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Brasil registra pela primeira vez campo de tectitos, vidros formados por impacto de meteorito

As estruturas foram batizadas de geraisitos, em referência ao estado de Minas Gerais, onde as primeiras amostras foram encontradas


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 16/01/2026 - 08:42

Apenas cinco grandes campos de tectitos eram reconhecidos no mundo, Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize - Divulgação
Apenas cinco grandes campos de tectitos eram reconhecidos no mundo, Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize - Divulgação

Pesquisadores identificaram, pela primeira vez no Brasil, um campo de tectitos, vidros naturais gerados pelo impacto de alta energia de corpos extraterrestres contra a superfície terrestre. As estruturas foram batizadas de geraisitos, em referência ao estado de Minas Gerais, onde as primeiras amostras foram encontradas. A descoberta amplia o ainda incompleto registro de impactos cósmicos na América do Sul.

O achado foi descrito em um artigo publicado na revista científica Geology, assinado por uma equipe internacional liderada pelo geólogo Álvaro Penteado Crósta, professor titular sênior do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp), com participação de pesquisadores do Brasil, Europa, Oriente Médio e Austrália.

Até então, apenas cinco grandes campos de tectitos eram reconhecidos no mundo, Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte e Belize. Com a identificação dos geraisitos, o Brasil passa a integrar esse grupo restrito.

As primeiras ocorrências foram registradas nos municípios de Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso, no norte de Minas Gerais, ao longo de uma faixa de cerca de 90 quilômetros. Posteriormente, novos achados foram confirmados na Bahia e no Piauí, ampliando a área conhecida para mais de 900 quilômetros de extensão, segundo Crósta. De acordo com o pesquisador, a expansão é compatível com o padrão observado em outros campos de tectitos e está diretamente relacionada à energia do impacto.

Até julho de 2025, os cientistas haviam catalogado cerca de 500 amostras, número que já ultrapassa 600 fragmentos com as descobertas mais recentes. As peças variam de menos de 1 grama até 85 gramas e apresentam formas típicas de tectitos aerodinâmicos, como esferas, gotas, discos e estruturas torcidas.

Apesar de parecerem negras e opacas, as amostras tornam-se translúcidas sob luz intensa, revelando coloração verde-acinzentada. Análises geoquímicas indicam alto teor de sílica e baixíssimo conteúdo de água, características consideradas decisivas para a classificação como tectitos. A datação isotópica aponta que o impacto ocorreu há cerca de 6,3 milhões de anos, no final do período Mioceno.

Até o momento, nenhuma cratera associada ao evento foi localizada. No entanto, isso não é incomum: apenas metade dos grandes campos de tectitos conhecidos no mundo possui crateras identificadas. No caso brasileiro, evidências geoquímicas sugerem que o impacto ocorreu sobre rochas muito antigas do cráton do São Francisco, uma das regiões geologicamente mais antigas da América do Sul.

Segundo os pesquisadores, a quantidade de material fundido e a vasta área de dispersão indicam um impacto de energia significativa, embora menor do que o responsável pelo maior campo conhecido, o da Australásia. A equipe segue trabalhando com modelos matemáticos para estimar parâmetros como energia liberada, velocidade e ângulo de entrada do corpo extraterrestre.

A descoberta preenche uma lacuna importante no conhecimento sobre impactos cósmicos no continente sul-americano e reforça a hipótese de que tectitos podem ser mais comuns do que se imaginava, mas frequentemente passam despercebidos ou são confundidos com outros tipos de vidro natural.

Fonte: Agência Fapesp

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