Vereador por Goiânia e uma das vozes do PT no debate político estadual, o professor Edward fala sobre os bastidores da construção do projeto eleitoral do partido para 2026 em Goiás. Em entrevista, ele detalha o processo de definição do pré-candidato ao governo, explica o adiamento do anúncio após o encontro nacional em Salvador e analisa como as articulações em Brasília impactam o cenário local. Edward afirma que a prioridade do partido é a reeleição do presidente Lula e a formação de um palanque sólido no estado, capaz de impulsionar também as chapas proporcionais. O vereador aborda ainda as possibilidades de alianças com PSB, MDB, PSDB e outras legendas, além das conversas preliminares com lideranças como Marconi Perillo, José Eliton e o senador Vanderlan Cardoso. Na avaliação do parlamentar, Goiás não pode ser rotulado como bolsonarista e já demonstrou força eleitoral para Lula nas últimas eleições. Ele também comenta sua possível candidatura em 2026, defende a ampliação das bancadas federal e estadual do PT e reforça que todas as decisões passarão por amplo debate interno, sempre alinhadas ao projeto nacional do partido e à defesa da democracia.
Quando que o PT vai anunciar o pré-candidato ao governo e por que adiou o anúncio depois do encontro em Salvador nesta semana?
PROFESSOR EDWARD MADUREIRA – Essa definição tem a liderança da presidente do partido, a deputada federal delegada Adriana Accorsi, mas ouvida a direção executiva do partido, que está discutindo o tema. Diante do cenário nacional ainda muito indefinido, eu cito como exemplo São Paulo, um estado crucial para o PT ter uma candidatura, ainda não há definição muito em função dos arranjos nacionais de partidos, as conversas estão muito intensas nesses últimos dias, não acredito que haja um prazo estabelecido para esse anúncio. Pelo que temos conversado, vai ser em breve, acho que logo após o carnaval, no começo de março, porque também tem uma outra pressão. O possível candidato tem que ir para a rua, se organizar, organizar a pré-candidatura para chegar nas convenções e na campanha com mais musculatura. Essa decisão está sendo amadurecida. O mais importante é que a decisão vai ser muito madura, muito discutida e com essa ligação muito estreita com o projeto nacional do partido, que, em primeiro lugar, é reeleger o presidente Lula.
A articulação de Lula com o MDB pode impactar nas decisões aqui em Goiás?
Em Goiás, a aproximação com o MDB talvez fique um pouco mais prejudicada em função do governador Ronaldo Caiado ser pré-candidato à Presidência da República. Não necessariamente vai haver. Mas como as questões estaduais e regionais têm características muito próprias, não podemos afirmar que não tem desdobramento aqui. São eventos, em alguma medida, independentes, porque, a exemplo do Nordeste, onde o PSD, praticamente todo está com o Lula, nacionalmente pode até ser que o PSD tenha um candidato a presidente. Não é descartada, mas não é um caminho muito lógico dada a presença do governador Ronaldo Caiado.
Há alguma orientação específica nacional para a formação de alianças em Goiás?
Não, mas o que se espera é que o campo progressista, no caso a federação PT, PCdoB e PV, vai estar junta até por força da federação, também a federação que envolve o PSOL e a Rede, o Cidadania, e a possibilidade de ter o PSB. O PSB tem uma configuração especial no estado, uma parte tem declarado apoio ao Daniel Vilela, mas a orientação é ampliar. A orientação principal é eleger o presidente Lula e depois garantir governabilidade, ou seja, eleger deputados federais e, se possível, senadores para esse projeto.
Para a definição da candidatura a governador, o PT aguarda uma definição do PSB?
Creio que não, até porque a Aava Santiago se filiou esta semana, e antes da filiação dela ao PSB, ela reafirmou o compromisso com o ex-governador Marconi Perillo. O PSB tem uma questão, porque Elias Vaz e alguns outros integrantes têm mais proximidade com Daniel Vilela. O vice- presidente Alckmin colocou isso, que a federação tem essas particularidades. Não obrigatoriamente, mas era de se esperar que sim, a Adriana (Accorsi) e a Aava dialogam bem, não tenho dúvida disso, mas temos três posições um pouco distintas: o PT pensando em candidatura própria, a Aava com uma sinalização em relação ao ex-governador e uma parte do PSB com o Daniel.
O partido alguma vez sondou o Marconi Perillo para uma eventual aliança?
Diretamente e oficialmente, não. Entretanto, pessoas do partido, isso é normal e em todo processo prévio a uma campanha eleitoral acontece, pessoas do partido têm a iniciativa e a liberdade de fazer. Agora, um acerto nesse sentido depende naturalmente do aval da executiva do partido. Mas pessoas do partido procuraram o ex-governador e acredito que isso é legítimo e não há nenhum problema nisso, mas claro que qualquer acerto mais definitivo depende do aval da direção do partido.
A Adriana tem dito que o PT descarta a aliança com o PSDB. Mas uma vez que os dois são oposição ao governo Caiado, não seria coerente essa união?
Eu avalio da seguinte forma: na política, a questão do fato novo sempre se sobrepõe ao que vem acontecendo. A posição da deputada Adriana Accorsi é muito em função das críticas que o ex-governador Marconi Perillo faz ao presidente Lula e ao governo do PT. E isso, claro que é um impeditivo para uma aproximação. Na medida em que houver uma mudança de posicionamento, acredito que as conversas podem ser reabertas e a construção de um novo entendimento. Mas, como eu disse, isso depende de diálogo e o momento é para isso.
O senador Vanderlan Cardoso está em busca de espaço para disputar a reeleição. Ele tem conversas com o PT?
