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Lula entre o legado e a sucessão: o dilema estratégico da esquerda para 2026

De líder sindical a presidente da República por três vezes, Lula é figura central na trajetória recente da democracia brasileira


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 10/04/2026 - 13:38

Lula

Luiz Inácio Lula da Silva é um dos maiores líderes da história política do Brasil. Do ponto de vista histórico, pode ser equiparado a figuras como Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas, Tancredo Neves e João Goulart. Cada um, com suas características pessoais e públicas, entrou para a história nacional — e Lula, ao que tudo indica, já ocupa esse lugar de forma consolidada.

De líder sindical a presidente da República por três vezes, além de fiador político da eleição da primeira mulher presidente do país, Dilma Rousseff, Lula é figura central na trajetória recente da democracia brasileira. No movimento sindical, foi peça-chave na fundação e consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT). Já no comando do país, atuou como vetor de inclusão política, trazendo para o centro do poder setores historicamente marginalizados.

O cenário eleitoral de 2026, no entanto, caminha para um momento decisivo. Pesquisas indicam crescimento consistente de Flávio Bolsonaro no campo da direita, com algumas leituras já apontando uma aproximação competitiva dentro da margem de erro. Independentemente da precisão dos números, o fato político é claro: há um movimento de expansão de sua presença no imaginário do eleitor, o que tensiona o projeto do campo progressista.

Diante disso, surge a questão inevitável: Lula, aos mais de 80 anos e carregando um legado político denso, teria condições de conter esse avanço? A resposta não é simples — e talvez nem exista de forma definitiva neste momento. O que é possível é projetar cenários.

Por um lado, Lula é reconhecido por sua resiliência e capacidade de superação. Sua trajetória política demonstra disposição constante para o embate eleitoral. Em um ambiente ainda fortemente polarizado, o crescimento de um adversário competitivo pode funcionar como estímulo. Lula, frequentemente descrito como um estrategista habilidoso, poderia mais uma vez se colocar como candidato e mobilizar sua base em uma sexta disputa presidencial. Nesse cenário, sua experiência e capital político continuariam sendo ativos relevantes.

Por outro lado, existe uma hipótese menos provável, mas não descartável — sobretudo em política, onde o improvável frequentemente se concretiza. Lula poderia optar por não disputar e assumir o papel de articulador de uma transição. Em vez de candidato, seria o chancelador de uma renovação no campo da esquerda. Nomes não faltam: Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Simone Tebet e Gleisi Hoffmann são exemplos de lideranças com trajetória e espaço político. A viabilidade dessa alternativa dependeria, sobretudo, da capacidade de Lula de transferir capital político — algo que já demonstrou ser possível, ainda que em contextos específicos.

Independentemente do desfecho imediato, há um ponto estrutural que se impõe: o campo progressista desempenha papel relevante na defesa da democracia e na promoção da inclusão social em um país marcado por profundas desigualdades. Nesse sentido, a renovação de lideranças não é apenas uma possibilidade estratégica, mas uma necessidade de médio prazo.

Seja agora ou em eleições futuras, a esquerda brasileira enfrenta o desafio de preparar sucessores capazes de dialogar com novas gerações, sem romper com o legado construído. O dilema de Lula, portanto, vai além de uma decisão individual: ele simboliza a transição entre ciclos políticos — e o futuro de um projeto.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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