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Mobilizações dos trabalhadores na Bolívia pressionam governo de Rodrigo Paz com greve geral e bloqueios

Greve geral e bloqueios pressionam presidente de direita a renunciar; repressão policial deixou ao menos quatro mortos no sábado (16)


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 19/05/2026 - 17:40

Mobilizações dos trabalhadores na Bolívia pressionam governo de Rodrigo Paz com greve geral e bloqueios
Mobilizações dos trabalhadores na Bolívia pressionam governo de Rodrigo Paz com greve geral e bloqueios / Foto: Reprodução

As mobilizações populares na Bolívia ampliaram a pressão sobre o governo de Rodrigo Paz Pereira nesta segunda-feira (18). Uma marcha de trabalhadores urbanos, camponeses e outros setores da população saiu de El Alto em direção a La Paz, em meio a uma greve geral por tempo indeterminado.

A manifestação é liderada pela Central Operária Boliviana (COB), pela Confederação Sindical Unificada dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) e pela Federação Camponesa de La Paz “Tupac Katari”, conhecida como Ponchos Vermelhos. Professores e mineiros cooperativistas também aderiram ao movimento.

Segundo a Administradora Boliviana de Estradas (ABC), o país registra pelo menos 23 bloqueios em rodovias . A maior parte das interdições ocorre em torno da capital La Paz, onde 13 estradas estão fechadas. Há registros de bloqueios também em Oruro, Potosí, Santa Cruz e Cochabamba .

Greve geral e exigência de renúncia

O movimento, que inicialmente reivindicava aumentos salariais, passou a defender a rejeição ampla ao governo. As entidades sociais passaram a exigir a renúncia imediata do presidente de direita Rodrigo Paz Pereira, acusado pelas organizações de repressão e de aplicar um programa de ajuste econômico que provocou forte indignação social.

A greve geral mantém o país sob tensão, com mais de 70 bloqueios de estradas. A Central de Camponeses “El Morro”, do município de Sacaba, instalou bloqueio indefinido no puente Huayllani, na rodovia Cochabamba – Santa Cruz, desde as 7h da terça-feira (18) . Os camponeses fecharam completamente o passo em ambos os sentidos e também bloquearam rotas alternativas.

Repressão policial e mortes

A escalada dos protestos ocorre após a repressão policial registrada no sábado (16). Cerca de 3.500 militares e policiais foram enviados pelo governo para desmantelar as interdições . A operação começou nas primeiras horas da manhã.

Ao menos quatro manifestantes morreram em ações atribuídas à polícia e às forças militares. De acordo com relatos, 57 pessoas foram presas durante a grande operação policial e militar voltada à retirada de bloqueios nos acessos a La Paz e El Alto . A Defensoria Pública da Bolívia informou que os confrontos resultaram em 47 prisões e cinco pessoas feridas .

A Confederação Nacional de Mulheres “Bartolina Sisa” denunciou que o governo reprime os protestos enquanto diz que está aberto ao diálogo. “De forma violenta e criminosa o governo interveio na mobilização do povo deixando como saldo falecidos, feridos e detidos em consequência da brutalidade da polícia e do Exército”, afirma nota da organização .

Gasolinazo e crise econômica

O principal estopim da crise foi o decreto presidencial que eliminou subsídios aos combustíveis em dezembro de 2025. Rodrigo Paz justificou a medida alegando “emergência econômica, financeira, energética e social” .

O fim do subsídio praticamente dobrou os preços dos combustíveis. O chamado “gasolinazo” provocou aumento de 86% no preço da gasolina e de mais de 160% no preço do diesel , impactando diretamente as condições de vida da classe trabalhadora.

A Bolívia enfrenta sua pior crise econômica em décadas. As reservas de moeda estrangeira do governo despencaram, e as exportações diminuíram. O país, que antes exportava gás natural, agora precisa importar combustível do exterior .

Lei Marinkovic e terra

Além do aumento dos combustíveis, movimentos indígenas e camponeses rejeitam a chamada Lei Marinkovic (Lei 1720), promulgada em 10 de abril. As organizações afirmam que a medida ameaça recursos naturais comuns e pode favorecer a desapropriação de terras camponesas.

O governo argumentava que a norma permitiria transformar pequenas propriedades em médias, facilitando o acesso a crédito. Movimentos camponeses, no entanto, citaram risco às terras coletivas e abertura para especulação imobiliária .

Diante da pressão popular, Rodrigo Paz revogou a lei em 12 de maio, dando prazo de 60 dias para o Parlamento discutir um novo texto . Apesar da revogação, o dirigente da CSUTCB, Humberto Claros, declarou que o impasse não está encerrado, pois o Executivo deve enviar nova proposta ao Legislativo.

O líder camponês Oscar Cardoza resumiu o sentimento dos manifestantes durante ato em La Paz. “Nossa vida é coletiva, não individual. A terra deve ser respeitada; ela não está à venda”, declarou .

Bloqueios causam escassez e Argentina envia ajuda

Com os bloqueios e a greve, a capital boliviana enfrenta escassez de alimentos e combustível. Os protestos têm causado aumento dos preços dos alimentos, e o governo alega que três pessoas morreram após não conseguirem chegar a hospitais .

A Argentina enviou neste sábado (16) um avião Hércules C-130 da Força Aérea para transportar suprimentos à Bolívia. A aeronave levou 12 toneladas de frango congelado para El Alto, fornecidas pelo próprio Estado boliviano . O governo de Javier Milei afirmou que a ponte aérea humanitária deve continuar nos próximos dias.

Respostas do governo

Apesar da ampliação dos protestos, o governo Rodrigo Paz descartou a possibilidade de renúncia. A administração classificou a ação estatal como uma “operação humanitária” e definiu a rebelião popular como uma “conspiração” atribuída à facção do ex-presidente Evo Morales.

O porta-voz da Presidência da Bolívia, José Luis Gálvez, acusou grupos ligados ao ex-presidente de incitarem a violência. “Todos esses indivíduos que estão promovendo a violência, e qualquer pessoa que possua ou porte qualquer arma, dinamite ou qualquer coisa que possa ferir outra pessoa, será presa”, disse Gálvez .

O ex-presidente Evo Morales respondeu que os protestos são do povo boliviano, não dele. Ele denuncia o governo por usar as Forças Armadas para reprimir a população e critica a criminalização das marchas. “[Eles acusam] as pessoas que se levantaram contra os opressores de conspiração, terrorismo e tráfico de drogas”, respondeu em uma rede social .

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