Sou fruto de uma família de tradições em Nerópolis. Digo isso sem romantizar demais, mas também sem falsa modéstia. Há histórias que não cabem apenas na memória privada; elas pertencem ao território, ao povo, à formação social de uma cidade inteira.
Não sei dizer ao certo quando a minha família chegou àquela região. Talvez quando ainda nem se chamava Nerópolis. Talvez fosse apenas Cerrado. Ou Campo Alegre. Não sei. O que sei é que ali nossas raízes se aprofundaram a ponto de se confundirem com a própria história do lugar.
Meu avô, Geraldo Gomes de Morais, era conhecido por muitos como Geraldo da Máquina. Ele tinha uma antiga máquina de beneficiar arroz, símbolo de trabalho duro e autonomia num tempo em que quase tudo era construído à força do braço e da palavra empenhada. Mas havia um apelido ainda mais especial, carregado de afeto e identidade: Geraldinho Januário.
Em Nerópolis é assim. Algumas famílias têm apelido. Não é deboche; é pertencimento. É quase um sobrenome paralelo, dado pelo povo. E o nosso é esse: Januários. A família Gomes de Morais é conhecida assim há gerações.
Meu avô não foi criado pelo pai — esse o abandonou. Foi criado pelo tio, um homem chamado Pedro Gomes de Morais, ou simplesmente Pedro Januário, como o povo gostava de chamar. E é aqui que a história deixa de ser apenas familiar para se tornar pública.
Pedro Gomes de Morais foi um homem além do seu tempo. Há quem diga que era um sujeito de posses: fazendeiro, comerciante, homem próspero. Alguns contam, inclusive, que possuía terras na região onde hoje está Brasília. Pode ser verdade. Pode ser exagero. Mas o patrimônio material nunca foi o que definiu Pedro.
O que o diferenciava era outra coisa: a fé.
Pedro era espírita convicto, daqueles que levam a sério a máxima de que fora da caridade não há salvação. Fé sem espetáculo, sem discurso fácil. Fé praticada. Fé que vira ação concreta. Fé como política pública antes mesmo de o Estado compreender plenamente seu papel.
Certo dia, em conversa com o ex-prefeito de Nerópolis, Wilmar Teixeira — também espírita e médium — ouvi uma história que atravessa gerações como lenda, mas carrega uma verdade profunda. Reza a lenda que Pedro sabia o dia em que ia morrer. Reza a lenda, claro. Mas, diante desse conhecimento espiritual, ele teria tomado uma decisão rara: vendeu todo o patrimônio material que possuía para transformá-lo em patrimônio espiritual.
E aqui começa o ponto mais importante dessa história.
Pedro não acumulou. Ele devolveu. Compreendeu algo que, até hoje, muitos gestores públicos não compreendem: riqueza que não gera bem coletivo é peso morto.
Foi Pedro Gomes de Morais quem construiu o que hoje conhecemos como Hospital Sagrado Coração de Jesus, o único hospital de Nerópolis. À época, com recursos próprios, ergueu o prédio, equipou, contratou profissionais e garantiu atendimento totalmente gratuito aos pobres da cidade. Não havia SUS, não havia convênios, não havia marketing. Havia compromisso humano.
Pedro também fundou o asilo da cidade, o Lar São Vicente de Paula, seguindo a mesma lógica: acolher idosos gratuitamente, com dignidade. Em um tempo em que envelhecer significava ser descartado, Pedro escolheu cuidar. Foi ali, no Lar dos Idosos, que conheci Abadia do Siríaco, herdeira direta dos Taveiras, família que iniciou a história de Nerópolis ainda nos tempos da Fazenda Matinha dos Taveiras, junto de seus agregados. A presença de Abadia naquele espaço fecha simbolicamente um ciclo da cidade: das origens rurais à caridade organizada, da formação do território ao cuidado com aqueles que ajudaram a construí-lo.
Essas ações não são apenas gestos de caridade individual. São, na essência, atos políticos. Decisões que estruturam uma cidade, aliviam o sofrimento social e constroem cidadania muito antes de qualquer plano de governo.
Pedro era irmão de Acácio, e hoje os herdeiros de Acácio seguem, com orgulho, as obras de caridade da família Gomes de Morais. Continuam os trabalhos no Centro Mensageiros da Paz, mantendo viva uma tradição que não é apenas religiosa, mas profundamente social.
Meu filho se chama Pedro. Nosso Pedro Zani. E esse nome não é por acaso. É homenagem. É memória. É compromisso com uma história que não pode se perder.
A história de Nerópolis se confunde com a história dos Januários, dos Gomes de Morais. E eu, por ser neropolino, sou um Januário também. Tenho orgulho disso. Orgulho de nascimento. Orgulho de pertencimento. Orgulho de saber que minha cidade foi moldada não apenas por prédios e decretos, mas por gente que entendeu que servir é a maior forma de poder.
Compartilho essa história com humildade, mas também com convicção. Porque ela inspira. Porque ela ensina. E porque, talvez mais do que nunca, precisamos lembrar que política, no seu sentido mais nobre, começa exatamente aí: quando alguém escolhe cuidar do outro antes de cuidar de si.
Essa é uma história que merece ser conhecida. Por Nerópolis. Por Goiás. E por todos que ainda acreditam que é possível fazer o bem e, ao mesmo tempo, construir um legado eterno.














