Reeleito mais uma vez em chapa única para comandar a Fecomércio Goiás, Marcelo Baiocchi chega a um novo mandato cercado por demonstrações de força política e amplo apoio interno. A ausência de adversários na disputa reacende debates sobre renovação, alternância de poder e espaço para vozes divergentes dentro do Sistema Comércio goiano. Nesta entrevista à Tribuna do Planalto, Baiocchi fala sobre sua nova recondução ao cargo, rebate críticas sobre concentração de poder, comenta os desafios do setor produtivo e analisa o cenário econômico e político de Goiás e do Brasil.
por ANDRÉIA BAHIA e LUCAS DE GODOI
A Fecomércio passou a ter atuação política mais evidente a partir da gestão do senhor, que frequentemente se manifesta sobre gestões públicas e participa ativamente de articulações econômicas e legislativas. Essa proximidade institucional com lideranças políticas tem gerado questionamentos de setores que defendem maior independência das entidades empresariais. A Fecomércio corre risco de se tornar excessivamente política?
MARCELO BAIOCCHI – A atuação da Fecomércio é em defesa dos segmentos representados, e a nossa defesa é a melhoria do ambiente de negócios. O que regula o ambiente de negócio é exclusivamente a área política. É dentro da Assembleia Legislativa, dentro da Câmara dos Deputados, dentro do Senado, ali está quem faz toda a legislação que interfere diretamente nos nossos negócios. É dentro das secretarias de Estado, do município, da União, que, através de resoluções e decretos, regulam nosso negócio. E a Federação do Comércio, até então, era reativa. Uma lei era sancionada, a gente saía para discutir constitucionalidade, brigar na justiça, e essa reação vinha tardiamente, porque diz o ditado popular, lei não se discute, se cumpre. O que nós fazemos hoje é um trabalho preventivo. Temos uma estrutura muito forte e atuante, que acompanha todos os projetos de lei nas principais câmaras, de deputados, de estado, Câmara dos Deputados, Senado, nas principais câmaras municipais, a gente discute com os propositores do projeto, discute com os relatores – não para a que a proposta não prospere -, mas que a gente possa ajudar, discutir, oferecendo material técnico, demonstrando qual é o melhor caminho. Um exemplo clássico disso é o número de leis que exige que se coloque algum tipo de placa: Código do Consumidor, fone do bombeiro, elevador, saída, entrada, emergência; o número de placas que um comércio, numa sala de 200 m² não cabe em todas as paredes. Temos que participar das discussões para que leis que interferem diretamente nesse ambiente de negócio não sejam aprovadas ou, se forem aprovadas, que seja de forma factível a serem cumpridas. Outro detalhe, como temos que participar de todas essas discussões, discutimos com parlamentares do PT, PSD, PSDB, PL, de todos os partidos e de todas ideologias. A gente não tem ideologia partidária. Aqui não se discute só com A, B ou C. Temos uma interlocução com todos. É de praxe inclusive – fazemos questão de divulgar quem sempre está conosco visitando, discutindo – nas nossas redes sociais ver todas as ideologias, os dois extremos, que é o PL e o PT, todos nos visitam, todos têm interlocução e todos são muito bem atendidos com a mesma deferência. Por isso que a gente não se preocupa em transformar a federação numa casa política, mas ela é uma casa de defesa do empresário que tem por obrigação ter interlocução com a classe política, senão a gente vai ficar só reagindo a situações que já vão ter sido consolidadas.
O setor produtivo tem influência nas decisões do governo?
Tem interlocução, participa ativamente das discussões e, desta forma, em qualquer ambiente em que você tem interlocução, tem poder de diálogo, com certeza a gente sempre leva sugestões que são acatadas, como levamos muitas sugestões que não são acatadas. Isso faz parte da democracia e do diálogo.
Como o senhor recebe as críticas de que entidades empresariais ficaram elitizadas?
Não, ela não é elitizada a partir do momento que – vou dar o exemplo da nossa casa – nossa federação, tem 35 sindicatos, sindicato de postos de gasolina, sindicato de lojistas, de feirantes, de pit dogs, são comércios distintos e de tamanhos diferentes. Do mesmo jeito que tem aquele pit dog pequenininho na vila, tem uma rede de pit dog, e o sindicato de pit dog, é uma rede de alimentação grande. Como dentro dos postos de gasolina tem o dono de um posto de gasolina, como tem lá uma rede de postos de gasolina. A gente não é elitizado. E toda a relação do empresário é feita no sindicato. E o sindicato é um filiado dentro da federação. A gente faz a relação com os sindicatos, defende e discute aquilo que interfere coletivamente. Infelizmente, se o empresário individualmente tiver um problema, a gente não tem como ajudá-lo. Isso fica a cargo da entidade que é o sindicato representante dele. A gente entra na discussão do meio ambiente, discussão de postura, discussão do plano diretor, quando isso interfere na coletividade.
