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A esquerda em Goiás: lulismo, ativos políticos e o desafio do alinhamento estratégico

Se o lulismo é maior que o petismo em Goiás, isso não elimina o fato de que o Partido dos Trabalhadores detém a hegemonia política e simbólica da liderança de Lula no estado


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 13/01/2026 - 12:49

Lula em Goiânia para o Conune
Há, no estado, um contingente expressivo de eleitores que confia em Lula

Durante décadas, Goiás foi enquadrado no imaginário político nacional como um território estruturalmente hostil à esquerda. Embora esse diagnóstico tenha fundamento histórico, ele se mostra insuficiente diante das transformações recentes do comportamento eleitoral no estado. Os dados das eleições de 2022 indicam uma realidade mais complexa: há uma base lulista significativa em Goiás, numerosa e resiliente, ainda que dissociada, em grande medida, da força orgânica do Partido dos Trabalhadores.

O desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado é um dado incontornável dessa análise. Mesmo em um ambiente majoritariamente conservador, Lula alcançou 41,29% dos votos válidos em Goiás, resultado expressivo se consideradas as condições adversas da campanha. O presidente concorreu sem uma estrutura local robusta, com palanques fragmentados, baixa capilaridade partidária e enfrentando a força da máquina federal então comandada por Jair Bolsonaro, além do apoio explícito de setores empresariais, religiosos e da extrema direita organizada. Ainda assim, Lula obteve um percentual que revela a existência de um eleitorado consistente, politicamente engajado e menos volátil do que se costuma supor.

Esse dado ganha densidade analítica quando comparado ao desempenho do próprio PT na disputa estadual. O professor Wolmir Amado, candidato petista ao governo de Goiás em 2022, obteve apenas 6,98% dos votos válidos. Trata-se de um desempenho modesto, que teve impacto direto no desfecho da eleição: a baixa votação de Wolmir contribuiu decisivamente para a vitória de Ronaldo Caiado ainda no primeiro turno, ao impedir a consolidação de um segundo polo competitivo capaz de tensionar a disputa e forçar um segundo turno.

A distância entre os 41,29% de Lula e os 6,98% de Wolmir evidencia uma dissociação estrutural entre lulismo e petismo em Goiás. Há, no estado, um contingente expressivo de eleitores que confia em Lula, reconhece sua trajetória e seu papel nacional, mas não se identifica automaticamente com o PT enquanto força política local. Essa dissociação pode ser explicada por fatores diversos: rejeições históricas ao partido no plano estadual, fragilidades organizativas, ausência de um projeto local competitivo e, sobretudo, a percepção pragmática de que o PT não apresentou, em 2022, uma alternativa viável de poder em Goiás.

Esse eleitor lulista, no entanto, possui uma característica marcante: ele tende a se expressar de forma silenciosa. Em um ambiente político marcado pela hegemonia conservadora e por ciclos recentes de radicalização e intimidação política, o voto em Lula em Goiás frequentemente se manifesta de maneira discreta, pouco visível na esfera pública. Ainda assim, ele se mostrou resistente mesmo sob forte pressão simbólica e institucional. Com o enfraquecimento da extrema direita, a derrota eleitoral do bolsonarismo e a redução do clima de polarização agressiva, há sinais de que esse eleitorado tende a se expressar com maior confiança e protagonismo nos próximos ciclos eleitorais.

Se o lulismo é maior que o petismo em Goiás, isso não elimina o fato de que o Partido dos Trabalhadores detém a hegemonia política e simbólica da liderança de Lula no estado. É o partido que esteve ao seu lado nos momentos mais críticos: durante o processo judicial conduzido por Sérgio Moro, na perseguição política e no período de prisão. Essa trajetória confere ao PT legitimidade para reivindicar protagonismo na reorganização do campo progressista goiano. No entanto, essa hegemonia simbólica não se converte automaticamente em hegemonia eleitoral, o que impõe ao partido o desafio de reconstrução estratégica e territorial.

