Jair Bolsonaro construiu sua trajetória política zombando de tudo e de todos. Vendeu ao público a imagem de um homem indestrutível, acima das fragilidades humanas, alguém que se dizia “imbrochável” e “incomível” — expressões vulgares, mas usadas de forma deliberada para reforçar uma masculinidade agressiva, autoritária e supostamente inabalável. Essa caricatura não era apenas retórica: era parte central de sua identidade política.
Durante a pandemia de Covid-19, essa crueldade ganhou contornos trágicos. Bolsonaro zombou da dor alheia, minimizou a morte de centenas de milhares de brasileiros e, ao ser confrontado, respondeu que “não era coveiro”. Chegou a imitar, em público, uma pessoa sufocando, enquanto o país vivia uma das maiores crises sanitárias de sua história. Empatia nunca foi um traço de sua personalidade pública — salvo quando se tratava de si mesmo.
Esse desprezo pelo sofrimento humano sempre caminhou lado a lado com sua defesa aberta da ditadura militar e com seus ataques sistemáticos aos direitos humanos. Bolsonaro já afirmou que o regime militar “deveria ter matado mais gente” e normalizou, em seu discurso, a tortura, a violência institucional e o autoritarismo. Para ele, cadeia era lugar de castigo extremo, “bandido bom era bandido morto” e preso não merecia direito algum.
Foi essa soma de brutalidade, discurso de ódio e simplificação autoritária que ajudou a forjar a narrativa do “mito”. Mas a pergunta que se impõe é: mito ou personagem fabricado?
Bolsonaro sempre soube explorar sua própria imagem — inclusive sua saúde — como ferramenta política. O atentado a faca sofrido durante a campanha de 2018, um ato violento e absolutamente condenável do ponto de vista humano, foi também estrategicamente utilizado para humanizá-lo. O sofrimento físico passou a contrastar com a figura antes cruel, despertando empatia em parte do eleitorado e contribuindo para sua vitória.
Hoje, o cenário é outro. Jair Bolsonaro está preso, condenado por tentativa de golpe de Estado. E tudo aquilo que ele atacou, desacreditou e tentou destruir — os direitos dos presos, os direitos humanos e a própria democracia — é justamente o que agora o protege.
Vale lembrar que a trama golpista incluía o plano conhecido como “Punhal Verde e Amarelo”, que previa o assassinato do presidente Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Vale lembrar também que um seguidor bolsonarista tentou explodir uma bomba nas proximidades do aeroporto de Brasília. A violência nunca foi um desvio do bolsonarismo; sempre foi um método. A dor dos outros nunca importou — apenas a dele.
Agora, Bolsonaro volta a alegar fragilidade física e problemas de saúde. O antes “imbrochável” cai da cama em uma unidade da Polícia Federal. O antes “incomível” fala em alucinações decorrentes da idade e do uso de medicamentos, enquanto tenta romper a tornozeleira eletrônica com um maçarico. O antes crítico feroz dos direitos humanos agora é defendido por sua própria família sob o argumento de que o sistema prisional seria desumano.
E aqui cabe uma distinção fundamental: é possível, sim, que Jair Bolsonaro venha a cumprir pena em regime domiciliar, caso haja fundamentação médica e respaldo jurídico, especialmente em razão da idade avançada e de eventuais comorbidades. Isso não seria privilégio, mas garantia legal prevista no ordenamento jurídico brasileiro.
A ironia histórica é que essa mesma garantia foi, por anos, desqualificada, ridicularizada e atacada pela família Bolsonaro, que sempre tratou direitos de presos como “mordomias” e o sistema de garantias legais como conivência com o crime. Ainda assim, é a democracia — e não o autoritarismo que eles defendiam — que hoje assegura esse direito ao patriarca da família.
A pergunta, portanto, permanece incômoda: o sistema só é desumano quando atinge Bolsonaro? Para os outros, o inferno; para ele, a exceção? Não. Justiça não se constrói com vingança, mas com igualdade perante a lei.
Jair Bolsonaro é um preso comum. Tentou sequestrar a democracia brasileira e implantar uma ditadura. Caso tivesse sido bem-sucedido, o país estaria mergulhado no caos social, político e institucional. Mas a democracia brasileira resistiu — apesar dele.
E é justamente por isso que Bolsonaro hoje desfruta das garantias do Estado Democrático de Direito. Como qualquer outro preso, tem direito à integridade física, à proteção do Estado, à progressão de pena, à eventual prisão domiciliar se cabível e a todas as garantias do devido processo legal. Direitos que ele jamais reconheceu aos outros, mas que a democracia insiste em assegurar — inclusive a quem tentou destruí-la.
Do ponto de vista humano e moral, diferente de Jair Bolsonaro, é legítimo desejar que ele tenha saúde e equilíbrio psicológico. Mas, acima de tudo, é fundamental que sua condenação fique registrada como lição histórica: ninguém pode tentar golpear a democracia brasileira sem responder por isso.
Essas são, afinal, as voltas que a História dá.














