedade, não inventa comprar nada que não seja do nosso negócio.” A vida pública dele era daqui para lá, e ninguém entra aqui. Ele tentava mostrar isso.

Por que ele não deixou uma pessoa que pudesse dar continuidade a esse modelo de fazer política?
Eu acho até que ele tentou. Ele tinha muita esperança nos jovens; tinha muitos secretários jovens. Ele incentivava muitos jovens a entrar na política. Nunca incentivou a família, nunca incentivou os filhos. E eu entendo por quê: porque o mundo político é selvagem, e não é fácil. Tanto é que eu tenho muita insegurança de enfrentar esse mundo político sem ele estar aqui. Mas acho que ele tentou. Só que — é difícil falar isso — eu não enxergo.

Você já manifestou interesse em participar de eleição no passado. Neste momento, como está a sua intenção de se candidatar a algum cargo?
Eu não descarto ser candidata, e cada dia que passa eu me vejo mais na política. Eu não consigo ficar sem, porque é onde eu sinto a presença dele, e eu não tenho outro meio — e nunca tive outro também. Eu nasci, meu pai era prefeito. Na próxima eleição, tenho pensado em colocar meu nome para a disputa pela segunda vaga do Senado. Mas, hoje, vejo também que, através do instituto e do memorial, posso estar dentro da política, fazer ações que façam referência a ele e mudar a vida das pessoas sem um cargo político. Eu não sei se preciso ter um cargo político para continuar esse propósito.

Mas tem vontade de ter um cargo político?
Eu gosto de política, eu gosto. Tenho um pouco de incertezas em relação a esse mundo político do jeito que ele está hoje.

Sempre que se manifesta, provoca alguma mudança no quadro político, mesmo que não seja intencional. De alguma forma você já está inserida nisso.
Veja como a presença dele ainda é forte, porque não sou eu que provoco isso. Se você for pensar, as pessoas não me conhecem. Quem me conhece é mais o meio político. Mas a presença dele ainda é tão forte que ele continua mudando, continua incomodando, continua influenciando o mundo político até hoje.

 

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