Nos últimos anos, Jair Bolsonaro foi o grande protagonista de uma transformação profunda na direita brasileira — e, em Goiás, esse movimento adquiriu contornos particularmente expressivos. O ex-presidente não apenas consolidou um eleitorado conservador no estado, como também construiu um curral eleitoral robusto, com visitas frequentes, atenção dedicada à capital Goiânia e apoio explícito a figuras políticas locais. Por isso, não é exagero dizer que Bolsonaro foi, sem dúvida, a força motriz da nova direita goiana.
Nomes como Gustavo Gayer, Wilder Morais e Fred Rodrigues surgiram como representantes desse movimento ao se alinharem incondicionalmente à figura de Bolsonaro. O capital político bolsonarista era, até muito recentemente, a chave para obter votos, visibilidade e mandato. No entanto, o cenário de 2025 é bem diferente, e a grande pergunta é: a extrema direita em Goiás continuará a radicalizar seu discurso ou buscará um tom mais ameno, mais próximo do centro político? Terá ela condições reais de apresentar um plano de governo ancorado nas necessidades do povo goiano, ou seguirá, sem rumo, fomentando um debate irrelevante para Goiás e para o Brasil, focado na impunidade de Jair Bolsonaro?
Pesquisas recentes revelam uma virada significativa na percepção pública sobre o ex-presidente. Cerca de 54% dos brasileiros acreditam que Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado, e 61% o rejeitam como opção para 2026. Além disso, ele foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e enfrenta uma série de condenações e investigações no STF, o que o retira, ao menos formalmente, do jogo presidencial. Diante disso, a proposta de anistia ventilada por parlamentares bolsonaristas parece fadada ao fracasso. A recente onda de manifestações populares, puxada por artistas, intelectuais e representantes do campo progressista, demonstrou com clareza o poder de mobilização da democracia. Milhares de brasileiros saíram às ruas para afirmar que não há espaço para qualquer forma de impunidade para Bolsonaro. O recado foi direto: a democracia está viva, e tem voz. Isso acendeu um sinal de alerta para a extrema direita, que, até então, se via como a “dona das ruas”, mas agora enfrenta uma sociedade civil disposta a não aceitar retrocessos.
Com isso, as figuras do centro e da direita já buscam alternativas. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, se coloca como uma figura estratégica, tentando equilibrar o legado bolsonarista e a necessidade de se apresentar como nome viável para um eleitorado mais amplo. Mas, em Goiás, a situação é ainda mais delicada.
Com índices de aprovação altíssimos — 88%, segundo pesquisas recentes — o governador Ronaldo Caiado se destaca como o principal nome da direita no estado. Apesar de manter uma distância política do bolsonarismo mais radical, Caiado representa uma direita mais tradicional e palatável ao centro político. Seu nome circula para a disputa presidencial, embora sua base de apoio esteja claramente ancorada em Goiás. A grande questão que se coloca é: os bolsonaristas goianos irão caminhar com Caiado, ou tentarão um projeto próprio? Até o momento, ainda não há clareza. O PL local parece dividido entre a fidelidade ideológica ao bolsonarismo e a possibilidade de uma aproximação com o PSDB de Marconi Perillo — algo que já começa a ser discutido nos bastidores.
A pergunta que persiste é: será que a extrema direita goiana tem condições de sobreviver sem a figura de Bolsonaro? Há brilho próprio em nomes como Gustavo Gayer, Wilder Morais e Fred Rodrigues, capazes de sustentar o eleitorado conservador do estado? Wilder, por exemplo, tem mostrado grande habilidade política ao transitar bem com setores fora da bolha bolsonarista, buscando um pragmatismo que, até certo ponto, o distanciaria de uma radicalização total. Ele já demonstrou uma postura mais moderada em algumas de suas decisões políticas, o que pode ser um ponto positivo para ele em um cenário de crescente rejeição ao extremismo. Mas será que essa habilidade política será suficiente para manter o apoio de uma base bolsonarista que tem sido definida por seu apego ao confronto ideológico?