Durante a pandemia, o senhor teve posicionamento firme em defesa da retomada das atividades econômicas, o que gerou apoio do empresariado e críticas de setores mais cautelosos na saúde pública. O senhor faria algo diferente durante a pandemia?
Nada diferente; faria tudo de novo. A nossa defesa, como sempre pregamos naquela época, a gente defende a vida, mas defende também a economia. Porque não adiantava nada defender a vida se a economia fosse à falência. E as empresas precisavam sobreviver. O que se discutia (à época) é que, em vez de simplesmente fechar tudo, o que precisava era regular como funcionaria. E eu sempre buscava exemplos simplórios para discutir isso. Eu perguntava para as pessoas que defendiam o fechamento: uma academia tem que fechar? Tem. Mas uma academia com um aluno por hora pode funcionar? Pode. Então a discussão não é fechar, é como ela pode funcionar. Dessa tese é que começamos a discutir as flexibilizações, que foi quando a gente conseguiu flexibilizar bares e restaurantes, o distanciamento por mesa, número de pessoas por mesa. E aos poucos foi voltando, porque o simples fechamento levou muitas empresas, principalmente as empresas de pequeno porte, as micro empresas, à falência, que não deram conta de sustentar durante a pandemia e muito menos de voltar após a pandemia. Eu manteria toda a nossa defesa, tudo que conseguimos discutindo, no mesmo nível, nunca mudamos o nível da discussão, nunca partimos para a agressão simples e barata, mas sempre estudando com dados técnicos. Na época, nós nos cercamos por pessoas com conhecimento técnico de alto nível do Brasil inteiro, para poder ter conhecimento e levar às partes esse conhecimento técnico para que fosse feito da melhor maneira possível, preservando vidas e preservando a economia.
A reeleição consecutiva em chapa única e a forte concentração de apoio interno apontam para a pouca disputa interna dentro do Sistema Comércio goiano. Em 2026, novamente houve candidatura única. Há espaço para oposição e renovação dentro da Fecomércio?
Sim, sempre há. Eu defendo a renovação porque a renovação de qualquer entidade é importante. Mas quando a gente tem um projeto, tem um plano, e os 35 sindicatos que são os eleitores da federação participam disto, é natural que você tenha chapa única. A renovação em uma oposição nasce quando as pessoas não participam da discussão. E as pessoas sempre me perguntam como eu faço para caminhar por unanimidade para uma reeleição. A resposta é simples, todos participam do poder. Poder, entre aspas. O poder de decisão, o poder de interlocução, o poder de representação. Na grande maioria dos eventos em que a Federação do Comércio está presente, é um vice-presidente que representa. Na posse de um desembargador do Tribunal do Trabalho, eu recebi o convite como presidente, liguei para um presidente nosso de Anápolis, que é um advogado atuante na área trabalhista, que é a pessoa mais indicada para representar a federação, e é ele que vai representar. Assim, todos participam na representação da federação, e tende a ficar um grupo coeso, mas eu sou o maior defensor da renovação e muito provavelmente a federação passará por essa renovação sem necessidade de ter oposição, mas ter um consenso.
E o que que o senhor espera deixar como legado na Fecomércio?
É um projeto que iniciamos há oito anos e temos mais quatro para terminar de realizar, modernização da administração, mudamos completamente a gestão. Quando eu cheguei, o sistema Sesc-Senac tinha uma cabeça muito de funcionalismo público, eu transformei e hoje temos a cabeça de uma gestão empresarial, onde as pessoas trabalham em cima de planejamento, resultados e metas e todos têm responsabilidades por aquilo em que atuam. A modernização das nossas infraestruturas. A gente tinha prédios de 50 anos que nunca tinham passado por uma grande intervenção, não vou falar reforma, porque reforma acaba sendo pintar e trocar algum fio. Decidimos modernizar as nossas unidades e começamos no ano retrasado, num investimento de quase R$ 350 milhões, porque decidimos não construir unidade nenhuma, deixar todas as unidades preparadas para enfrentar mais 40 anos. O legado que deixo no final da minha gestão, ou da nossa gestão, é uma entidade moderna, atualizada, que participa das discussões do estado e dos municípios ativamente, dentro daquilo que é o nosso propósito de melhorar o ambiente de negócio e que vai ter suas instalações modernizadas para mais 30, 40 anos para a frente. Esse é o legado que a gente pretende deixar e deixará.
