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Eleições sob tutela ideológica

Quando o eleitor vota no símbolo, não no candidato


Luciano Cardoso Por Luciano Cardoso em 01/05/2026 - 08:08

Nas eleições, a abstenção, votos nulos e brancos superaram debates ideológicos, refletindo o crescente orgulho do brasileiro em não votar.
As eleições deixam de ser, progressivamente, um processo de avaliação de propostas, trajetórias ou capacidade administrativa

O atual cenário eleitoral brasileiro revela um fenômeno que transcende a lógica tradicional da escolha política racional, a centralidade absoluta da identidade ideológica como fator determinante do voto. As eleições deixam de ser, progressivamente, um processo de avaliação de propostas, trajetórias ou capacidade administrativa, passando a operar como um plebiscito simbólico entre polos antagônicos.

As pesquisas mais recentes evidenciam esse deslocamento com clareza inequívoca. Levantamentos da Quaest indicam que parcela significativa do eleitorado — tanto à esquerda quanto à direita — admite votar em candidatos desconhecidos, desde que estes sejam apoiados por lideranças nacionais como Luiz Inácio Lula da Silva ou Jair Bolsonaro. Trata-se de um dado de enorme densidade analítica, eis que o voto deixa de ser orientado pelo indivíduo e passa a ser delegado à figura do “líder legitimador”.

Esse comportamento revela uma mutação estrutural do sistema político. O eleitor não escolhe mais um candidato — ele escolhe um campo ideológico. E, dentro desse campo, a identidade coletiva se sobrepõe à avaliação individual. A consequência direta é a despersonalização da política e o fortalecimento de uma lógica quase plebiscitária permanente.

Esse fenômeno se manifesta de forma ainda mais contundente em cenários como o de Minas Gerais. Dados recentes apontam que determinados candidatos vinculados ao campo da esquerda apresentam índices de rejeição superiores às suas intenções de voto, mas ainda assim permanecem competitivos. A explicação não reside em sua performance individual, mas no capital simbólico transferido por lideranças nacionais.

Em outras palavras, a rejeição ao candidato não impede sua viabilidade eleitoral quando ele é percebido como extensão de um projeto ideológico maior. O eleitor, nesse contexto, não está votando “no candidato”, mas “contra o adversário”.

Essa dinâmica revela um paradoxo relevante: quanto maior a polarização, menor a importância do candidato em si.

Se, em estados como Minas Gerais, a lógica ideológica se impõe com força determinante, Goiás apresenta um comportamento distinto — embora não completamente dissociado dessa tendência.

Historicamente identificado como um território de predominância conservadora, o estado consolidou-se como um dos principais redutos da direita e da centro-direita no país. A hegemonia desse campo político se sustenta não apenas por fatores conjunturais, mas por uma construção histórica e cultural de longo prazo.

Entretanto, essa leitura simplificada ignora um dado relevante consubstanciado na existência de uma base ideológica de esquerda resiliente no estado. Mesmo em um ambiente adverso, o chamado “lulismo” demonstrou capacidade de mobilização significativa, alcançando mais de 41% dos votos válidos nas eleições de 2022.

Esse dado revela que Goiás não é um território ideologicamente homogêneo, mas sim um espaço de disputa onde a esquerda existe — embora desarticulada do ponto de vista institucional e eleitoral.

A dificuldade da esquerda goiana não está na ausência de base social, mas na incapacidade de converter capital ideológico em competitividade eleitoral local. Trata-se de um fenômeno típico de dissociação entre “liderança nacional forte” e “estrutura política regional frágil”.

A análise da conjuntura atual exige, necessariamente, um resgate histórico. A presença da esquerda em Goiás não é recente nem episódica. Ao contrário, possui raízes profundas e marcadas por forte conflito social e político.

Movimentos como as Ligas Camponesas, nas décadas de 1950 e 1960, desempenharam papel crucial na organização da luta pela terra, enfrentando diretamente a estrutura latifundiária dominante. Posteriormente, a Guerrilha do Araguaia, nos anos 1970, representou o ápice da radicalização política, com militantes vinculados ao PCdoB engajados na luta armada contra o regime militar.

Esses episódios não apenas moldaram a identidade da esquerda no estado, mas também contribuíram para a construção de um imaginário político marcado pela repressão, resistência e marginalização.

A consequência desse processo histórico foi a consolidação de um ambiente político estruturalmente hostil à esquerda — não por ausência de ideias, mas por ruptura de continuidade institucional.

No campo da direita, Goiás apresenta outro fenômeno que merece análise, qual seja, a consolidação da liderança do governador Ronaldo Caiado.

Com índices de aprovação que ultrapassam 80%, sustentados sobretudo pela política de segurança pública e pela estabilidade administrativa, Caiado representa um caso clássico de liderança regional consolidada. Contudo, essa força não tem se traduzido, até o momento, em projeção nacional equivalente.

Esse descompasso evidencia um ponto central, posto que a política brasileira contemporânea não é apenas ideológica — ela é também altamente nacionalizada. Lideranças regionais, por mais bem avaliadas que sejam, enfrentam dificuldades para romper a lógica binária imposta pela polarização Lula versus Bolsonaro.

Assim, Caiado encontra-se em uma posição estratégica paradoxal: forte demais para ser ignorado localmente, mas ainda insuficientemente inserido na narrativa nacional para se tornar protagonista.

O que se observa, portanto, é um processo de transformação profunda do comportamento eleitoral brasileiro. A política deixa de ser mediada por programas e propostas e passa a ser estruturada por identidades ideológicas rígidas.

O eleitor não escolhe mais “quem governa melhor”, mas “quem representa melhor o seu lado”.

Essa lógica produz efeitos ambivalentes. De um lado, fortalece a coesão dos campos políticos e amplia a mobilização eleitoral. De outro lado, fragiliza o debate público, reduz a responsabilização individual dos candidatos e estimula a ascensão de figuras desprovidas de densidade política própria.

Em última análise, a democracia deixa de operar como um espaço de escolha e passa a configurar-se como um campo de reafirmação de pertencimento.

E talvez este seja o dado mais relevante das eleições atuais, pois já não se trata mais de convencer o eleitor — trata-se de ativar sua identidade.

 

Luciano Cardoso

É advogado inscrito na OAB/GO. Membro do Instituto Goiano do Direito do Trabalho. Membro e Conselheiro Fiscal da Associação Goiana da Advocacia Trabalhista - AGATRA. Membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/GO. Chefe do Departamento Jurídico da Companhia de Urbanização de Goiânia - COMURG.
E-mail: [email protected].

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