Além disso, a falta de alianças do bolsonarismo foi um fator crucial para a derrota nas eleições municipais em Goiás, onde a falta de diálogo com outros setores da sociedade impediu a construção de uma coalizão capaz de enfrentar forças mais moderadas e centristas. Apesar de forte, o bolsonarismo isolado não tem capacidade de atingir a maioria. O que resta para esses líderes da extrema direita goiana? Continuar com um discurso radical, que mantém a base fiel, mas afasta alianças essenciais para o crescimento político? Ou buscar uma nova estratégia, mais voltada ao centro, para ganhar relevância?
E onde entra o PL nesse cenário? O presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, está em uma posição ambígua. Ao mesmo tempo em que flerta com a extrema direita, busca garantir a sobrevivência do partido, alinhando-se também a figuras mais centradas. O PL claramente tem conversas em andamento tanto com o grupo de Caiado quanto com o grupo de Marconi Perillo. A dúvida que fica é: para onde o PL irá? Se aproximar do centro, buscando ampliar suas alianças e garantir um caminho eleitoral mais amplo, ou continuar apostando no bolsonarismo como sua principal bandeira?
Seja qual for o caminho escolhido, o PL e a extrema direita goiana enfrentam um dilema importante: é possível construir um projeto político sólido sem a figura de Bolsonaro, ou o partido seguirá flertando com o radicalismo, correndo o risco de perder a capacidade de dialogar com a maioria do eleitorado?
Além disso, é impossível não notar que a extrema direita parece carecer de um verdadeiro projeto de nação. Em vez de se dedicar a soluções concretas para os problemas do país, muitos de seus líderes alimentam a discórdia e sustentam teorias da conspiração, frequentemente sem qualquer compromisso com os fatos ou com a estabilidade democrática. No caso específico de Gustavo Gayer, por exemplo, até o momento não vi qualquer projeto legislativo relevante apresentado por ele. Se o deputado usasse a influência que conquistou para discutir propostas concretas para o Brasil — o país ao qual jurou lealdade — certamente estaria fazendo um bem maior à população que o elegeu.
Entendo a estratégia de se vincular a Bolsonaro como um cálculo eleitoral, mas isso não me impede de afirmar que, pessoalmente, nunca me permiti sequer aproximar-me de um movimento tão extremo que flerta com o autoritarismo. No entanto, é inegável a importância desses líderes no mapa eleitoral, e é fundamental que eles se dêem conta da responsabilidade que carregam.
Espero, sinceramente, que haja maior moderação e foco por parte desses líderes da extrema direita, especialmente no sentido da pacificação nacional. No entanto, é preciso também entender que essa pacificação só será possível com a devida responsabilização daqueles que atentaram — e continuam atentando — contra a democracia.
A ausência de Bolsonaro — seja como candidato, seja como força mobilizadora — cria um vácuo que a direita goiana ainda não sabe exatamente como preencher. A estratégia, por ora, parece ser a tentativa de manter viva a mística bolsonarista, buscando preservar o “espírito do mito”, mesmo diante da ausência física e legal do líder.
A transição é, portanto, inevitável. Se nada de extraordinário ocorrer, seja no campo jurídico ou no político, Bolsonaro será apenas uma sombra nas eleições de 2026. Com isso, a extrema direita goiana precisará se reinventar ou corre o risco de ser varrida pelo mesmo vento que levou outros líderes populistas ao ostracismo.
A continuidade do discurso radical pode até manter uma base fiel, mas dificilmente será suficiente para garantir vitórias eleitorais relevantes no médio prazo. A tendência é que os ventos políticos soprem para o centro, e os líderes que souberem ajustar suas velas sairão na frente.
Goiás já provou ser um território fértil para o conservadorismo, mas é chegada a hora de saber se esse campo florescerá apenas à sombra de Bolsonaro, ou se será capaz de germinar sob novas lideranças, mais moderadas, democráticas e com um projeto político próprio.
Plano Diretor de Drenagem de Goiânia atrasa de novo e solução para alagamentos fica para 2026














