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“Mabel é o Iris 2.0”

Em entrevista, o vereador Lucas Kitão (UB) discute a política em Goiás, sua lealdade ao governador Ronaldo Caiado e as projeções para 2026


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 06/12/2025 - 22:59

Lucas Kitão - vereador (UB)

Nesta entrevista, o vereador Lucas Kitão (UB) fala abertamente sobre os rumos da política em Goiânia e no Estado, detalhando sua relação com o União Brasil, sua lealdade ao governador Ronaldo Caiado e as possibilidades para 2026. Kitão comenta ainda a condução da gestão Sandro Mabel, que ele compara a uma versão atualizada do estilo administrativo de Iris Rezende, e defende modelos de terceirização que considera mais eficientes em áreas como educação e parques. O vereador discute o desafio de recuperar o IMAS, a rigidez fiscal adotada pela prefeitura e a necessidade de diálogo com a Câmara para viabilizar projetos estruturantes. Também explica por que recusou ser secretário de Gestão para permanecer no Legislativo e liderar mudanças legais que considera essenciais para modernizar a administração municipal.

TRIBUNA DO PLANALTO – Em 2022, você deixou o PSD em meia disputa para ser candidato a prefeito pela legenda e se filiou ao União Brasil. Ano que vem tem planos de deixar o União Brasil para disputar a eleição para deputado?

LUCAS KITÃO – Na verdade, estou muito bem na União, fui muito bem acolhido, o governador abriu todas as portas para mim. Você lembrou bem que eu estava numa situação muito sensível na época,  estava acabando o prazo das filiações e, no PSD, não tinha clima, não tinha chapa, não tinha espaço, até porque eu tinha pedido uma prévia interna para discutir Goiânia, infelizmente o dirigente do partido não dá espaço para outros grupos. Novamente agora com o Gustavo Mendanha. Naquele momento, o União foi muito solidário comigo, o governador já havia escolhido (Sandro) Mabel, e eu não poderia tentar trabalhar minha pré-candidatura, mas o partido me acolheu, tinha um projeto muito bom e eu tinha legenda para disputar para vereador. Por gratidão, inclusive, não tenho previsão de saída do UB. O que eu tenho é lealdade ao governador e vou acompanhá-lo; se ele continuar no UB, eu continuarei para apoiá-lo em seu projeto presidencial.

Mas e a sua candidatura a deputado? Qual o cálculo que você faz ali para conseguir uma cadeira na Alego?

Sendo bem sincero, isso é secundário. A prioridade é o projeto do governador para presidente e do Daniel Vilela para governador. Alinhado a isso, vamos ver as chapas, porque se for pensar de forma pragmática, são coisas que estão ligadas diretamente.  Primeiro, a permanência do governador no UB é um detalhe que afeta as chapas. Acho que é muito cedo para falar que eu não sou viável no UB. Eu prefiro esperar a definição dele, esperar o Daniel na formação da base que vai sustentar a candidatura dele à reeleição e também a questão da federação do UB com PP. Se ela não for mesmo formalizada, é um cenário; se for, é outro. Essa discussão é mais para o futuro mesmo.

Sobre a possibilidade de Caiado sair do União Brasil. Com quais cenários você trabalha para 2026 com relação à eleição para presidente?

A única certeza que nós temos é que o Caiado é candidato de todas as formas, sendo pelo União ou não. Mas, politicamente falando, acho que o UB perde muito, porque a candidatura do Caiado soma muito, é uma candidatura real, é um tema que é muito necessário para o Brasil, que é a segurança pública. Um partido grande precisa de boas candidaturas. O UB diminui quando fala em composição e não em candidatura própria, principalmente quando tem um nome muito competitivo e muito coerente como é o do Caiado, dentro dessa direita moderada. Caiado é candidato, e eu torço para que seja do UB, justamente por ter um tempo de televisão maior, capilaridade em todo o Brasil, mas  isso depende dos mandachuvas do partido.

A alternativa do Caiado é o Solidariedade. Você o seguiria para um novo partido? ?

Ele recebeu o convite do Solidariedade e do Podemos, e tem outras siglas o buscando. Eu o seguiria em um projeto, a questão partidária seria uma discussão em outro momento. Vamos aguardar que ele defina o futuro dele e o resto vai ser natural.

Você foi considerado um dos vereadores da base insatisfeitos com o Paço. Como está  sua relação com o Paço hoje? Por que deixou o bloco Brilha Goiânia na Câmara? 

