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Flávio Bolsonaro e os limites de um projeto político sem autonomia


Por Rodrigo Zani em 02/04/2026 - 10:41

Flávio Bolsonaro até poucos anos atrás era uma figura absolutamente irrelevante no cenário político nacional. Hoje Senador da República, ele não possui qualquer registro consistente de militância política orgânica ou liderança expressiva antes da ascensão de seu pai, Jair Bolsonaro, à Presidência da República. Sua trajetória é indissociável do capital político herdado, e não construído.
Um dos episódios mais emblemáticos dessa tentativa de projeção foi sua candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro, claramente inserida em uma estratégia familiar para expandir o alcance do sobrenome “Bolsonaro”. Naquela eleição, marcada por um episódio constrangedor durante um debate televisionado — quando passou mal e precisou ser retirado às pressas — Flávio terminou apenas em quarto lugar, com cerca de 14% dos votos. O segundo turno foi disputado por Marcelo Freixo e Marcelo Crivella, este último saindo vitorioso.

É impossível analisar a trajetória de Flávio sem considerar o ambiente político do Rio de Janeiro, berço de sua carreira e de sua família. Trata-se de um dos contextos mais deteriorados do país, com sucessivos escândalos envolvendo ex-governadores presos, como Sérgio Cabral, e investigações que atingem figuras como Cláudio Castro. Soma-se a isso o caso brutal do assassinato de Marielle Franco, que revelou conexões profundas entre crime organizado, milícias e setores da política local — inclusive envolvendo membros da família Família Brasão. O Rio, vitrine internacional do Brasil, vive a contradição de sua beleza com a infiltração estrutural do crime nas instituições e até em setores econômicos.

Flávio Bolsonaro ascendeu ao Senado à sombra direta do pai. Nunca apresentou liderança própria consolidada nem um projeto político autônomo. Sua atuação parlamentar é marcada pela ausência de realizações de grande impacto nacional. Pelo contrário, sua trajetória foi atingida por denúncias no escândalo das “rachadinhas”, envolvendo Fabrício Queiroz, o que contribuiu para desgastar a imagem de combate à corrupção que Jair Bolsonaro buscava sustentar no auge da Operação Lava Jato.

Essa combinação de fragilidade política, dependência familiar, passivos reputacionais e ausência de propostas estruturais para o país levanta dúvidas sérias sobre qualquer pretensão presidencial. Flávio Bolsonaro parece mais alinhado a um projeto de proteção pessoal e familiar — especialmente no que diz respeito à eventual anistia de seu pai — do que a uma agenda de governo para o Brasil. Isso, evidentemente, não atende ao interesse nacional.

A própria construção de sua candidatura expõe esse problema. Houve sinais claros de que setores da direita e do mercado financeiro preferiam alternativas como Tarcísio de Freitas, ex-ministro e aliado fiel de Jair Bolsonaro, com perfil técnico e maior capacidade de articulação. No entanto, a imposição familiar prevaleceu, esvaziando outras opções e centralizando novamente o projeto político no clã Bolsonaro.

Flávio não é Jair Bolsonaro. Mesmo entre os eleitores mais ideológicos da direita, não se encontram nele os mesmos elementos de mobilização que marcaram o pai. Falta carisma, falta densidade política, falta trajetória própria. E, caso viesse a vencer — cenário que muitos rejeitam — a pergunta inevitável seria: quem governaria de fato? O próprio Flávio ou forças externas, possivelmente orientadas por interesses familiares? E de onde viria esse comando?

No fim das contas, a candidatura de Flávio Bolsonaro não representa um avanço para a direita brasileira, tampouco uma solução para os desafios do país. Trata-se, antes, da continuidade de um projeto personalista, que confunde interesses públicos com dinâmicas familiares — algo que o Brasil já demonstrou, reiteradas vezes, não poder mais sustentar.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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