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Entre a memória de Eldorado e a guerra de narrativas: Reforma Agrária, Segurança Pública e a crise política em Goiás


Por Rodrigo Zani em 23/04/2026 - 10:27

Fabrício Rosa é preso em ato do MST em Goiás
Entre a memória de Eldorado e a guerra de narrativas: Reforma Agrária, Segurança Pública e a crise política em Goiás

A memória da tragédia de Eldorado dos Carajás permanece como uma ferida aberta na história recente do Brasil. O massacre, ocorrido em 1996, não apenas ceifou vidas de trabalhadores rurais, como também marcou profundamente a trajetória do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Até hoje, a data é lembrada com marchas, atos simbólicos e mobilizações que buscam manter viva a memória dos que morreram e, sobretudo, chamar a atenção das autoridades para a urgência da reforma agrária no país.

Falar em reforma agrária, no entanto, não deveria significar reduzir o debate a uma disputa ideológica simplista. Embora historicamente associada à esquerda e tendo no MST seu movimento mais organizado e visível, a reforma agrária é, antes de tudo, um tema de interesse nacional. Trata-se de uma pauta estruturante para o desenvolvimento econômico. Países que hoje apresentam altos níveis de desenvolvimento passaram, em algum momento de sua história, por processos institucionais de redistribuição de terras, enfrentando desigualdades históricas e ampliando sua capacidade produtiva.

O princípio básico da reforma agrária é conhecido: propriedades rurais improdutivas, ou que estejam em desacordo com a legislação, devem ser desapropriadas mediante indenização e destinadas a trabalhadores rurais aptos à produção. O resultado esperado é claro — aumento da produção de alimentos, redução de preços ao consumidor e geração de emprego e renda no campo. Trata-se, portanto, de uma política pública que deveria ser conduzida com base técnica e institucional, e não capturada por disputas ideológicas.

É nesse contexto que emerge o episódio envolvendo Fabrício Rosa e a Polícia Militar em Santa Helena de Goiás. Figura relevante da política goiana, com trajetória na segurança pública como policial rodoviário federal e ex-integrante da Polícia Militar, além de atuação como vereador em Goiânia, Fabrício representa uma liderança expressiva da esquerda local. Sua proximidade com pautas do MST e sua participação em manifestações são coerentes com sua trajetória política.

Durante uma marcha em Santa Helena, houve intervenção da Polícia Militar sob a justificativa de desobstrução da rodovia — uma atribuição legal da corporação, independentemente do mérito da manifestação. O ponto de inflexão, contudo, não foi a ação policial em si, mas a reação subsequente. Ao registrar a abordagem em vídeo e fazer acusações que extrapolavam o caso concreto, atingindo a instituição como um todo, Fabrício acabou ampliando o conflito para além do episódio específico.

A Polícia Militar, como instituição centenária, é composta majoritariamente por profissionais que exercem suas funções em condições difíceis e, muitas vezes, arriscando a própria vida. Generalizações tendem a fragilizar o debate e obscurecer a análise de eventuais abusos individuais que, se ocorreram, devem ser apurados com rigor.

Por outro lado, a reação de setores da sociedade e de agentes privados também levanta preocupações. A manifestação pública de um frigorífico de Goiânia, oferecendo recompensas simbólicas a policiais envolvidos na ocorrência, insere um elemento perigoso no debate público. Ainda que motivada por alinhamentos ideológicos ou estratégias de mercado, tal atitude pode contribuir para acirrar tensões e, inadvertidamente, estimular a escalada de hostilidades políticas.

O episódio evidencia um problema mais amplo: a crescente deterioração do debate público, substituído por disputas de narrativas, polarização e “lacrações” nas redes sociais. O que deveria ser uma discussão qualificada sobre reforma agrária, segurança pública e direitos de manifestação acabou reduzido a um embate ruidoso entre grupos políticos, instituições e interesses diversos.

Diante desse cenário, o caminho mais prudente é o da institucionalidade. É fundamental que os fatos sejam apurados com base no devido processo legal, com investigação técnica, imparcial e transparente. Eventuais excessos — de qualquer lado — devem ser responsabilizados na forma da lei, preservando-se tanto os direitos individuais quanto a credibilidade das instituições.

A sociedade brasileira não ganha quando debates estruturais são capturados por disputas superficiais. A reforma agrária continua sendo um tema central para o país, e sua discussão precisa ser resgatada em um nível mais elevado, distante da lógica imediatista das redes sociais e mais próxima de soluções concretas para o desenvolvimento nacional.

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