O senhor se filiou ao PL recentemente. Já recebeu o convite para disputar as eleições e eu pergunto para o senhor qual seria o projeto do senhor para 2028?
Eu me filiei ao PL por questões de, vamos dizer, preferência nacional. E eu sou real defensor de que a centro-direita possa ocupar o governo federal. Entendo que chegou o momento de podermos demonstrar como é uma gastão liberal, focada na geração de emprego e renda e que todos tenham oportunidade. Se você perguntar para dez brasileiros qual país que eles gostariam de mudar com toda a oportunidade de produzir, nove vão falar que querem ir para os Estados Unidos, que é liberal, onde todos têm a oportunidade de fazer sua vida. E eu entendo que no Brasil a gente precisa dar oportunidade às pessoas para empreender. Goiás é um dos estados com mais empreendedores, nascimento de novas empresas. A filiação foi mais por eu estar alinhado a esse viés de centro-direita. Não é para ser candidato, tanto que não me desincompatibilizei das entidades que eu estou à frente, e não posso ser candidato agora, mas é muito mais como um apoio institucional.
Mas em 2028, o que o senhor pensa em se candidatar?
Está cedo. Precisamos resolver primeiro como é que vai ser a eleição do governo federal este ano, do nosso governo estadual. 2028 está longe e meu candidato em 2028 é o Sandro Mabel à reeleição.
O senhor fez questão de dizer que era uma preferência nacional. O senhor não apoia o Wilder Morais ao governo de Goiás?
Não, quando eu falei nacional é para dizer porque eu filiei o PL. Eu tenho relação próxima com Wilder do tempo em que ele era funcionário da construtora Santa Bárbara Construção aqui em Goiás e eu tinha também uma construtora. A gente ia junto pegar obras e tinha parceria, eu o conheço há mais de 30 anos, ele não era nem empresário ainda. Minha relação com o Wilder é empresarial, de quando ele ainda era funcionário da construção. Eu acompanhei toda a ascensão dele, tanto empresarial quanto política. E com Daniel Vilela tenho uma excelente relação desde o tempo do Maguito Vilela, pai dele, governador e depois prefeito de Aparecida e ele vereador em Goiânia a deputado federal, hoje governador. E tem o próprio ex-governador Marconi Perillo, um político que se relacionou com todas as personalidades de Goiás e não é diferente com a Federação do Comércio. A minha relação com o Governo do Estado de Goiás, como presidente de federação, estou aberto à interlocução e há espaço para todos esses candidatos. E aí eu faço uma vírgula, inclusive do PT porque, apesar da minha posição, recebo todos muito bem, tenho ótima relação com eles, e a casa está aberta para receber todos os pré-candidatos ao governo do Estado, ao Senado, a deputado federal, a deputado estadual, porque a casa é apolítica e suprapartidária.
Como o setor produtivo, pelo Fórum de Entidades, pretende atuar nessas eleições, considerando que José Mário Schreiner tem uma cadeira no fórum e tem se colocado como pré-candidato à vice na chapa governista?
No Fórum Empresarial temos discutido isso internamente, a intenção nossa até iniciar o processo eleitoral é que cada casa receba os pré-candidatos da sua maneira, nos dias e horários que definir e depois que estiverem definidas as candidaturas, a intenção nossa é receber cada um deles dentro do Fórum Empresarial para poder ouvirmos, discutir e também apresentar as nossas propostas para caso sejam eleitos. Especificamente o Zé Mário, ele é do Fórum Empresarial, é presidente da Faeg licenciado, e tem toda a liberdade de articulação conosco. A gente sempre defendeu e defende que os empresários que se disponham possam participar ativamente da política e inclusive como candidato. Vemos com bons olhos o Zé Mário candidato a vice-governador, que é o que ele está pleiteando, sem desmerecer os outros que se colocam como pré-candidatos a vice-governador na chapa do governador Daniel Vilela.