Que eu saiba não, mas o senador Vanderlan Cardoso é um daqueles senadores que não tem feito oposição ostensiva ao governo, inclusive tem votado muitos projetos de lei junto com o governo. Acredito que uma conversa com ele também é possível, mas quem conduz essa conversa é a direção. Eu não tive nenhum contato com o senador.
O partido estaria disposto a abrir mão da cabeça de chapa para formar uma aliança mais competitiva?
Essa pergunta é difícil. Nada da política é definitivo até a convenção. Depende muito de toda essa construção nacional. Não vejo que isso seja impossível, mas no momento, a opção do partido é por ter uma candidatura com uma chapa majoritária encabeçada por alguém do partido.
As conversas com o José Eliton ainda podem avançar ou é uma pauta vencida?
As conversas aconteceram, são públicas, o ex-governador, desde 2018, tem apoiado os candidatos do partido à presidência da República, apoiou o ministro Fernando Haddad em 2018, apoiou o presidente Lula em 2022. Isso é uma questão que o coloca no cenário. Em que posição ele mesmo afirmou repetidas vezes que está disposto a contribuir em qualquer posição. É uma conversa que é possível, sim, acontecer, mas não é uma questão fechada de posição definida na chapa.
A prioridade do partido é a construção de um palanque para Lula em Goiás. A segunda prioridade é eleger deputados federais ou estaduais? E qual a expectativa do partido nessa eleição em relação à eleição proporcional?
Um palanque para o presidente Lula tem duas funções: primeiro, fortalece o presidente, e o objetivo maior é reeleger o presidente Lula, logo depois disso é eleger uma bancada significativa de deputados federais. O PT tem dois deputados federais e avalia-se que, com uma boa chapa e um um candidato a governador que consiga trazer um palanque forte, essa chapa pode crescer e talvez sonhar com três parlamentares. E no caso da Assembleia Legislativa, eu acho que é factível uma ampliação da bancada dos atuais três deputados para até quatro ou cinco.
O deputado federal Rubens Otoni defende que o senhor seja candidato à Câmara Federal e não ao governo para fortalecer a chapa. O que o senhor acha dessa tese?
Essas são duas teses absolutamente defensáveis, tanto uma candidatura ao governo para fazer um palanque e tentar buscar mais votos, isso com repercussão até na chapa, como uma chapa com nomes que tragam votos. Eu tive na última eleição praticamente 55 mil votos e esses votos foram decisivos para que o PT tivesse a segunda vaga. O argumento do deputado federal Rubens Otoni é muito consistente e eu respeito muito, e respeito também aqueles que avaliam que uma candidatura competitiva a governador também seria muito bem-vinda. Eu coloquei meu nome à disposição para qualquer uma das posições a partir de uma decisão do partido. Agora, eu devo chegar muito em breve num limite onde eu preciso achar o meu caminho, porque se ficar nessa condição não definida, posso ser prejudicado. Até aí o partido também deve definir isso nesse tempo, mas eu defino também por um caminho ou outro já nas próximas semanas.
Goiás é um partido considerado bolsonarista. Como trabalhar a campanha do Lula nessas condições?
Eu não concordo muito com essa tese, porque na última eleição presidencial, no primeiro turno, o presidente Lula teve 38% dos votos do estado. E no segundo turno, mais de 40%, foi 1,4 milhão votos. Isso nem de longe caracteriza uma condição de um estado bolsonarista. Eu acho que o grande desafio nosso, tanto na chapa majoritária para o estado, quanto na chapa proporcional, é conseguir fazer com que o eleitor que vota no Lula enxergue em nós, candidatos a deputado, senador e governador, aliados do Lula, porque isso faz com que a gente possa fortalecer essa chapa. É como dialogar com esse eleitor que já é eleitor do Lula.
O vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, diz que o partido tem discutido mal o cenário eleitoral e que precisa de um projeto a longo prazo, que ultrapasse as disputas imediatas. Qual a avaliação que o senhor faz dos encaminhamentos eleitorais que o PT vem fazendo nos estados e no país?
Nas últimas eleições, o movimento que o PT e o presidente Lula fizeram foi extremamente positivo e eficaz, quando fez esse arco de alianças, trouxe o PSB e o atual vice-presidente Geraldo Alckmin. Eu não acho que há um erro de avaliação do partido. A gente tem que entender que o mundo mudou e exige essa visão mais ampla. O que está em disputa, no fundo, é o negacionismo. Talvez seja até uma expressão gasta, mas não se pode perder de vista, que o que está em disputa importante é a democracia versus um sistema não democrático que flerta com a ditadura. É a civilização contra a barbárie. Nós assistimos no último governo a muita coisa negativa. Ter opinião diferente, direita e esquerda, a população que decide, mas a gente não pode abrir mão do que é mais importante, que é a democracia. O PT trabalha com essa possibilidade. E claro que para chegar ao poder e conseguir fortalecer a democracia, é preciso fazer alianças políticas estratégicas. Eu entendo que se a gente tiver essa percepção vai para o caminho certo.
Qual é a tendência do senhor dentro do PT?
Eu, muito recentemente, me vinculei a uma tendência. Na minha outra passagem pelo PT, eu só me filiei ao PT até hoje, mas eu fiquei um tempo sem filiação quando estava na reitoria da UFG. Na minha primeira passagem, que foi de 2013 até meados de 2017, eu passei esses período sem tendência. Eu voltei no começo de 2022, me filiei novamente, e fiquei sem filiação a tendência até os últimos meses. Ai, me aproximei da tendência Movimento Cerrado, que é a tendência da qual faz parte o ex-prefeito Pedro Wilson, o futuro ministro Olavo Noleto, Marina Sant’Anna. Hoje eu estou ligado a esse grupo.















