Nerópolis não nasceu pronta. Como quase todas as cidades goianas, ela foi sendo construída aos poucos, no ritmo da terra, do trabalho e das pessoas que aqui decidiram ficar. Lá atrás, quando tudo ainda era fazenda, agregados e estradas de chão, este pequeno povoado — então pertencente ao município de Pirenópolis — era conhecido como Matinha dos Taveiras. Um nome simples, quase escondido no mapa, mas que já carregava em si a semente do que viria a ser um território próspero e organizado.
Com o passar do tempo, novas famílias chegaram, o núcleo cresceu e a antiga Matinha se transformou em uma pequena vila, que passou a se chamar Campo Alegre. O nome fazia jus ao espírito do lugar. Em seguida, acompanhando os rearranjos administrativos da região, o povoado também ficou conhecido como Cerrado, integrando-se como distrito do município de Anápolis — município este que, em seus primórdios, ainda se chamava Santana D’Antas.
O crescimento populacional e econômico foi inevitável. Já havia gente demais, atividade demais e vida demais para continuar dependendo exclusivamente de decisões tomadas fora daqui. A vila prosperava, produzia, organizava-se socialmente e exigia maior autonomia administrativa.
Era preciso dar um passo adiante.
Diante dessa realidade, lideranças locais se articularam politicamente e encontraram no Senador Nero Macedo um aliado estratégico. A decisão foi clara: fundar um novo município, com autonomia política, administrativa e capacidade de auto-organização — condição essencial para garantir desenvolvimento planejado e representação própria. Em reconhecimento ao papel decisivo do senador nesse processo, a nova cidade foi batizada, em 1948, como Nerópolis — numa tradução literal e simbólica: a Cidade de Nero.
A partir de então, Nerópolis passou a construir sua identidade produtiva com base no trabalho, na diversidade cultural e na capacidade de adaptação. Um dos marcos mais importantes dessa trajetória foi a imigração japonesa, que trouxe técnicas agrícolas modernas e transformou profundamente a economia local. Foi nesse contexto que se consolidou a cultura do alho, atividade que projetou Nerópolis em todo o estado de Goiás.
Durante décadas, Nerópolis foi amplamente reconhecida como a Cidade do Alho. Essa identidade extrapolava a produção agrícola e se manifestava na vida cultural do município. A cidade promovia o tradicional Festival do Alho, evento de grande prestígio regional, que reunia produtores, visitantes e autoridades, e que incluía até mesmo o simbólico e concorrido concurso da Miss Alho — expressão máxima do orgulho local por essa vocação produtiva. Não por acaso, o antigo coreto da praça central — antes das reformas — ostentava no topo um dente de alho, símbolo inequívoco da principal atividade econômica da época.
Mas a história econômica de Nerópolis não parou aí. Na década de 1960, um empreendedor visionário — que tive o prazer de conhecer e conviver — o senhor Humberto Brandão, fundou a primeira fábrica de doces da cidade: a Doces Nerópolis. O empreendimento foi um sucesso imediato e teve um efeito multiplicador. A partir dali, surgiram outras fábricas, doceiras caseiras e uma verdadeira cadeia produtiva do doce, que ultrapassou os limites do município e se espalhou por todo o estado de Goiás.
Quem nunca ouviu, tempos atrás, o clássico anúncio ecoando pelas ruas:
“Olha o doce de Nerópolis!”
O doce virou marca, virou identidade e virou economia.
Hoje, esse legado está estampado logo na entrada da cidade, em um grande letreiro que resume bem quem somos: “Nerópolis: o doce tempero do Brasil”. O doce todo mundo conhece. Mas o tempero também é literal e estratégico. É aqui que está instalada uma das maiores indústrias do país, a Kraft Heinz, que produz temperos, derivados de tomate e condimentos que abastecem toda a América Latina a partir de Nerópolis. E ela não está sozinha: diversas outras indústrias do setor fortalecem a base produtiva local.
Do ponto de vista técnico e socioeconômico, Nerópolis apresenta hoje comércio forte, rede de pousadas bem estruturada, vocação para o turismo rural e ecológico, além de bares, restaurantes, pesque-pagues, clubes e um setor de serviços em franca expansão. Sua localização é estratégica: ao lado de Goiânia, próxima de Anápolis e com fácil acesso a Brasília. Soma-se a isso uma infraestrutura adequada e um potencial de crescimento que poucas cidades do mesmo porte possuem.
Ainda assim, entre tantas qualidades, há um diferencial que nos une e nos projeta: o doce. Reconhecido em todos os cantos de Goiás e já ultrapassando fronteiras, esse patrimônio virou política pública. A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás aprovou lei que reconhece oficialmente Nerópolis como a Cidade do Doce em Goiás. Isso não é apenas simbólico; é identidade territorial, é economia criativa, é estratégia de desenvolvimento.
O doce de Nerópolis, feito por nós, neropolinos, chega às mesas de famílias em todo o estado, no Brasil e no mundo. É trabalho local gerando renda, tradição virando futuro e cultura se transformando em política de desenvolvimento.
É coisa nossa.
Orgulho de Nerópolis.
Orgulho de Goiás.














