A eleição de 2026 encontra a direita goiana como majoritária, mas longe de ser uniforme. O campo que deu a Jair Bolsonaro (PL) ampla vantagem sobre Lula em Goiás em 2022 (58,71% dos votos válidos contra 41,29%) agora se distribui entre Wilder, do bolsonarismo do PL, o caiadismo, da base de Daniel Vilela, e a tentativa de Marconi Perillo (PSDB) de reconstruir espaço. A fragmentação não significa avanço automático da esquerda. Mostra uma disputa interna para definir quem traduzirá o conservadorismo local em poder estadual e palanque nacional e, que, por sua vez, acaba confundindo o eleitor.
“Não temos uma única direita”, afirma o cientista político Guilherme Carvalho, para esclarecer de início. Segundo ele, a maior parte dos parlamentares brasileiros pode ser situada à direita, sobretudo nos costumes, sem formar um bloco militante ou exclusivamente bolsonarista. “A maioria é de direita, sim, do ponto de vista dos costumes, é conservadora, mas não necessariamente é uma direita coesa e muito menos apenas uma direita bolsonarista.”
Vale lembrar que, no mapa partidário, o PL diz ocupar a faixa da direita conservadora identificada com Jair Bolsonaro e, nesta eleição, com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Novo e Missão também se apresentam à direita, com Romeu Zema e Renan Santos na corrida ao Planalto. Ronaldo Caiado, pelo PSD, e o União Brasil e PP, reunidos em federação, além de Republicanos e PRD, também trabalham no espaço da centro-direita. Em Goiás, boa parte dessas forças está associada ao projeto de Daniel, do MDB, revelando que identidade ideológica e aliança eleitoral não são sinônimos.
Guilherme Carvalho acrescenta a contradição que aparece. Embora parte da direita tente combinar liberalismo econômico e conservadorismo nos costumes, a direita brasileira, segundo ele, “é muito estatista” e “depende muito de orçamento público para transformar isso em visibilidade política”. Por isso, prefeituras, emendas, obras e programas estaduais ajudam a explicar alianças mais do que a fidelidade a rótulos. “Temos direitas disputando o eleitorado”, resume. A que costuma prevalecer seria menos nítida ideologicamente, mas eficiente na construção de projetos.
Na disputa pelo governo, Daniel busca herdar a aprovação e a estrutura política de Ronaldo Caiado. Wilder Morais busca reunir no PL o eleitor bolsonarista, enquanto Marconi (PSDB) procura recuperar uma direita de perfil administrativo, ligada à memória de seus governos e ao agronegócio. Pesquisa Quaest de agosto mostrou Daniel com 37%, Marconi com 20% e Wilder com 12%. Para Guilherme Carvalho, o apoio de Bolsonaro “é importante para virar muito voto”, mas o de Caiado “não é trivial”, sobretudo pela associação do ex-governador à segurança pública.
“Ele tem políticas implementadas que são muito afáveis às pautas da direita”, diz o cientista político sobre Caiado. Na avaliação dele, isso favorece Daniel porque uma eleição estadual mede políticas executadas e expectativas concretas mais intensamente que uma disputa nacional. “Daniel leva vantagem nessa corrida, porque o padrinho dele tem entregas para a mediana da população, que é conservadora.” Guilherme Carvalho ressalta que o núcleo fiel a Bolsonaro pode influenciar o resultado, mas considera o legado estadual mais relevante para essa escolha.
O debate do Mais Goiás, realizado na última quinta-feira, 17, reforçou essa leitura. Daniel defendeu resultados do governo na saúde; Wilder criticou filas, propôs integrar redes pública, privada e filantrópica e repetiu que pretende ser o “governador da saúde”; Marconi reivindicou obras de suas gestões; e Luis Cesar Bueno, do PT, contrapôs investimentos federais. Mesmo entre candidatos que disputam eleitores à direita, o embate saiu dos símbolos nacionais e se concentrou na capacidade de entregar serviços e reivindicar legados.
Para Guilherme Carvalho, Marconi enfrenta dificuldade adicional ao buscar esse espaço. “Ele tenta travar um discurso meio às avessas com a direita”, afirma. O ex-governador procura aproximar sua candidatura do setor produtivo, mas carrega uma trajetória anterior à hegemonia bolsonarista. Daniel não depende de se apresentar como o mais ideológico: abriga uma coalizão ampla, com MDB e siglas da centro-direita. Wilder tem a marca mais clara, porém enfrenta dissidências no próprio PL.
Um dos exemplos mais expressivos é Márcio Corrêa. Filiado ao PL, o prefeito de Anápolis declarou apoio a Daniel, adversário de Wilder. O partido reagiu, mas outros prefeitos liberais também se aproximaram do governador. Guilherme Carvalho define o movimento como “pragmatismo”. “Político não apoia quem ele não entende que vai vencer, a não ser que não tenha espaço do lado do bloco vencedor.” Segundo ele, Corrêa procura preservar acesso ao governo estadual e evitar que a oposição prejudique agendas para a administração municipal.
Essa lógica alcança a Assembleia Legislativa. A eleição das 41 cadeiras não será apenas uma contagem entre direita e esquerda, mas uma medição da força de cada corrente conservadora e da capacidade de Daniel de converter sua coligação em base parlamentar. PL, MDB, União Brasil, PP, Republicanos e PRD competem também por protagonismo no Legislativo. O resultado definirá se o governador manterá uma maioria heterogênea ou se o bolsonarismo organizará uma oposição autônoma.
Caiado amplia a divisão no plano nacional. Candidato à Presidência pelo PSD, ele critica Lula, promete anistia a Jair Bolsonaro, mas confronta Flávio. “A relação do Ronaldo Caiado com o bolsonarismo sempre foi muito dúbia”, avalia o cientista político. “Ele manda o recado de que não é bolsonarista, embora não bata diretamente no Jair; bate no Flávio.” A estratégia tende a afastá-lo do segmento mais fiel à família Bolsonaro, mas pode fazê-lo crescer, segundo o analista, “no espectro do centro político”.
À esquerda, Luis Cesar Bueno, do PT, Luciana Amorim, da UP, e Danilo Pinheiro, do PCO, disputam o governo. A divisão da direita, contudo, ainda não se converteu em abertura expressiva: na Quaest, Luis Cesar tinha 4%, enquanto Luciana e Danilo não pontuaram. Lula conserva um palanque no estado, mas enfrenta um eleitorado historicamente mais refratário ao PT. Assim, o novo mapa goiano não aponta troca de hegemonia. Mostra uma direita fragmentada, pragmática e, até mesmo, confusa, cujo vencedor dependerá da combinação entre liderança nacional, máquina estadual, alianças municipais e entrega de políticas públicas.
LEGENDA FOTO: Wilder Morais (PL), Daniel Vilela (MDB) e Marconi Perillo (PSDB) buscam, entre os conservadores, o espaço que a direita oferece em Goiás
(Fotos: Reprodução/Redes sociais)