Essa reconstrução passa, necessariamente, pela federação formada por PT, PCdoB e PV. Trata-se de uma aliança que, apesar de tensões internas naturais, oferece densidade política, lastro institucional e presença territorial. A federação reúne prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, constituindo hoje o núcleo mais estruturado da esquerda em Goiás. Seu desafio não é apenas preservar a unidade formal, mas transformá-la em um projeto estadual coerente, competitivo e socialmente comunicável.

Nesse ecossistema, o PSOL exerce uma função complementar relevante. Embora possua menor representação institucional, o partido mantém forte inserção nos movimentos sociais e capacidade de mobilização de uma militância ideológica, ativa e altamente engajada. Em cenários de disputa política mais acirrada, essa energia militante pode ser decisiva para pautar o debate público, tensionar narrativas conservadoras e influenciar a formação de opinião.

O PSB, por sua vez, vive um momento de redefinição estratégica em Goiás sob a nova direção de Aava Santiago. O partido é pressionado, de forma legítima, a alinhar-se de maneira mais clara ao projeto nacional do presidente Lula, inclusive na disputa pelo governo estadual. A trajetória política de Aava, com vínculos anteriores ao PSDB, gera desconfiança em setores da esquerda, apesar de seu engajamento no projeto Lula-Alckmin. Não há, entretanto, incoerência nessa composição. Em 2022, forças que iam da esquerda ao centro democrático se uniram para derrotar a extrema direita. O desafio agora é administrar esse equilíbrio com maturidade política e clareza estratégica.

Nesse tabuleiro, o ex-governador José Eliton surge como uma figura que merece atenção. Desde sempre posicionado contra a extrema direita, possui um perfil moderado, técnico e orientado à construção de consensos. Não é um político de rupturas, mas de articulação. Justamente por isso, pode desempenhar papel relevante na construção de uma frente ampla progressista em Goiás, especialmente em um contexto de busca por governabilidade e ampliação de alianças.

Entre os quadros do PT, destaca-se a deputada federal Adriana Accorsi. Delegada de polícia, com atuação reconhecida na área da segurança pública, Adriana reúne duas características raras: forte identidade com a militância de esquerda e capacidade de diálogo com setores populares tradicionalmente refratários ao campo progressista. Sua lealdade ao presidente Lula e seu perfil técnico-político fazem dela um ativo estratégico relevante.

O PCdoB também dispõe de quadros qualificados, como Fábio Tokarski, professor, ex-deputado e dirigente nacional do partido. Com bom trânsito em Brasília, visão estratégica e capacidade de diálogo com diferentes setores da sociedade, Tokarski representa uma liderança com densidade programática e articulação política, elementos essenciais para a reconstrução da esquerda no estado.

Outro nome de destaque é o do professor Edward Madureira, figura respeitada inclusive por setores da direita. Intelectual equilibrado, com forte reconhecimento em Goiânia e credibilidade pública consolidada, Madureira representa um perfil capaz de dialogar amplamente, atributo cada vez mais escasso no cenário político atual.

Não se pode ignorar, ainda, o papel de Rubens Otoni, cuja atuação consistente em Anápolis e no interior do estado lhe garante capilaridade e presença territorial. Sua inserção em cidades médias e pequenas o coloca como uma das principais lideranças do PT fora da capital, aspecto decisivo para qualquer projeto estadual competitivo.

Por fim, há os partidos do chamado centrão, muitos dos quais hoje integram a base de apoio do governo Lula no plano nacional. Em um cenário de eventual rearticulação do bolsonarismo, essas forças tendem a adotar posições pragmáticas nos estados, abrindo espaço para alianças táticas com o campo progressista em Goiás.

Em síntese, com Lula politicamente fortalecido, a economia dando sinais de recuperação e o ambiente institucional mais estável do que em 2022, a esquerda goiana dispõe de votos, quadros e condições objetivas para avançar. O desafio central não é a ausência de base social ou de lideranças, mas a capacidade de construir um alinhamento estratégico inteligente — capaz de converter o lulismo difuso em projeto político estruturado, competitivo e, finalmente, vitorioso nas urnas.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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