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Campinas: O bairro que nunca deixou de ser cidade e segue vivo na memória de Goiânia

Pesquisadora explica como o antigo município deu origem à nova capital, preservou uma identidade própria e mantém, até hoje, laços afetivos que resistem ao tempo e às transformações urbanas


Arthur Oliveira Por Arthur Oliveira em 12/07/2026 - 12:55

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Antigo Coreto na Praça Joaquim Lúcio, Goiânia. (Foto: Sílvio Berto. 1940. Acervo MIS-GO)

Poucos lugares em Goiânia carregam uma identidade tão marcante quanto Campinas. Fundado em 1810, mais de um século antes do lançamento da pedra fundamental da nova capital, o antigo município foi decisivo para a construção de Goiânia e, 216 anos depois, continua sendo reconhecido por seus moradores como uma cidade dentro da cidade. Entre lembranças, tradições, religiosidade, comércio e relações comunitárias, Campinas preserva uma memória coletiva que atravessa gerações e ajuda a explicar a própria formação da capital goiana.

É essa a principal conclusão da arquiteta e pesquisadora Cristina Costa, que dedicou sua dissertação de mestrado ao estudo da identidade campineira. Para ela, compreender Campinas é entender que sua história não começou com Goiânia. “Campinas surgiu por volta de 1810 como um arraial. Depois tornou-se vila e, posteriormente, município. Ela tinha seu próprio poder administrativo, econômico e religioso. Era uma cidade estruturada antes mesmo da criação de Goiânia”, explica.

Segundo Cristina, essa trajetória diferencia Campinas de outros bairros da capital. Enquanto Goiânia nasceu planejada, inspirada pelos ideais modernistas da década de 1930, Campinas cresceu de forma espontânea, característica comum às antigas cidades do interior goiano. “O núcleo original se desenvolveu em torno da Igreja Matriz. Como aconteceu em diversas cidades de Goiás, a igreja organizava a vida urbana, administrativa e social.

Ponto de Partida

Quando o governo de Goiás decidiu transferir a capital para a região de Campinas, em 1933, o antigo município já oferecia condições consideradas estratégicas para receber o empreendimento. A localização geográfica, relevo favorável, disponibilidade de água, infraestrutura existente e a população já instalada fizeram de Campinas a principal base de apoio para a construção de Goiânia.

“Cidades não surgem do nada e Campinas ofereceu mão de obra, abastecimento comercial, serviços e até serviu como sede provisória do governo. Ela tinha uma supremacia espacial naquele momento, porque já existia enquanto Goiânia ainda estava sendo construída”, afirma.

Com o crescimento acelerado da nova capital, entretanto, essa relação começou a mudar. À medida que o centro administrativo foi transferido para a Praça Cívica e novos bairros surgiram ao redor da cidade planejada, Campinas deixou de ocupar a posição de comando político e econômico que possuía. “O poder vai sendo deslocado lentamente, Goiânia cresce, surgem novos loteamentos e Campinas passa a ser envolvida pela expansão urbana. Logo, ela perde espaço como centro de poder, mas não perde sua identidade.”

Campinas como cidade

Embora tenha sido incorporada a Goiânia, Campinas continua sendo tratada como uma cidade por muitos de seus moradores, especialmente entre as gerações mais antigas.

Durante sua pesquisa, Cristina observou um comportamento recorrente entre os entrevistados. “Todos falavam de Campinas como uma cidade, diziam ‘vou em Campinas’, ‘vou ao banco em Campinas’. Quando precisavam ir ao Centro, falavam que estavam indo para Goiânia. Eram lugares diferentes na memória dessas pessoas.”

Para Cristina, o sentimento de identidade e pertencimento ultrapassa os limites geográficos e um dos fatores são os espaços, pois são eles responsáveis por preservar o antigo município. Entre eles estão a Igreja Matriz de Campinas, o Colégio Santa Clara, o Colégio Gustav Ritter, o Mercado de Campinas, o estádio Antônio Accioly, do clube de futebol Atlético Goianiense, o Parque Campininha das Flores, e a Casa Amarela, residência mais antiga de Goiânia.

Resistência

Ao longo de mais de dois séculos, viu boa parte de seus antigos cinemas fechar as portas, casarões mudarem de função e o crescimento urbano transformar profundamente sua paisagem. Apesar disso, Cristina acredita que o bairro conseguiu preservar sua essência.

“Campinas tentou acompanhar as mudanças. Algumas edificações incorporaram elementos do Art Déco, buscando dialogar com a arquitetura da nova capital. Ela se adaptou sem abandonar completamente sua história.”, disse.

Para a pesquisadora, essa capacidade de transformação explica por que continua viva. “Ela não ficou parada no tempo. Continua sendo um espaço onde novas histórias estão sendo construídas, e existe vida acontecendo ali todos os dias.”

Aniversário

Campinas é um lugar que existe e resiste ao tempo. Cada edifício, rua e construção guardam histórias de pessoas que viveram ali. A cidade nos constrói e nós também construímos a cidade. Preservar essa memória é garantir que as próximas gerações compreendam a própria formação de Goiânia.

“Se Campinas pudesse falar para Goiânia, talvez dissesse: ‘Você ainda é muito jovem. Não perca sua memória’. Porque é essa memória que vai contar, daqui a 200 anos, quem nós fomos e como chegamos até aqui.”, concluiu.

Assim como Campinas que preserva e transmite sua história ao longo de mais de dois séculos, a Tribuna do Planalto, que celebra 40 anos nesta semana, tem acompanhado e registrado a transformação de Goiânia. Ambas são testemunhas do tempo e guardiãs de uma memória que segue sendo construída diariamente por seus campineiros.

*Arthur Oliveira é estagiário sob supervisão de Andréia Bahia.

Arthur Oliveira

Estagiário sob supervisão de Andréia Bahia

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