O MDB em Goiás já foi, por décadas, o grande guardião do Palácio das Esmeraldas. Foi sob a liderança de Iris Resende Machado que os “modebas” abriram as portas do poder estadual em 1983, inaugurando um ciclo político marcante. A sucessão veio com Henrique Santillo, em 1987, consolidando o protagonismo do partido.
A relação entre Iris e Santillo, no entanto, sofreu uma ruptura significativa, levando ao retorno de Iris ao governo em 1994. Na sequência, o bastão foi passado ao seu vice, Luiz Alberto Maguito Vilela, que governou até 1997, quando se afastou e deixou o cargo com Agenor Resende. Esse ciclo consolidou o MDB como força hegemônica em Goiás ao longo dos anos 80 e 90.
Mas a política, como se sabe, é dinâmica. Em 1998, um jovem de apenas 33 anos, Marconi Perillo, até então pouco conhecido do grande público, protagonizou uma virada histórica. Com uma campanha marcada por criatividade e determinação, derrotou Iris Resende e inaugurou um novo ciclo político no estado.
Foram cerca de duas décadas de domínio do MDB até aquele ponto. Depois disso, o partido enfrentou uma longa travessia — quase 30 anos distante do comando direto do estado. Agora, esse hiato chega ao fim com a ascensão de Daniel Vilela, herdeiro político de uma das linhagens mais tradicionais da política goiana, o vilelismo.
A volta do MDB ao poder ocorre em um contexto peculiar. Com o governador Ronaldo Caiado projetando uma candidatura à presidência da República em 2026 — repetindo o movimento que fez pela primeira vez em 1989 —, Daniel assume o protagonismo estadual com uma base política robusta, porém complexa.
Essa base é ampla, capilarizada, mas naturalmente marcada por disputas internas. O primeiro desafio de Daniel é imediato: manter essa coalizão unida em torno de seu projeto político, que passa, inevitavelmente, pela reeleição e pela consolidação de um novo ciclo de governo.
Mais do que isso, há um teste crucial de liderança. Daniel precisa construir uma identidade própria sem romper com a aliança sólida que o sustenta. O eleitor goiano já demonstrou, em diversas ocasiões, que não tolera a figura do “governante tutelado”. A percepção de que alguém ocupa o cargo, mas não exerce plenamente o poder, pode ser fatal em termos eleitorais.
Nos bastidores, outro ponto sensível se impõe: o equilíbrio entre MDBistas e caiadistas dentro da máquina pública. É natural que aliados históricos de Daniel busquem maior protagonismo, assim como é previsível que integrantes do grupo de Caiado resistam a perder espaço. Administrar essa tensão exigirá habilidade política, capacidade de diálogo e, sobretudo, senso estratégico para evitar fissuras que comprometam a governabilidade.
Ao mesmo tempo, Daniel precisa manter — e, se possível, ampliar — o ritmo administrativo herdado. A lógica é clara: demonstrar que recebeu o bastão de Caiado e segue conduzindo o estado na dianteira. Com Caiado cada vez mais envolvido em um projeto nacional, a coordenação política em Goiás passa a depender, em grande medida, da autonomia e da capacidade de articulação de seu sucessor.
Há ainda o componente geracional. Daniel representa uma renovação, ainda que inserida em um grupo político tradicional. Seu currículo — vereador, deputado estadual, deputado federal, presidente estadual do MDB, vice-governador e agora governador — demonstra experiência acumulada. Ainda assim, na política, percepção é tão importante quanto trajetória. A narrativa da falta de experiência, mesmo questionável, pode ganhar força se não for enfrentada com resultados concretos.
Por isso, o momento exige mais do que continuidade: exige afirmação. Daniel precisa provar, na prática, que reúne os atributos necessários para liderar Goiás em um novo ciclo político.
Pessoalmente, vejo com bons olhos uma mudança geracional na política goiana. A ascensão de novas lideranças, quando combinada com experiência, pode produzir avanços importantes. Mais do que torcer pelo sucesso individual de Daniel Vilela, o que se espera é um ambiente político mais qualificado: campanhas limpas, debates centrados em propostas e uma construção coletiva de soluções concretas para os desafios do estado.
O retorno do MDB ao Palácio das Esmeraldas não é apenas um fato histórico — é, sobretudo, uma oportunidade. Resta saber se ela será plenamente aproveitada.



Por Rodrigo Zani em 31/03/2026 - 15:17