Tenho trabalhado muito para explicar isso para o pessoal. Eu não sei de onde tiraram essa questão de estar chateado, porque a única situação que eu não quis nenhuma mudança foi em relação à CEI, porque acho que esse contrato (com a LimpaGyn) precisa mesmo ser avaliado e o serviço precisa melhorar. Foi o único ponto que falei e não quis tirar minha assinatura por ser a favor de melhorias no serviço, inclusive otimizando o contrato. Mas não tive divergência, nunca fui à tribuna questionar ações ou criticar secretários. Pelo contrário, desde a reforma administrativa e a transição, estamos fazendo tudo que a nova gestão precisa para se dar bem. Mas isso não quer dizer que eu não possa questionar alguns contratos que inclusive foram celebrados na gestão passada. E eu disse isso ao prefeito: eu acompanhei isso, foi uma dispensa de licitação, foi um contrato assinado às pressas. Eu acho que a gente precisa melhorar ele e melhorar o serviço. O único ponto de discussão foi esse. No geral, está tudo certo, e ser da base não quer dizer que a gente não possa questionar algumas coisas. Eu tenho uma relação muito próxima e tranquila com o prefeito e esse momento é de reconstrução, tem que ter paciência. Eu tenho falado muito isso para os colegas, porque às vezes o pessoal generaliza, a Câmara estava acostumada com um jeito de gerir muito diferente do Mabel,e esse é um período de adaptação.

Você foi vereador em três gestões diferentes, Iris Rezende, Rogério Cruz e agora Sandro Mabel. Na sua avaliação, qual dá melhor resultado para os vereadores e para a cidade?

São métodos muito diferentes. Iris era muito assertivo nas ações, falava pouco e tinha um controle muito grande dos gastos. Isso fez bem para a cidade, porque ele sucedeu Paulo Garcia, que tinha feito uma bagunça administrativa, apesar de ter deixado um legado bacana na mobilidade, com as ciclovias. Mas Iris foi necessário naquele momento e o estilo dele fez bem para a prefeitura na questão administrativa, apesar de a gente discordar também de algumas coisas, o jeito dele mais analógico, ele incentivou muito o viaduto, mas a gestão dele era muito boa, muito assertiva. A diferença dele com o Rogério é essa, o Rogério foi um descontrole total. Politicamente, alguns colegas da Câmara cresceram nesse descontrole do Rogério, em questão de poder. E essa é a impressão que eu tenho. Já o Mabel, é uma gestão muito parecida com a do Iris, só que no tempo novo, em uma situação mais digital. Mabel é muito rígido com gastos, como Iris era, só que ele é mais moderno, já está muito mais ligado, por exemplo, em tecnologias de gestão, em sistemas de monitoramento; ele está modificando o sistema de gestão do Paço, de licenciamento, investindo em supercomputadores. Eu resumiria que a gestão do Iris e a do Mabel são parecidas, e o Mabel é um gestor como Iris 2.0, mais atualizado. E a gestão do Rogério foi um show de horrores. Fazendo um paralelo com a Câmara, talvez alguns colegas ainda prefeririam a gestão do Rogério por crescerem politicamente e ter mais poder, mas nem sempre isso é bom para a cidade.

Uma marca da gestão do Mabel é a terceirização. A gestão do lixo é feita por um consórcio, tem organização social na saúde, há um fortalecimento nos convênios na educação e projetos para repassar o IMAS para uma empresa gestora, além de cemitérios e parques. Qual o limite desse modelo de gestão?

