A mais recente pesquisa Genial/Quest sobre o cenário eleitoral de Goiás para 2026 reacendeu o debate político no estado e deu novo fôlego às articulações partidárias. Os dados, ainda que preliminares, oferecem uma visão interessante sobre o comportamento do eleitor goiano e os obstáculos que os principais pré-candidatos precisarão superar. Mais do que indicar um favorito, a sondagem revela um jogo aberto, com margem real para reviravoltas — e um eleitor exigente disposto a pesar propostas, trajetórias e alianças.
Na liderança aparece o vice-governador Daniel Vilela (MDB), com 26% das intenções de voto. Herdeiro político do maguitismo, Daniel representa a continuidade da coalizão governista liderada pelo governador Ronaldo Caiado, cuja popularidade impressiona: 88% de aprovação e uma capacidade de transferência de votos estimada em 78%, segundo a própria pesquisa.
Apesar da vantagem inicial, o grande desafio de Daniel é conquistar maior conhecimento popular e consolidar sua imagem como gestor e liderança própria. Embora tenha sólida experiência política e apoio institucional relevante, ainda é um nome pouco conhecido por parte significativa do eleitorado. Esse desconhecimento pode ser explorado pela oposição para desgastar sua imagem. Caberá a ele antecipar essa narrativa, apresentando de forma propositiva seus atributos, sua visão de futuro e o papel que pretende desempenhar na renovação da base governista. A manutenção da unidade política da base, aliás, dependerá diretamente do empenho pessoal de Caiado e da maturidade política de Daniel.
Na segunda colocação está o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), com 22%. Quatro vezes governador e atualmente presidente nacional de seu partido, Marconi traz consigo um vasto histórico de políticas públicas, programas sociais e obras estruturantes que marcaram sua gestão, com destaque para áreas como infraestrutura, educação e tecnologia. Sua experiência e capacidade de articulação política são inegáveis, e ele continua a ser uma figura de destaque no cenário goiano. No entanto, o final de seu governo foi marcado por desgastes e por uma sensação de afastamento da identidade original do PSDB, um partido que agora busca se reposicionar diante de um cenário político em transformação.
Embora as dificuldades e críticas ao seu governo ainda ressoem, é importante reconhecer que Marconi segue sendo uma liderança capaz de apresentar um projeto para o futuro, baseado em sua trajetória política e experiência administrativa. A principal tarefa de sua candidatura será, sem dúvida, superar a rejeição acumulada e reconstruir a confiança do eleitorado, não apenas como uma reminiscência política, mas como uma proposta renovada, alinhada com as demandas contemporâneas do estado. O PSDB, que tem enfrentado desafios para se reposicionar, precisa resgatar sua identidade e apresentar um discurso coerente que envolva os eleitores em um novo ciclo.
O senador Wilder Morais (PL), com 10% das intenções de voto, é frequentemente associado ao bolsonarismo. Sua eleição em 2022 — saindo de posições periféricas para uma vitória no Senado — foi impulsionada por uma aliança estratégica com Jair Bolsonaro, que ainda mantém grande influência sobre setores conservadores do eleitorado goiano. No entanto, classificá-lo como um político de perfil radical seria um equívoco. Wilder é, antes de tudo, um empresário extremamente pragmático, e sua aproximação com o bolsonarismo se deu muito mais por cálculo eleitoral do que por afinidade ideológica profunda.
Para 2026, Wilder enfrentará o desafio de manter esse apoio simbólico da base bolsonarista, ao mesmo tempo em que tenta unificar o PL goiano — partido que vive tensões internas e riscos de fragmentação. Além disso, é preciso reconhecer que o projeto da extrema direita em Goiás não tem como prioridade imediata a conquista do Palácio das Esmeraldas. O foco estratégico está na manutenção e ampliação da representação no Senado, onde a direita busca fazer frente ao Supremo Tribunal Federal.
Nesse cenário, o deputado federal Gustavo Gayer desponta como peça-chave. Tornou-se ícone nacional da extrema direita e pode ser o verdadeiro projeto prioritário do PL em Goiás: elegê-lo senador da República. Assim, a eventual candidatura de Wilder ao governo pode funcionar mais como elemento de articulação, enquanto a campanha de Gayer ganha centralidade e mobilização nas fileiras bolsonaristas do estado.
A deputada federal Adriana Accorci (PT), com 8%, é hoje o principal nome da esquerda em Goiás. Delegada de polícia e figura de ascensão no Congresso, Adriana representa uma esquerda moderna, técnica e ligada a pautas de justiça social e segurança pública. Sua fidelidade ao partido é reconhecida, mas sua maior qualidade tem sido a capacidade de diálogo com setores diversos da sociedade, o que a torna uma voz progressista respeitável.
Seu principal desafio será costurar alianças que resultem em uma frente ampla, capaz de reduzir os efeitos negativos que o PT historicamente enfrenta junto ao eleitorado conservador goiano. A esquerda, isoladamente, não possui densidade suficiente para disputar com competitividade o governo estadual. Mas, com articulação política e construção programática sólida, Adriana pode se tornar uma candidatura viável, principalmente se o cenário nacional influenciar positivamente sua imagem local.
O que a pesquisa revela, portanto, é um quadro de fragmentação política. O PL bolsonarista e o PT lulista representam projetos ideológicos antagônicos. O PSDB tenta se reinventar, e o MDB lidera a coalizão governista com apoio de Ronaldo Caiado. A oposição segue dispersa, e alianças entre os blocos são improváveis no curto prazo.
Em meio a esse cenário, a base aliada do governo estadual leva uma vantagem institucional, mas precisará demonstrar coesão e foco estratégico. A unidade desse grupo dependerá, sobretudo, da habilidade de Daniel Vilela em se firmar como liderança legítima e da disposição de Ronaldo Caiado em atuar como articulador principal de sua sucessão.
Em resumo, a eleição de 2026 em Goiás está completamente em aberto. O eleitor goiano é criterioso e tende a premiar lideranças confiáveis, com propostas concretas e posicionamentos firmes. O ciclo eleitoral exigirá mais do que carisma ou memória política — será um teste de preparo, coerência e capacidade de diálogo.
O jogo começou. E, por enquanto, ninguém tem a vitória assegurada. Goiás seguirá sendo um dos palcos mais estratégicos e imprevisíveis da política nacional.














