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A justiça que tarda, mas chega: Por que a prisão de Bolsonaro e de generais golpistas representa uma reparação histórica ao Brasil


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 27/11/2025 - 08:22

Bolsonaro prisão domiciliar

A história política brasileira é marcada por feridas profundas que, por décadas, ficaram abertas e sem qualquer sinal de reparação. Quando figuras centrais de recentes articulações golpistas — entre elas Jair Bolsonaro e generais de alta patente — foram responsabilizadas judicialmente e condenadas por ataques ao Estado Democrático de Direito, muitas dessas feridas começaram, enfim, a ser revisadas. Não se trata de vingança, perseguição ou revanchismo: trata-se de justiça histórica. Uma justiça que chega com atraso, mas cuja necessidade é inegável.

Para compreender a dimensão simbólica e política desse momento, basta olhar para trás. O golpe civil-militar de 1964 foi um dos episódios mais traumáticos de nossa história contemporânea. Com apoio declarado de setores conservadores, de parte da imprensa e de grupos empresariais que financiavam o movimento, os militares construíram a narrativa de que o então presidente João Goulart havia abandonado o país — uma mentira arquitetada para legitimar, perante o Congresso, a deposição de um governo constitucionalmente eleito. A partir dessa farsa, instaurou-se uma ditadura sob o pretexto igualmente falso de combater o comunismo — uma ameaça inexistente no Brasil da época.

O que seria, segundo os próprios articuladores, uma intervenção transitória, converteu-se em 21 anos de autoritarismo, que se aprofundaram a partir dos Atos Institucionais, especialmente o AI-5. A partir daí, multiplicaram-se prisões arbitrárias, cassações de mandatos, censura prévia à imprensa, fechamento do Congresso, intervenções no Judiciário e a criação dos temidos aparelhos de repressão, como o DOI-CODI. A máquina estatal foi direcionada para calar, perseguir, torturar e eliminar opositores.

A lista de crimes desse período é extensa, mas alguns casos tornaram-se símbolos: Vladimir Herzog, jornalista assassinado cujo corpo foi apresentado em uma encenação grotesca de suicídio; Honestino Guimarães, jovem líder estudantil goiano que desapareceu nas mãos do regime e jamais foi encontrado. Ao lado deles, milhares de outros brasileiros foram presos, torturados, mortos ou forçados ao exílio. Essas vidas interrompidas e famílias destruídas formam um legado doloroso, agravado pelo fato de que, após a redemocratização, quase nenhum responsável foi punido.

A Lei da Anistia, criada para proteger perseguidos políticos, incorporou o famoso “jabuti” que também blindou torturadores e assassinos. O caso do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — exaltado publicamente por Jair Bolsonaro — tornou-se emblemático: reconhecido oficialmente como torturador pela Justiça, jamais pagou por seus crimes. Era a prova de que, no Brasil, a impunidade dos agentes da repressão se transformara em política de Estado.

Décadas depois, a democracia enfrentou novo abalo. O capitão reformado e deputado do baixo clero, Jair Bolsonaro, ascendeu ao poder em meio a um ambiente de radicalização e polarização. Seu governo mergulhou o país no caos institucional e humanitário, especialmente durante a pandemia de Covid-19, que deixou mais de 700 mil mortos — enquanto o presidente negava a ciência, boicotava medidas sanitárias, estimulava aglomerações e jamais demonstrou mínima empatia. Foi uma gestão marcada pela irresponsabilidade e pela incapacidade de assumir decisões necessárias para preservar vidas.

Derrotado nas urnas, Bolsonaro e seu núcleo duro — formado por generais e civis próximos — partiram para uma aventura golpista. Mais uma vez, setores militares, historicamente refratários à democracia, estiveram envolvidos. O plano foi desastroso e mal articulado, reflexo da incompetência de seus idealizadores, e foi justamente essa incompetência que impediu que o Brasil retornasse ao pesadelo autoritário.

Desta vez, porém, havia algo diferente: as instituições reagiram. As investigações avançaram, e figuras centrais, como o general Augusto Heleno, o general Braga Netto e outros militares de alta patente, foram julgados por um tribunal civil, com ampla defesa e devido processo legal. As condenações representam algo muito maior do que punições individuais: simbolizam uma correção do passado, uma mensagem inequívoca de que o Brasil finalmente amadureceu democraticamente.

A prisão de golpistas — sejam generais, políticos ou ex-presidente — é, portanto, uma reparação histórica. É a afirmação de que o país não aceitará mais rupturas institucionais, nem permitir que a memória dos perseguidos pela ditadura seja relativizada, negada ou tratada com deboche. É também uma homenagem direta a nomes como Honestino Guimarães, Vladimir Herzog e tantos outros que deram a vida pela liberdade, pela justiça e pelo futuro democrático que hoje defendemos.

Que esse momento sirva como marco definitivo. Que o Brasil nunca mais seja refém de golpistas, de autoritários, de nostálgicos da tortura. Que nossa democracia siga sendo, acima de tudo, um compromisso com a memória, com a justiça e com a dignidade humana.

Viva Honestino Guimarães. Viva Vladimir Herzog. Viva todos que tombaram lutando contra a ditadura. Prender golpistas não é perseguição: é justiça. É história sendo reparada.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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