Dados do Censo Escolar 2024, divulgados em 2025, apontam que, no Brasil, 5,9% dos estudantes do ensino médio abandonaram a escola, a evasão escolar. Trata-se da etapa com maior fragilidade dentro da educação básica. Em Goiás, as taxas são menores que a média nacional, mas ainda preocupam gestores, educadores e especialistas.
A trajetória goiana indica que políticas de retenção deram resultados, mas também mostram que o problema é persistente e exige ações direcionadas. Enquanto anos iniciais e finais do ensino fundamental registram abandono mais baixo, o ensino médio se mantém como principal ponto de atenção.
No cenário nacional, a PNAD Contínua reforça a gravidade da situação. Em 2024, cerca de 8,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos não haviam concluído o ensino médio. O dado revela que a evasão escolar vai além da sala de aula e tem raízes profundas na realidade social. Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, a falta de interesse e a distância das escolas.
Essa leitura ajuda a compreender que a evasão não é apenas educacional, mas socioeconômica. O abandono escolar está mais presente entre jovens pobres, pretos e pardos, evidenciando como desigualdade social e desigualdade racial se encontram no cotidiano escolar.
Goiás: políticas e avanços
Em Goiás, a Secretaria de Educação (Seduce) destaca a queda das taxas desde 2018. Programas como o Bolsa Estudo, voltado a alunos de baixa renda, e a busca ativa, que envolve escolas e conselhos tutelares, têm contribuído para reduzir a evasão. Em 2025, o governo ampliou o Bolsa Estudo para mais de 1,1 mil estudantes de agrocolégios, Escolas Família Agrícola e Apaes.
Essas medidas buscam aliviar a pressão financeira sobre famílias vulneráveis. Em muitos casos, adolescentes deixam os estudos para ajudar na renda doméstica. O auxílio direto funciona como estímulo para manter o jovem matriculado, ainda que não resolva todos os entraves.
Desigualdades internas
Estudos acadêmicos e levantamentos por clusters [agrupamento] revelam que a evasão em Goiás não é homogênea. Municípios apresentam taxas distintas, com concentração do problema no 9.º ano do ensino fundamental e no 1.º e 2.º anos do ensino médio. Ou seja, o avanço estadual existe, mas há bolsões de vulnerabilidade que precisam de atenção específica.
Além disso, o desafio se mostra mais crítico em áreas periféricas e rurais, onde a distância física da escola é uma barreira recorrente. Nessas regiões, transporte escolar e oferta de turmas regulares ainda são obstáculos para a permanência.
O peso da distorção idade-série
Em Goiás, o Indicador de Distorção Idade-Série (INEP, 2024) aponta que 6,1% das crianças dos anos iniciais do ensino fundamental apresentam atraso escolar de dois anos ou mais. A evolução dos índices mostra um quadro de agravamento ao longo da trajetória: 1,7% no 1º ano, 3,2% no 2º ano, 7,1% no 3º ano, 8,9% no 4º ano e o ponto mais crítico no 5º ano, com 9,6%. Na prática, significa que, a cada 100 estudantes, aproximadamente seis não conseguem acompanhar a série adequada à idade.
No ensino médio, a situação se intensifica. O mesmo indicador revela que 12,1% dos jovens estão em atraso de dois anos ou mais — ou seja, cerca de 12 em cada 100. O gargalo aparece sobretudo no 1º ano, com 14,3%, caindo para 11,9% no 2º ano e 9,1% no 3º ano. Apesar da redução, os números ainda expõem um desafio expressivo para garantir permanência e avanço escolar nessa etapa crucial.
Pesquisas acadêmicas e levantamentos regionais mostram que a evasão em Goiás não é homogênea: os índices se concentram especialmente no 9º ano do fundamental e nos 1º e 2º anos do ensino médio. Há avanços estaduais, mas persistem bolsões de vulnerabilidade que exigem atenção específica. O problema é ainda mais crítico em áreas periféricas e rurais, onde fatores como a distância física até a escola, a carência de transporte escolar e a oferta limitada de turmas regulares dificultam a permanência dos estudantes.
Programas do MEC contra a evasão
No plano nacional, o Ministério da Educação (MEC) tem lançado e fortalecido programas específicos para enfrentar a evasão escolar. Entre os mais recentes está o Pé-de-Meia, uma poupança de incentivo financeiro destinada a estudantes do ensino médio público de baixa renda.
O programa prevê R$ 200 por matrícula no início do ano letivo, R$ 200 mensais pela frequência, R$ 1.000 por conclusão de cada ano do ensino médio e um bônus de R$ 200 pela participação no Enem. A medida tem como público-alvo jovens de 14 a 24 anos matriculados em escolas públicas e inscritos no Cadastro Único (CadÚnico).
Associada ao Pé-de-Meia está a Estratégia Pedagógica Rumo Certo, que busca prevenir o abandono com foco em práticas pedagógicas de engajamento no ensino médio.
Recorte social e racial
Os dados nacionais e estaduais revelam que jovens pretos e pardos enfrentam maiores índices de evasão. A vulnerabilidade social, associada a desigualdades raciais históricas, torna esse público mais suscetível ao abandono. Em Goiás, o recorte racial segue a tendência nacional, reforçando que políticas universais precisam ser combinadas a estratégias específicas de equidade.
Censo Escolar x PNAD
A comparação entre o Censo Escolar e a PNAD ajuda a dimensionar o problema. O Censo, com base nos registros das escolas, mostra taxas de aprovação, reprovação e abandono. Já a PNAD, ao investigar os domicílios, identifica os motivos que levam os jovens a deixar os estudos. Essa complementaridade indica que a evasão não pode ser combatida apenas dentro das escolas. Políticas sociais mais amplas — transporte, alimentação, emprego, saúde — são fundamentais para criar condições de permanência.
O futuro da permanência escolar
A experiência goiana mostra que é possível reduzir a evasão, mas evidencia também que conquistas ainda são frágeis. As disparidades regionais, o peso da desigualdade social e as limitações estruturais mantêm a evasão como uma ameaça constante.
No Brasil, a meta de universalizar a conclusão do ensino médio segue distante. A cada ano, milhares de jovens deixam a escola sem completar a etapa. Isso impacta não apenas a educação, mas o futuro do mercado de trabalho, a renda das famílias e o desenvolvimento do país.
A evasão escolar em Goiás e no Brasil é mais que um problema pedagógico: é um reflexo das desigualdades sociais. O Censo Escolar e a PNAD, quando analisados em conjunto, revelam a dimensão do desafio. Goiás conseguiu avanços, mas o dado de 5,9% de abandono no ensino médio no país é um alerta de que políticas precisam ser ampliadas e direcionadas.
Garantir que o jovem conclua o ensino médio exige mais que vagas abertas: demanda renda, acolhimento, transporte, flexibilidade e perspectiva de futuro. Sem isso, a evasão continuará sendo um obstáculo estrutural para a educação brasileira.















