A discussão sobre o pedido do PSDB à Justiça Eleitoral para reaver o mandato da vereadora Aava Santiago levanta um debate que vai além de uma disputa jurídica. Trata-se de um tema que envolve história política, coerência ideológica, estratégia partidária e o próprio funcionamento institucional da democracia brasileira.
Minha relação política com Aava não começa agora. Iniciamos juntos ainda muito jovens, nas campanhas do PSDB para o governo de Goiás, quando Marconi Perillo disputava o Palácio das Esmeraldas. Tínhamos algo entre 18 e 20 anos e compartilhávamos a mesma missão: dialogar com os estudantes e aproximar a juventude da política.
Naquele período, ajudamos a criar iniciativas que buscavam mobilizar os jovens nas redes sociais e nas universidades. Uma delas ficou bastante conhecida: o Twittaço Marconi, que se tornou uma das primeiras experiências de mobilização política digital em Goiás. Era um tempo de entusiasmo e de construção coletiva, quando acreditávamos que a participação da juventude poderia renovar a política goiana.
Depois disso, integramos formalmente a juventude tucana. Nosso trabalho era organizar e mobilizar jovens em todo o estado, sempre com uma agenda voltada à renovação política e ao apoio às políticas públicas voltadas para a juventude desenvolvidas pelos governos do PSDB em Goiás.
Com o tempo, Aava seguiu sua trajetória e ganhou destaque próprio. Ao se eleger vereadora em Goiânia, consolidou-se como uma voz ativa na defesa das mulheres, dos jovens e das causas sociais. Sua atuação parlamentar lhe deu projeção e reconhecimento, transformando-a em um dos nomes mais relevantes da nova geração da política goiana.
Em muitos aspectos, Aava e eu compartilhamos uma linha de pensamento político semelhante. Não por acaso, ambos defendemos a aliança entre Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin nas eleições de 2022 e nos posicionamos com clareza contra a extrema direita e contra qualquer tentativa de ruptura democrática no país. Esse posicionamento, aliás, não é estranho à tradição do PSDB. Pelo contrário: ele remete diretamente às raízes programáticas da social-democracia brasileira que inspiraram a fundação do partido.
É nesse contexto que se insere a decisão de Aava de se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Do ponto de vista ideológico, trata-se de um movimento compreensível. Hoje, o PSB talvez seja o partido brasileiro que mais se aproxima da tradição social-democrata que, durante muitos anos, foi a principal marca programática do PSDB.
É fato que o PSDB, ao longo do tempo, se afastou parcialmente dessa essência original. Ainda assim, é importante reconhecer que existem setores internos que resistem e seguem defendendo aquela identidade política. A escolha de Aava pelo PSB, portanto, pode ser vista como um movimento coerente com sua trajetória e com suas convicções.
Por outro lado, também é preciso compreender o novo momento do Partido da Social Democracia Brasileira em Goiás. O partido busca reconstruir seu protagonismo político e vislumbra um novo ciclo eleitoral com a possibilidade de retorno de Marconi Perillo ao governo estadual. Trata-se de uma estratégia clara de reposicionamento político.
Nesse cenário, o movimento de Aava acaba destoando da linha adotada pelo PSDB goiano. O PSB no estado possui lideranças que mantêm alianças tanto com o governador Ronaldo Caiado quanto com o presidente Lula. Para o PSDB em Goiás — que hoje se coloca como oposição declarada a ambos — esse caminho político não se encaixa em sua estratégia.
Além da dimensão política, há também um aspecto jurídico e institucional importante. A legislação eleitoral brasileira confere grande peso aos partidos políticos. Em termos legais, os mandatos proporcionais não pertencem exclusivamente ao indivíduo eleito, mas à corrente política e partidária que viabilizou sua eleição.
Em outras palavras: houve uma chapa de vereadores, houve uma estratégia eleitoral coletiva e houve uma identidade política que permitiu aquela vitória. Nesse sentido, a legislação é clara ao reconhecer a força institucional dos partidos.
Assim, quando Aava decide deixar o PSDB e seguir por outro caminho partidário, é natural — e legítimo — que o partido recorra à Justiça Eleitoral para reivindicar o mandato para o seu campo político e para sua estratégia partidária.
Caso essa interpretação prevaleça, quem deve assumir a vaga é o primeiro suplente da legenda, Michel Magul. Jovem advogado, poliglota e internacionalista, Michel é um quadro qualificado da política goiana. Sua trajetória inclui atuação no movimento estudantil e participação ativa na juventude política do estado. Trata-se de um nome preparado e com credenciais para exercer o mandato.
Por tudo isso, talvez este seja apenas um momento de transição natural. Aava, uma tucana histórica, pode estar diante de um novo ciclo político — possivelmente mirando voos maiores, como uma disputa pela Câmara Federal. Ao mesmo tempo, o PSDB reorganiza sua estratégia em torno de um novo projeto eleitoral no estado.
Na política, ciclos se encerram e outros se iniciam. Talvez o ciclo de Aava dentro do PSDB tenha chegado ao fim.
No fim das contas, há racionalidade nos dois movimentos. Aava se reposicionou em um campo político coerente com sua militância e suas convicções. O PSDB, por sua vez, age dentro da legalidade e de acordo com sua estratégia partidária.
Tudo isso faz parte do funcionamento normal da democracia.
O essencial, neste momento, é reconhecer duas coisas: a qualidade política de Aava Santiago e a legitimidade institucional do PSDB ao reivindicar judicialmente o mandato que considera pertencente ao seu projeto político.
A vida política segue — e novos capítulos certamente virão.