O senhor foi cotado para ser o candidato à prefeitura de Goiânia em 2024. Por que o senhor não aceitou essa disputa? E por que já afiança apoia a reeleição do Mabel daqui dois anos?
Eu não fui candidato até porque não houve um convite formal. O que houve foram informações que chegaram até mim – eu não posso afirmar com certeza que é fato – que meu nome estava numa pesquisa. Eu relatei essa informação porque funcionários meus foram pesquisados, eles falaram que tinha meu nome lá e votaram em mim. Eu estava numa pesquisa para ver, medir qual o nome que teria mais aceitação e fiquei sabendo que ficou entre o nome meu e o do Sandro. O Sandro é um amigo pessoal, uma pessoa que eu tenho grande afinidade e gosto muito dele. Eu via no nome do Sandro um nome mais preparado, porque já foi deputado federal, testado politicamente, mais experiente do que eu em política eleitoral e eu não fiz – vamos dizer assim entre aspas – força para ser o candidato. Entendia que o Sandro seria um excelente nome e teve meu apoio incondicional, É natural aquele que está no cargo que tenha chance da reeleição, se a legislação não mudar, que pleiteie a reeleição e o Sandro, pleiteando a reeleição, com certeza terá o nosso apoio por tudo que ele está construindo, por tudo que ele faz.
Qual a avaliação do governo de Sandro Mabel até aqui que o senhor faz?
A minha avaliação do governo do Sandro é uma avaliação positiva. Não tem como você fazer uma omelete sem quebrar os ovos, não tem jeito de mudar as coisas em Goiânia que precisavam ser mudadas sem mexer com algumas pessoas, mas ele precisava. Não tinha como mudar a Comurg sem mudar os privilégios que tinham na Comurg, não tem como mudar o trânsito sem mexer no estacionamento na porta de algumas lojas. Até na época que ele fez isso, eu fui a favor e me interpretaram como eu não estivesse representando o comércio; muito pelo contrário, eu tenho representando o comércio, porque o cliente só vai chegar na porta do lojista se tiver trânsito com mobilidade para ele ir até lá, senão ele vai pra outro lugar mais fácil de chegar. E tanto que depois negociamos com o Sandro e conseguimos que ele permitisse que fizesse as calçadas, os espaços para estacionar na porta das lojas, então ficou bom para todo mundo. E o Sandro tem feito essas mudanças pontuais necessárias, que às vezes desagradam alguns setores, algumas pessoas, mas eu tenho a certeza absoluta que o final do governo Sandro, dentro daquilo que a gente tem visto e discutido e ele tem apresentado como proposta, será um governo muito bem avaliado e ele vem muito muita capacidade de pleitear a reeleição se ele assim desejar
Como o senhor avalia o desempenho do comércio goiano em 2026?
O comércio, de uma forma geral, vem passando por muitas adaptações desde a pandemia. A pandemia impulsionou o comércio eletrônico, em virtude de as pessoas terem que ficar em casa, tiveram que se adaptar a uma nova forma de compra, que foi pela internet. Pós pandemia, essa prática virou uma rotina. O comércio teve que se adaptar durante a pandemia, porque o comércio que não se adaptou fechou, todos os segmentos tiveram que aprender a vender pelos instrumentos que a internet oferece, e pós-pandemia – como é algo que veio e ficou – cada vez mais o comércio está aprendendo e se especializando no comércio eletrônico. Em 2026, o comércio tem sofrido com a inadimplência alta, 89% das famílias devem, destes 89%, 27% estão inadimplentes. Acaba tendo menos compradores para o comércio, porque aqueles que estão devendo não têm crédito e os que não estão inadimplentes, têm compromisso financeiro e estão optando em não fazer novo.
Além do endividamento, a inflação também diminui o poder de compra. O que isso impacta no consumo das famílias goianas?
A inflação impacta diretamente na renda das pessoas. Ela diminui mês a mês o poder de compra. As famílias buscam mudar o produto, usar o mesmo orçamento para adquirir o que precisam,e assim mudam marca, qualidade do produto para tentar manter o mesmo nível de consumo daquele produto. Mas, com certeza, a inflação, ao tirar o poder de compra, tira do comércio os recursos que os clientes deixam de comprar. O consumidor está gastando o mesmo orçamento que ele tem, mas levando menos produto para dentro de casa. O comércio está vendendo menos produtos, apesar de poder estar vendendo ou faturando o mesmo valor.
