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Entre rótulos e realidade: por que direita e esquerda já não explicam o Brasil

Polarização política ganha caráter emocional e simplifica um país marcado por contradições e complexidade


Por Rodrigo Zani em 17/04/2026 - 14:22

A divisão entre direita e esquerda na política tem uma origem histórica concreta. Durante a Revolução Francesa, no fim do século XVIII, os membros da Assembleia Nacional se organizavam fisicamente no plenário: à direita do presidente ficavam os defensores da ordem tradicional e de mudanças graduais; à esquerda, os revolucionários que defendiam transformações profundas. Entre eles, havia posições intermediárias, como a dos girondinos. Essa disposição espacial acabou dando origem aos termos que, até hoje, estruturam o debate político.

Esses conceitos, no entanto, nasceram em um contexto específico e carregavam significados próprios daquele tempo. Ao longo dos séculos, foram simplificados, distorcidos e, muitas vezes, esvaziados. No Brasil contemporâneo, especialmente após a ascensão de Jair Bolsonaro, essa divisão deixou de ser apenas ideológica e passou a ser emocional. Consolidou-se uma polarização afetiva, em que o outro lado não é visto como adversário, mas como inimigo moral — o que empobrece o debate e desloca a política do campo das ideias para o das identidades.

O país já viveu outras fases de polarização, como no período entre Fernando Henrique Cardoso e o impeachment de Dilma Rousseff, marcado pela disputa entre PSDB e PT. Ainda que houvesse divergências relevantes, tratava-se de uma polarização mais programática. Na prática, porém, ambos os partidos, ao governarem, adotaram posturas moderadas, dentro de uma lógica social-democrata que combinava responsabilidade fiscal com políticas sociais. A realidade da gestão exigiu pragmatismo além dos rótulos.

A chegada de Bolsonaro representou uma ruptura. Seu governo se estruturou mais em torno de uma narrativa de confronto do que de um projeto consistente de longo prazo, tensionando instituições e aprofundando divisões. Ao mesmo tempo, o atual governo Lula busca recomposição institucional, mas enfrenta dificuldades para avançar em reformas estruturais e lidar com um ambiente social profundamente fragmentado.

Hoje, a política brasileira opera em uma lógica quase binária, na qual rejeitar um polo implica aderir ao outro. Ainda assim, há uma parcela significativa da população que não se identifica com essa dinâmica e busca avaliar propostas com mais racionalidade. Esse grupo pode ser decisivo para qualificar o debate público.

O desafio é que o Brasil é um país que não cabe em simplificações. Trata-se de uma nação extremamente complexa, de dimensões continentais, com um povo diverso e marcada por profundas contradições: um país rico de gente pobre, com graves problemas estruturais e uma das maiores desigualdades sociais do mundo. Ao mesmo tempo, é um país vibrante, de imensa beleza natural, rico em biodiversidade e líder global no agronegócio. É, simultaneamente, um país de crises e de soluções.

Reduzir essa complexidade a disputas entre direita e esquerda é insuficiente. O Brasil não é um barco pequeno que muda de direção com manobras bruscas; é um transatlântico em alto-mar. Não se faz um “cavalo de pau” em um transatlântico. No entanto, a polarização afetiva tenta conduzir o país como se fosse um jet ski — uma metáfora que expõe o descompasso entre a profundidade dos desafios nacionais e a superficialidade das narrativas políticas. Esse tipo de abordagem, adotado tanto por setores da direita quanto da esquerda, ignora a inércia, o peso e a complexidade das estruturas brasileiras.

Diante disso, torna-se urgente abandonar a ilusão de que o Brasil é “o país do futuro”. Essa promessa já se esgotou. O Brasil precisa ser o país do presente — com decisões concretas, planejamento estratégico e compromisso com resultados.

Isso passa, necessariamente, por investimento consistente em ciência, tecnologia e pesquisa. Nenhuma grande nação se desenvolveu sem priorizar essas áreas de forma estratégica. O Brasil precisa produzir conhecimento, inovar, formar capital humano qualificado e transformar potencial em produtividade.

Mais do que escolher entre direita ou esquerda, o país precisa construir um projeto nacional que combine responsabilidade econômica com justiça social, crescimento com inclusão, estabilidade institucional com inovação. Precisa menos de líderes messiânicos e mais de políticas públicas sólidas.

Posicionar-se fora das trincheiras ideológicas não é ausência de opinião, mas uma escolha por mais rigor e menos paixão. Significa reconhecer acertos e erros onde quer que estejam e, acima de tudo, colocar o Brasil acima de qualquer disputa.

Porque, no fim, mais importante do que o rótulo político é a capacidade de enfrentar a realidade — e transformá-la.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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