Vamos por partes, porque a gente viu Mabel buscando parcerias em várias áreas.  Na educação foi uma solução muito inteligente, porque conseguiu abrir quase 9 mil vagas sem construir um único colégio e numa rapidez muito grande. Isso a gente precisa ressaltar positivamente. Mabel conseguiu vagas em vários bairros e em alguns ele teria que ter 10, 15 vagas. Não faz sentido construir uma escola que demoraria dois, três anos. Via parceria com as entidades, ele conseguiu viabilizar essas vagas em uma escola com qualidade de ensino e atendimento, estrutura, e está pagando um preço que a prefeitura consegue pagar. Foi muito inteligente e um ponto positivo. Já no lixo chega a ser contraditório, mas ele está relutando para reconstruir o nosso aterro e não precisar terceirizar os resíduos, justamente por questão econômica. Nem tudo ele escolhe a terceirização como saída. Já nos parques e praças, eu tenho participado ativamente desse processo desde o início da gestão, quando estava na secretaria, por questão de melhora do serviço e economia. Porque se passar a gestão de um parque e de uma praça para uma empresa, a prefeitura passa de prestador para fiscalizador, economiza milhões e melhora o serviço. Não estamos falando de cobrar acesso ou fechar os parques; pelo contrário. A empresa que assumir vai ter a obrigação de cuidar do parque, e além de a prefeitura economizar, vai ser mais rápido trocar a lâmpada, a empresa não precisa licitar para comprar um novo maquinário; vai melhorar e a prefeitura vai economizar. “Ah, mas qual que é o milagre?” O milagre é que a empresa vai poder explorar a publicidade nesses locais, como se vê no Ibirapuera e em outros lugares. É uma saída muito boa e ele opta por esse modelo quando é vantajoso. Eu faço questão de participar, de entender e quando for bom defender, como eu estou fazendo aqui. Eu defendo o modelo da educação porque foi bom, barato, resolutivo, rápido, inteligente; o modelo dos parques, da mesma forma. Em relação ao resíduo já há essa dúvida. O prefeito está preferindo ainda apostar no que é nosso. E de uma forma geral, faz sentido a prefeitura ficar cuidando de cemitério? Não é melhor focar as energias na educação, na saúde, na mobilidade, na iluminação, na coleta, do que nessas coisas? Os mercados municipais estão esquecidos, muitos precisam de reformas. Agora na época das chuvas, todos têm problema de infiltração e justamente porque a prefeitura não tem essa agilidade na gestão para investir, modernizar, fazer propaganda, trazer novos comerciantes, eventos com frequência. É mais inteligente passar a gestão para iniciativa privada, para o terceiro setor, para a comunidade, para as associações, porque eles fazem com mais rapidez e fazem com mais qualidade, pagando menos.

E a solução que Mabel vem buscando para o IMAS? Ele falou, inclusive, que se por acaso não resolver, ele vai acabar com o IMAS. 

O IMAS é uma grande preocupação da gestão. E quando Mabel fala em acabar, acho que ele quis dizer que vai fazer uma parceria, por exemplo, e passar essas vidas seguradas para o Ipasgo, para outro plano; não é simplesmente acabar. O que eu ressalto nem é essa fala dele, mas o que tem por trás disso: “se o nosso plano de recuperação não deu certo, a gente vai procurar outra saída”. Antes de tomar essa decisão, ele vai tentar recuperar o plano. E isso passa por fazer um novo regimento, fazer atualização das tarifas, porque o IMAS, além de ter sido mal gerido nas últimas gestões, ele ainda é desatualizado na questão financeira. Nenhum outro plano de saúde tem uma tarifa como a do IMAS. Um servidor tem alguns familiares no plano e pagam um valor simbólico, praticamente. Um médico, brincando comigo, falou que se esse agregado fizer um hemograma por mês, ele já deu 200% de prejuízo para o plano. A conta não fecha. Além da má gestão, ainda tem que atualizar esses valores para o plano ser superavitário. É o que a prefeitura vai tentar fazer nesses próximos meses. E caso não seja possível, aí sim pensar na transição para outro plano.

Em relação ao regime emergencial, há uma proposta na Assembleia para encerrar a medida de forma antecipada. É necessária a manutenção do regime emergencial, mesmo com os resultados que a prefeitura vem obtendo?

O prefeito avalia prorrogar a calamidade para saúde, que realmente é o problema mais sério da cidade. Indiscutivelmente, todos sabemos que ele foi muito feliz e está colhendo os frutos do aperto financeiro bem rígido que fez para ter um resultado positivo esse ano, inclusive histórico. Ele conseguiu um superávit que a cidade nunca tinha obtido nos dois primeiros quadrimestres, mais de R$700 milhões. Eu acredito que ele consegue, nesse primeiro ano, economizar um R$1 bilhão para sanar as dívidas e ter uma perspectiva de investimento no ano que vem. No que tange à saúde, na última prestação de contas, acredito que ele vá trazer – se for mesmo a intenção da gestão de prorrogar a calamidade na saúde – esses números para todos. Se vai pedir para prorrogar, tem que se avaliar os números, mas de uma forma geral, eu vejo com muito bons olhos esse jeito de gerir mais preocupado. Tem gente que reclama que está muito rígido, mas eu acho que o momento é necessário para colher os frutos nos próximos anos. Porque não adianta viver só para pagar a folha. Se pegarmos 52% – sem contar com a Comurg, com a Comurg vamos para quase 60% – do orçamento só para a folha. Mais 25% de educação, 15% da saúde, mais o crescimento vegetativo, despesa fixa e custeio vai para quase 80% do orçamento comprometido com pagamento de folha, despesa básica e investimento vinculante. É uma margem muito pequena para fazer grandes investimentos, grandes obras na cidade, a não ser que se faça isso que ele está fazendo, que é um aperto, uma gestão rígida, economicamente falando, para ter condição de investir, para melhorar a nossa nota na Capag, para tirar um crédito justo, para ter acesso a financiamentos públicos. É o que ele tem feito.

