Ronaldo Caiado sempre foi um político de trajetória previsível do ponto de vista ideológico. Ao longo de décadas de vida pública, manteve uma coerência rara na política brasileira quando o assunto é filiação partidária. Foi líder da UDR, construiu sua base no campo conservador e passou a maior parte da sua carreira vinculado ao mesmo grupo político, desde o antigo PFL, que mais tarde passou por uma remodelagem estética ao se transformar em Democratas e, posteriormente, ao se fundir com o PSL, dando origem ao União Brasil.
Esse histórico ajuda a compreender por que a decisão de Caiado de deixar o União Brasil não representa um rompimento ideológico, mas sim um movimento estratégico. Diante da conjuntura nacional e da reorganização das forças políticas para a disputa presidencial, o governador de Goiás optou por mudar de legenda para se manter competitivo na corrida ao Palácio do Planalto. O destino foi o PSD, comandado por Gilberto Kassab.
A mudança mexeu diretamente com a dinâmica da contração política e eleitoral e surpreendeu boa parte do meio político. Trata-se do clássico “cavalo de pau” que políticos experientes costumam dar quando percebem que, em momentos de instabilidade, a inércia é fatal. Caiado escolheu se mover — e se mover para o centro do tabuleiro.
No PSD, Caiado passa a dividir espaço com outros dois governadores que também são pré-candidatos à Presidência da República: Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Ratinho Junior carrega um ativo político singular: é filho do empresário e apresentador Ratinho, o que lhe garante uma hegemonia de comunicação nacional rara na política. Eduardo Leite, por sua vez, representa a jovem revelação do campo democrático-liberal, um quadro que já demonstrou capacidade de surpreender adversários com vitórias expressivas e campanhas altamente competitivas.
Mas há um elemento central nessa equação que começa a pesar nos bastidores: o fator tempo. Caiado já ocupou praticamente todos os cargos relevantes que um político pode ocupar — deputado, senador, governador. Aos 77 anos, a Presidência da República é o último degrau possível da sua trajetória política. Ratinho Junior e Eduardo Leite são mais jovens, têm o futuro político pela frente e sequer passaram ainda pelo Senado da República. Dentro dessa configuração, não é absurdo imaginar que ambos possam, em determinado momento, abrir mão da disputa presidencial para pavimentar o caminho de Caiado, preservando capital político para ciclos futuros.
Essa soma de forças transforma Gilberto Kassab no detentor de um ativo político raríssimo. Fora da bolha bolsonarista, ele passa a concentrar o maior capital político da direita para enfrentar o presidente Lula. E isso não é trivial. O PSD integra o governo federal, possui o maior número de prefeituras espalhadas pelo país e ocupa posições estratégicas em diferentes esferas do poder. Kassab, mesmo sem mandato eletivo, tornou-se o verdadeiro “dono da bola” desse jogo eleitoral. Sem ele, hoje, é difícil ter jogo.
Esse protagonismo não é casual. Ele decorre da habilidade de articulação política de Kassab, que se consolidou como um verdadeiro coringa da política brasileira. Poucos líderes conseguem transitar com tamanha naturalidade entre campos ideológicos distintos, manter diálogo com antagonistas e, ao final, estar sempre na mesa onde as decisões centrais são tomadas.
Apesar disso, a movimentação de Caiado ainda é muito recente. As peças seguem em deslocamento. Em Goiás, uma das principais incógnitas é como ficará a relação entre o atual presidente estadual do PSD, o senador Vanderlan Cardoso, e o governador Ronaldo Caiado. Vanderlan, até então, não demonstrava alinhamento com a base do governo estadual. Agora, ao menos formalmente, ambos compartilham a mesma legenda — o que impõe uma convivência política que ainda será colocada à prova.
Paralelamente, Caiado trabalha para manter o controle do União Brasil em Goiás. Já sinalizou que a primeira-dama Gracinha Caiado deve assumir o comando do partido no estado. Não é um detalhe menor. Gracinha lidera todas as pesquisas para o Senado em Goiás, o que a transforma em um dos maiores ativos eleitorais do próximo ciclo.
Nesse contexto, surge com força o papel de Daniel Vilela, que deve assumir o governo nos próximos meses. Com a caneta na mão, será ele o responsável pela palavra final sobre a composição da própria chapa. Daniel precisará dosar com habilidade os interesses de Caiado com os seus, mantendo a conexão política com o atual governador, mas, ao mesmo tempo, agregando novos ativos ao seu projeto de reeleição ao Palácio das Esmeraldas. Trata-se de um exercício delicado de equilíbrio e autonomia.
Caiado, por sua vez, deixa claro que está disposto a ir até o fim na disputa presidencial, haja o que houver. Ainda assim, a política ensina que tudo pode mudar de uma hora para outra. Composições acontecem, alianças se redesenham e recuos estratégicos fazem parte do jogo — especialmente quando ele é jogado por atores altamente experientes.
Outro ponto relevante diz respeito à relação do PL com a base do governo de Goiás. O senador Wilder já declarou que não recua de sua candidatura ao governo estadual. O PL faz oposição a Caiado na Assembleia Legislativa, mas, ao mesmo tempo, o deputado Gustavo Gayer abriu canais de diálogo com o governo para discutir uma possível composição na chapa de Daniel Vilela. A ida de Caiado para o PSD reconfigura essas tratativas, que ainda estão em construção.
No plano nacional, há uma contradição ainda mais complexa: uma parte significativa do PSD integra formalmente a base de apoio do presidente Lula. Além da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, o partido comanda ministérios estratégicos, como o da Agricultura, com Carlos Fávaro; o de Minas e Energia, com Alexandre Silveira; e o da Pesca, com André de Paula. A grande questão que se impõe é se haverá coesão interna suficiente para sustentar uma candidatura própria do partido contra o atual presidente da República.
Some-se a isso o fato de Kassab integrar o governo de Tarcísio de Freitas em São Paulo. Tarcísio é hoje o nome mais bem avaliado da direita não bolsonarista para uma futura disputa presidencial. Esse ponto representa um verdadeiro divisor de águas. Teria o governador paulista definitivamente descartado a hipótese de concorrer ao Palácio do Planalto ou o cenário ainda comporta uma reviravolta?
Ao que tudo indica, o PSD pretende, de fato, bancar uma candidatura própria ao governo federal. A disputa interna tende a se concentrar entre os três governadores, e Kassab demonstra ter habilidade política suficiente para conduzir esse processo sem rupturas traumáticas.
As definições mais concretas só devem começar a surgir a partir de abril. Até lá, muitas peças ainda serão mexidas, vários nós seguem sem aperto definitivo. Mas uma coisa é certa: o jogo está cada vez mais interessante — tanto para os goianos quanto para os brasileiros que acompanham a política com lupa.














