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Alerta Amarelo para Lula: bom governo não basta na era das narrativas


Por Rodrigo Zani em 19/03/2026 - 09:23

Luiz Inácio Lula da Silva é, sem dúvida, uma das figuras mais marcantes da história política brasileira. Seu legado está profundamente associado à inclusão social, à redução das desigualdades e à defesa das instituições democráticas. Em seu atual mandato, Lula tem conseguido entregar resultados econômicos relevantes: o desemprego em níveis baixos, inflação relativamente controlada e um ambiente de maior previsibilidade institucional. Seu governo resgatou políticas sociais importantes, fortaleceu programas de transferência de renda e retomou uma agenda de desenvolvimento nacional. Trata-se, até aqui, de uma gestão marcada pelo equilíbrio.

Entretanto, o campo de disputa política mudou — e esse é o principal sinal de alerta. A batalha eleitoral contemporânea não está mais centrada exclusivamente em indicadores econômicos ou entregas administrativas. Ela ocorre, sobretudo, no terreno das narrativas. E nesse ambiente, as redes sociais desempenham um papel decisivo. Hoje, a direita demonstra ampla vantagem nesse ecossistema digital, dominando linguagem, timing e engajamento. Narrativas são construídas e disseminadas em poucas horas, com forte impacto no imaginário popular. A esquerda, por outro lado, tem demonstrado dificuldades em reagir com a mesma velocidade e eficiência, perdendo a disputa por atenção, likes e alcance algorítmico.

Outro ponto crítico é a limitação na ampliação da base política. Embora o governo tenha conseguido atrair lideranças pontuais de outros partidos, não houve uma adesão formal consistente das legendas. Muitos partidos seguem atuando de forma independente ou orbitando projetos alinhados à direita. Isso fragiliza a sustentação política no médio prazo e dificulta a construção de uma maioria sólida.

No Nordeste, tradicional reduto eleitoral de Lula, ainda há vantagem significativa. No entanto, observa-se uma redução gradual dessa margem. A direita tem avançado na região, diminuindo a diferença de votos — o que representa um risco concreto ao projeto político do PT, especialmente em uma eleição apertada.

Além disso, episódios como os escândalos envolvendo o INSS e o Banco Master tendem a gerar desgaste natural para quem está no poder. Historicamente, crises dessa natureza impactam mais o governo do que a oposição. Em ano eleitoral, o ressurgimento de uma agenda anticorrupção pode ser particularmente sensível para o PT, reativando memórias negativas em parte do eleitorado.

No campo da direita, movimentos estratégicos também merecem atenção. Flávio Bolsonaro tem buscado se posicionar como uma figura mais moderada — uma espécie de “Bolsonaro palatável” ao centro. Essa estratégia pode ampliar sua aceitação entre eleitores que rejeitam extremos, mas que serão decisivos na eleição. O centro político, mais uma vez, será o fiel da balança: quem conquistá-lo terá grandes chances de vitória.

A base bolsonarista também avança em estados-chave. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas se consolida como um aliado estratégico do projeto da direita. Em Minas Gerais, Cleitinho desponta como uma liderança em ascensão, com potencial de fortalecer ainda mais esse campo político. Esses dois estados são historicamente decisivos em eleições nacionais.

No espectro da centro-direita, há uma pulverização de candidaturas que, à primeira vista, pode parecer favorável ao governo. O PSD, por exemplo, reúne nomes como Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite como pré-candidatos. No entanto, em um eventual segundo turno, a tendência histórica é de convergência dessas forças contra Lula, unificando o campo oposicionista.

Há ainda um elemento mais subjetivo, mas não menos relevante: um certo cansaço do eleitorado. Lula é protagonista — direta ou indiretamente — das disputas eleitorais desde os anos 1980. Isso gera, em parte da população, a percepção de que a esquerda não se renova, permanecendo excessivamente dependente de sua figura. Pensar o futuro político no pós-Lula passa a ser uma necessidade estratégica para o campo progressista.

Nada disso, contudo, diminui a força eleitoral de Lula. Ele segue como um candidato extremamente competitivo, com reconhecimento histórico consolidado e forte conexão popular. Mas o cenário está longe de definido. A eleição permanece polarizada, a direita está organizada e o ambiente digital amplifica incertezas.

A disputa promete ser voto a voto — e, nesse contexto, qualquer erro pode ser decisivo.

Caiado amplia potencial de voto, aponta pesquisa Real Time/Big Data

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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