A discussão sobre a qualidade da formação de professores no Brasil ganhou novo capítulo nesta semana. O Conselho Nacional de Educação (CNE) adiou a votação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais para cursos de licenciatura após pressão de representantes do ensino privado. O texto, considerado estratégico por especialistas e entidades educacionais, seguirá agora para consulta pública.
A proposta atualiza as regras da formação inicial docente após a publicação do Decreto nº 12.456/2025, que proibiu cursos de licenciatura totalmente a distância. A medida redefiniu os parâmetros do ensino semipresencial e abriu uma disputa entre defensores de maior flexibilização dos cursos e setores que defendem mais atividades presenciais na formação dos futuros professores.
Em nota técnica, a organização Todos Pela Educação classificou a proposta como um avanço importante para a educação brasileira e defendeu sua aprovação imediata. O principal ponto destacado pela entidade é a manutenção da exigência de que pelo menos 50% da carga horária das licenciaturas seja realizada presencialmente.
Segundo o estudo, a formação docente exige experiências práticas, convivência no ambiente escolar e trocas pedagógicas constantes entre licenciandos, professores universitários e redes de ensino. Para a organização, essas vivências não podem ser substituídas integralmente por plataformas digitais.
A proposta em análise no CNE também estabelece que parte da carga horária a distância ocorra por meio de atividades síncronas mediadas, com interação simultânea entre estudantes e professores. O modelo tenta evitar que os cursos semipresenciais funcionem apenas com conteúdos gravados e atividades automatizadas.
Formação prática e estágio supervisionado entram no centro do debate
Outro eixo considerado fundamental pelas entidades educacionais é o fortalecimento do estágio supervisionado. A nova minuta amplia as regras para acompanhamento das atividades práticas e define com mais clareza o papel das redes públicas de ensino como parceiras na formação inicial dos docentes.
O texto prevê convênios específicos entre instituições de ensino superior e escolas da educação básica, além de estabelecer critérios para seleção e acompanhamento dos professores supervisores.
A proposta também assegura carga horária mínima para atividades voltadas diretamente à prática pedagógica. Segundo o Todos Pela Educação, o objetivo é aproximar a formação universitária da realidade encontrada nas salas de aula.
A entidade argumenta que professores bem preparados representam condição essencial para melhorar os índices de aprendizagem e reduzir desigualdades educacionais no país.
O adiamento da votação no CNE, no entanto, ampliou a preocupação de especialistas sobre possíveis atrasos na implementação das novas regras. O tema expõe uma disputa crescente entre modelos de formação docente no Brasil, especialmente diante da expansão acelerada do ensino superior a distância nos últimos anos.
Para pesquisadores e representantes da educação pública, o debate envolve não apenas a modalidade de ensino, mas também a valorização da carreira docente e os impactos diretos na qualidade da educação básica.
O que está em debate nas novas diretrizes para licenciaturas
Presencialidade mínima
A proposta mantém a exigência de que pelo menos 50% da carga horária dos cursos de licenciatura seja presencial. O setor educacional defende que a prática docente exige vivência direta no ambiente escolar.
Limites para o ensino a distância
O Decreto nº 12.456/2025 proibiu licenciaturas 100% EAD e criou a modalidade semipresencial. O tema abriu disputa entre entidades da educação e representantes do ensino privado.
Aulas síncronas obrigatórias
O texto prevê que parte da carga horária remota aconteça em atividades síncronas mediadas, com interação simultânea entre alunos e professores.
Fortalecimento do estágio supervisionado
A proposta amplia regras para acompanhamento das atividades práticas e reforça a presença dos estudantes nas escolas de educação básica.
Participação das redes públicas
Escolas e redes de ensino passam a ter papel mais definido na formação inicial dos professores, com convênios e acompanhamento institucional.
Qualidade da formação docente
Entidades como o Todos Pela Educação defendem que as mudanças aproximam os cursos da realidade das salas de aula e podem melhorar a aprendizagem dos estudantes.
Congresso debate nova regra para reajuste do piso e financiamento da educação
A comissão mista do Congresso Nacional debateu nesta quinta-feira a Medida Provisória 1.334/2026, que altera os critérios de reajuste do piso salarial nacional dos professores da educação básica pública. A proposta abriu divergências entre representantes da educação, gestores públicos e entidades municipalistas sobre financiamento, valorização profissional e impacto fiscal nos municípios.
A audiência foi conduzida pela senadora Teresa Leitão, vice-presidente da comissão, que defendeu a medida como alternativa para reduzir disputas judiciais relacionadas ao piso do magistério.
Segundo a parlamentar, a MP busca criar um modelo de atualização salarial mais estável e viável para estados e municípios.
Representando o Ministério da Educação, Gregório Durlo Grisa afirmou que a proposta pretende garantir maior segurança jurídica e estabelecer uma fórmula permanente para correção do piso.
O novo modelo prevê reajuste com base na inflação medida pelo INPC, somada a ganho real calculado a partir da média de crescimento das receitas do Fundeb nos últimos cinco anos.
A secretária de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Guelda Cristina de Oliveira Andrade, avaliou que a proposta cria mecanismos de proteção tanto para os profissionais quanto para os cofres públicos. Segundo ela, a MP impede reajustes abaixo da inflação e também limita aumentos acima do crescimento das receitas do Fundeb.
O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Luiz Miguel Martins Garcia, defendeu a proposta sob o argumento de que municípios precisam de previsibilidade orçamentária para cumprir os reajustes salariais.
Já representantes de prefeitos e municípios demonstraram preocupação com os impactos fiscais da medida. O presidente da Confederação Nacional de Municípios, Paulo Ziulkoski, criticou a ausência de novas fontes de financiamento para custear os aumentos do piso.
O prefeito de Muriaé, em Minas Gerais, Marcos Guarino, afirmou que muitas cidades já enfrentam dificuldades para manter as contas da educação equilibradas e cobrou maior participação financeira da União.
Durante a audiência, a deputada estadual Beatriz Cerqueira também defendeu a valorização dos profissionais da educação e criticou o uso de recursos públicos em contratos privados ligados ao setor educacional.
A comissão mista deve votar o relatório da MP nos próximos dias. Caso não seja aprovada pelo Congresso Nacional até 1º de junho, a medida provisória perderá a validade.
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