Mabel passou a fazer reuniões com os vereadores na Câmara, individuais e em grupo. Essa nova dinâmica vem tendo resultado para melhorar a relação com a base e a Câmara?

Melhora muito. Inclusive, ninguém pode reclamar que ele não é acessível, porque além disso, ele atende telefone, é solícito. O pessoal está entendendo que é diferente. Mas em questão de ser acessível, ninguém pode reclamar disso. E agora menos ainda. Toda segunda-feira a gente pode marcar reunião com ele, levar casos para ele. Nem tudo é possível ser feito agora, mas atender, colocar para andar os projetos, dar satisfação, isso faz muito bem. Tem melhorado.

A manutenção do valor das emendas impositivas na LOA de 2026 reduz o atrito do Mabel com os vereadores ou há outras situações que dificultam essa relação?

Já é um ponto, para pacificar, muito importante. Eu digo para a Casa como um todo, independente da base ou da oposição. Esse diálogo constante é outra forma de estabilizar a relação. Quanto a essas discussões pontuais de orçamento, remanejamento, isso é inerente aos poderes. Desde que eu estou na Câmara, todo semestre se discute isso: o remanejamento é necessário ser maior, ser menor? Eu vejo que a câmera é sensível. Sempre que é necessário, que isso fique bem claro, a gente cede e ajuda a gestão. O remanejamento do Mabel esse ano foi 50%, e nem tem esse tanto de recurso para ser remanejado Se ficar bem claro isso, com certeza a Casa vai ter essa sensibilidade. O que eu sempre faço questão, até falei recentemente com a secretária do Meio Ambiente, é de ter esse diálogo, abrir os dados, mostrar os estudos, a motivação de cada ato. Nós vamos receber o Código Ambiental, que até hoje nossa cidade não tem e essa gestão vai tirar do papel. Eu falei para a secretária; vamos lá na Câmara, chama todo mundo para tomar um café da manhã e mostra tudo que foi feito, a motivação de cada mudança. Esses projetos mais impactantes precisam disso, até para ficar claro para os vereadores a intenção da gestão. Quando tem esse diálogo, as coisas fluem e é o caminho que eles vão tomar agora.

Por que você aceitou o convite para ser titular da Secretaria de Gestão e depois preferiu voltar para a Câmara? A pasta não era atrativa?

Na verdade é uma grande pasta, inclusive é onde eu mais trabalho do ponto de vista legislativo, que são as concessões. O projeto do Name Rights é meu, um pouco dessas ideias de gestão compartilhada é minha. É uma área que eu tenho um cuidado maior e, por esse motivo, resolvi ficar na Câmara. Primeiro, porque estávamos formando a base e era importante ter mais gente nossa na Câmara, e deu resultado. Conseguimos aprovar tudo que era de interesse da prefeitura e era mais urgente. Segundo, porque esse tema demanda muita mudança legislativa. Vou te dar o exemplo da Lei de Concessões, que vamos ter que atualizar. É uma das três principais leis para aquela secretaria decolar, e é uma responsabilidade minha na Câmara a atualização da Lei de Concessões, que é antiga. A atualização do programa Adote uma Praça, que é esse que está chegando agora, e a atualização do Amigo Verde, que é o programa dos parques. São esses três pilares que vão  fazer aquela secretaria decolar e fazer sentido, porque ela é de Gestão e Parcerias. Para as parcerias serem incluídas na a nova Lei de Concessões. Parques e praças são uma demanda emergencial do prefeito – ele sempre cobra isso e nessa missão em Barcelona, ele viu tanto que dá certo. As empresas, o terceiro setor, as entidades ajudam na gestão da cidade. Isso é comum no mundo todo. O Central Park, por exemplo, é outro exemplo muito bem sucedido disso. Até os bancos têm o nome das famílias. Todo mundo ajuda, todo mundo investe, todo mundo cuida. É o que queremos trazer para cá e, para isso, precisamos mudar a nossa legislação, atualizar a essa nova realidade. Essa é a minha missão aqui e tenho compromisso com o prefeito quando ele precisar, se for preciso retornar. Mas naquele momento e até então, eu sou mais útil na Câmara para a gestão e para a cidade.

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