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8 de Janeiro: a democracia ferida que não pode ser esquecida

O que ocorreu naquele dia, com a invasão e a depredação da Praça dos Três Poderes, em Brasília, foi um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 08/01/2026 - 13:03

8 de janeiro
O 8 de janeiro estará nos livros de história como uma das passagens mais lamentáveis da trajetória brasileira (Joédson Alves/Agencia Brasil)

Três anos se passaram desde o fatídico 8 de janeiro de 2023, uma data que jamais poderá ser tratada como um simples episódio isolado ou como um desvio momentâneo da história brasileira. O que ocorreu naquele dia, com a invasão e a depredação da Praça dos Três Poderes, em Brasília, foi um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito e às instituições que sustentam a República.

Aqueles atos não surgiram do nada. Foram precedidos por meses — e até anos — de negação sistemática dos resultados eleitorais, de ataques constantes ao sistema de votação, de ocupações de rodovias em todas as regiões do país e de acampamentos organizados em frente a quartéis. Houve planejamento, financiamento, logística e coordenação. Não se tratou de um acaso, tampouco de uma manifestação espontânea. Foi uma ação orquestrada, cuidadosamente construída a partir da erosão da confiança pública e da disseminação massiva da desinformação.

O descontrole político e a profunda crise institucional que marcaram os anos anteriores ao 8 de janeiro criaram o ambiente propício para aquela escalada autoritária. Foram anos de ataques reiterados à democracia, de deslegitimação do Judiciário, de hostilidade ao Congresso Nacional e de afronta direta às regras do jogo democrático. O que se viu naquele domingo foi o transbordamento de um processo contínuo de radicalização política.

Por isso, o 8 de janeiro não pode ser esquecido. Ao contrário: precisa ser lembrado todos os dias. Lembrado como alerta, como advertência e como compromisso. Compromisso permanente com a democracia, que não se sustenta apenas em eleições, mas na defesa cotidiana das instituições, do pluralismo e do respeito às divergências.

É preciso dizer com clareza: o golpe só não se consumou porque não houve adesão dos comandantes das Forças Armadas. As investigações revelaram que o plano previa violência extrema, incluindo o assassinato do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Não se tratava de retórica inflamada, mas de intenções concretas e documentadas.

Na véspera do 8 de janeiro, um episódio ainda mais grave expôs o grau de radicalização: um homem tentou explodir uma bomba nas imediações do Aeroporto Internacional de Brasília. O atentado só não resultou em uma tragédia de proporções incalculáveis por falhas na execução. Era o prenúncio do que estava por vir.

Muitos dos envolvidos naquele movimento golpista foram, em grande medida, abduzidos pela desinformação. Cenas que já entraram para a história como algumas das mais patéticas do Brasil contemporâneo — pessoas rezando para pneus, pedindo intervenção de seres alienígenas, penduradas em caminhões, contando “72 horas” que nunca se cumpriam — revelam o poder destrutivo das fake news e do fanatismo político. O riso fácil que essas imagens provocam não deve obscurecer sua gravidade.

O 8 de janeiro estará nos livros de história como uma das passagens mais lamentáveis da trajetória brasileira. Um capítulo que expõe nossas fragilidades institucionais, mas também a resiliência da democracia, que resistiu ao ataque.

O Brasil precisa, mais do que nunca, se unir em torno da democracia. Somos um país plural, diverso em seu povo, exuberante em sua natureza, riquíssimo em cultura e criatividade. O Brasil é a soma de todos nós. Um país lindo, contraditório, complexo.

Não podemos, porém, ignorar nosso passado autoritário: a herança da colonização violenta, a República dos coronéis, a escravidão, a ditadura militar. Essas marcas ainda ecoam no presente e ajudam a explicar por que o autoritarismo insiste em reaparecer. Reconhecer essas contradições não diminui o Brasil — ao contrário, nos torna mais conscientes e mais fortes.

Não existe caminho fora da democracia. Qualquer atalho autoritário cobra um preço alto demais, sobretudo das próximas gerações. O futuro do Brasil depende da nossa capacidade de aprender com o passado, de preservar a memória e de reafirmar, todos os dias, que divergência política não é inimizada, que eleições se respeitam e que a democracia é um valor inegociável.

Lembrar o 8 de janeiro é, acima de tudo, um ato de responsabilidade histórica. Para que nunca mais se repita.

 

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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