Como o comércio recebe as medidas do governo federal para reduzir o endividamento?
O programa do Governo Federal Desenrola tem por objetivo atingir uma renda familiar limitada, um endividamento limitado, mas que é de boa parte desses 89% endividados. Um fator muito positivo é que ele limita por 12 meses que essas pessoas apostem nas bets. A inadimplência cresceu muito no país pós-regularização das bets, então isso é um fator positivo porque impede que o recurso seja apostado nas bets. Mas o que mais nos preocupa é que essas pessoas, mais do que impedi-las de apostar, estão precisando de uma educação financeira. Infelizmente o brasileiro não tem uma educação financeira: planejar financeiramente, saber poupar, saber calcular qual a taxa de juro embutida no produto. Infelizmente o brasileiro compra a prestação, ele não compra o produto e o juro embutido dentro dele. Defendo sempre que a educação financeira no país é mais importante do que somente regularizar a dívida.
A reforma tributária que foi vendida como simplificação. O setor produtivo concorda com essa tese?
De jeito nenhum. Reforma tributária, até porque nessa fase de transição, na qual as empresas precisam levar dois tipos de contabilidade em paralelo – a gente já chamava de manicômio tributário – com essa situação de hoje nem se sabe qual adjetivo que podemos dar. Mas a reforma tributária simplifica alguns tributos, unifica e cria um menor número de tributos, mas a certeza, a única que temos, é que aumentou a carga tributária. A simplificação foi mínima e a fase de transição é muito complexa, vai trazer muita dificuldade, até porque as empresas que não conseguirem levar em paralelo as duas contabilidades estarão sujeitas a recolher pelas duas formas o tributo. É algo muito complexo e no primeiro momento muito mais difícil de administrar.
Há risco de aumento de preços ao consumidor diante dessa complexidade de transição entre um regime e outro?
Existe, porque quando se aumenta tributo – como agora está sendo discutido mudar a escala de trabalho, 6×1 para 5×2, 44 para 40 horas – toda ação que traduz aumento de custo, com certeza isso é transferido ao produto.Quando se fala que vai aumentar o imposto para o empresário, não é para o empresário, é para o consumidor. Porque quem paga o imposto é quem consome, e o empresário transfere, entra na planilha de custo dele. Eu não canso de dizer que quem sempre paga a conta é quem que consome. A reforma tributária, como está sendo proposta e executada, com mais complexidade, esse custo será transferido ao preço que quem estará pagando vai ser o consumidor.
O senhor teme que haja perda de competitividade para empresas goianas, uma vez que a reforma tributária, dentre outras coisas, retira os incentivos fiscais?
O incentivo fiscal vai ter esse tempo de transição também até 2032. E a tributação no consumo vai fazer com que os nossos produtos percam competitividade, visto que o maior consumo está na região Sul e Sudeste. O produto que sai da região Centro-Oeste para ir até a região Sul e Sudeste tem um frete, nosso frete é rodoviário, um dos fretes mais caros que existe, isso vai incorporar também ao preço e sem a competitividade do incentivo fiscal que Goiás hoje oferece, ele vai chegar lá na ponta bem mais caro e menos competitivo do que aqueles produtos que são fabricados próximo da área de consumo, que é região Sul e Sudeste.
O senhor mencionou a proposta de redução da escala de trabalho; os empresários reclamam da dificuldade de contratar mão de obra. A redução da jornada tende a atrair um novo perfil de trabalhador, um trabalhador jovem que perdeu o interesse pela escala mais tradicional ou mudança traz apenas prejuízo mesmo, encarecendo a relação de trabalho?
Um exemplo bem simples, uma empresa que tem dez funcionários, cada um cumprindo 44 horas, tem 444 horas de trabalho por dia. Quando se reduz a jornada para 40 horas, ele tem 400 horas. Ele perdeu um funcionário pagando os mesmos dez. Para manter a produtividade ele vai ter que contratar mais um funcionário. Aumentou em 10% para ter o mesmo número de homens trabalhando naquela mesma carga de 440 horas. Não tem jeito de fazer isso sem gerar custo. O que mais nos preocupa é que está se discutindo essas mudanças sem se discutir como que essa transição será feita e quem e como vai ser paga essa conta. Como eu já disse, isso vai acabar no preço, e o preço quem paga é o consumidor. Temos defendido que cada categoria tem uma forma diferente de trabalhar, muitas empresas já trabalham na escala 5×2, a indústria na sua grande maioria é 5×2, já o comércio, vamos dar um exemplo de shopping center, funciona 7×0, todos os dias aberto para poder atender a população, até para esses que trabalham 5×2, ter dois dias de lazer num shopping. É necessário fazer a escala, e esses locais, hotéis, hospitais, que são serviços, como vão continuar funcionando todos os dias, 24 horas, diminuindo carga e escala? Vão ter que fazer contratações, o custo vai aumentar. A qualificação de mão de obra é algo necessário e importante para que essas empresas sobrevivam neste momento de transição. Alguns segmentos estão apostando muito, por força da necessidade, em Inteligência Artificial. Conheço empresas que atuam na área de serviços que tinham 20 pessoas atendendo um departamento de pós-venda que, com a inteligência artificial, já estão só com cinco. Os supermercados estão investindo muito no autoatendimento para diminuir números de caixa; postos de gasolina, representante deles já me informou que, já que vai mudar a escala e carga de trabalho, eles vão voltar a discussão do autoatendimento no posto de gasolina para diminuir os frentistas. Assim cada segmento vai ter que se adaptar a essa nova realidade para tentar não transferir para o produto o custo que ele terá na mudança.
Hoje está mais difícil empreender ou contratar?
Não tem nada fácil. O que é difícil em empreender: taxa Selic 14%, inflação de 4, 5%, um juro real de 9%, segundo maior juro do mundo, essa é a maior dificuldade. E crédito baixo, os bancos estão evitando emprestar. Essa é a maior dificuldade para quem quer empreender. Tendo conseguido vencer essas barreiras, empreendeu, a contratação de mão de obra qualificada é difícil. E aí muitas empresas partem para formar mão de obra qualificada. Muitas empresas contratam pessoas que não tem a qualificação ideal e põe salas de treinamento. As empresas que precisam de mão de obra menos qualificada tem mais facilidade de achar essas pessoas para trabalhar, como exemplo a construção civil. Apesar de está tudo muito especializado, quem assenta o piso é especializado nisso; quem pinta só mexe com a pintura. A construção civil também tem seus especialistas, mas o grosso, que é o servente que ajuda muito na obra, o pedreiro, eles com pouco treinamento, já conseguem exercer a profissão.
Quais profissões podem desaparecer nos próximos anos?
É difícil fazer uma previsão de profissões que podem desaparecer, mas o que eu diria é que podem diminuir vagas naquelas profissões que a inteligência artificial tem entrado muito forte. Há estudos que indicam que 80% das atividades já usam inteligência artificial. Principalmente no atendimento. Hoje você não liga para teleatendimento no qual quem faz todo o seu atendimento não seja uma inteligência artificial. Principalmente se for por mensagens, 100% é a inteligência artificial que está embarcada ali te respondendo. Tanto que uma das opções é falar com um atendente. Só aí que você fala como um ser humano. A profissão de teleatendimento tende a diminuir muito as vagas porque a inteligência artificial tem entrado. Serviços de uma forma em geral como área comercial, vendas, pós-venda são circunstâncias em que a inteligência artificial tem entrado fortemente e em todas outras atividades tem se visto cada vez mais a inteligência artificial sendo – entre aspas -treinada e capacitada para fazer o serviço humano
O empresário brasileiro compete hoje em desvantagem com os marketplaces, especialmente os internacionais, a exemplo dos chineses?
Muita desvantagem, visto que compras até U$ 50, que não é de R$ 250,00, não é uma conta só de 5 vezes 50, é uma conta de 5 vezes 50 mais tributação, que no Brasil hoje é 38%; nos Estados Unidos se não me engano é 14%, na Europa é 18%. Nós temos uma desvantagem enorme quando compras até U$50 não são taxadas. Se você tiver experiência de comprar num desses sites, quando fizer uma compra acima de U$ 50 dólares, vai receber diversos pacotes na sua casa para que nenhum deles esteja acima de U$ 50. Há até o artifício de separar e dividir a sua compra em mais de uma para que fique no limite a nota de remessa até você. É uma competitividade ruim, mas a gente até não discute, porque baixar tributo é algo que sempre defendemos, mas que também tenha essa competitividade para o empresário brasileiro, que as vendas dele até R$ 250 – sem contar os tributos – seja isento de tributo. Aí vamos competir de igual para igual com as empresas das plataformas digitais, em especial as estrangeiras.















