O Governo do Brasil lançou, no dia 11 de maio, o Painel de Monitoramento de Agrotóxicos nos Recursos Hídricos. A ferramenta inédita foi desenvolvida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) com base em metodologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Meio Ambiente.
A plataforma consolida dados de 213 amostras coletadas em 63 pontos de monitoramento distribuídos por todos os estados brasileiros. Desde 2024, foram realizadas mais de 10,4 mil análises para identificar a presença de agrotóxicos na água e na vida aquática.
O objetivo do painel é ampliar a transparência e o acesso à informação sobre o tema. Além disso, a ferramenta busca qualificar o debate público e apoiar a tomada de decisão por parte de gestores, pesquisadores e da sociedade.
Dados iniciais mostram 49 tipos de agrotóxicos monitorados
Os dados iniciais do painel revelaram a presença de 49 tipos de agrotóxicos nos cursos d’água monitorados. A frequência geral de detecção foi de 7,2%, índice considerado baixo diante do universo de análises realizadas.
Entre as substâncias com maior frequência de detecção estão herbicidas como S-metolacloro, ametrina, tebuthiuron e atrazina. Esses produtos são amplamente utilizados no manejo de plantas daninhas em culturas como milho, cana-de-açúcar e soja.
O S-metolacloro foi o agrotóxico mais detectado, tendo sido observado em 69,48% das amostras positivas. Entre os inseticidas, o acefato apresentou maior frequência de ocorrência, enquanto a azoxistrobina se destacou entre os fungicidas.
As análises indicam diferenças relevantes entre os usos da terra. As áreas associadas à cultura de cítricos apresentaram maior frequência de detecção, enquanto as regiões de pastagem registraram os menores índices.
Pronara: programa de redução de agrotóxicos
O painel é uma das entregas prioritárias do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara). O programa foi instituído pelo Decreto nº 12.538/2025, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em junho de 2025.
O Pronara estabelece, entre seus objetivos, a redução gradual e contínua do uso de agrotóxicos, especialmente os altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos para a saúde humana.
“Após mais de uma década de mobilização de pesquisadores, movimentos sociais, órgãos e setores comprometidos com a transição ecológica da agricultura, o Pronara recoloca o Brasil em uma trajetória estratégica para redução de risco e fortalecimento da agroecologia”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, durante o lançamento.
Conciliação entre produção agrícola e sustentabilidade
Durante o lançamento da plataforma, Capobianco destacou que os agrotóxicos representam um dos grandes desafios ambientais e sanitários do mundo. Os impactos atingem organismos aquáticos, polinizadores, o solo e a saúde humana, especialmente quando há uso inadequado ou excesso de aplicação.
Durante o lançamento da plataforma, Capobianco destacou que os agrotóxicos representam um dos grandes desafios ambientais e sanitários do mundo. Os impactos atingem organismos aquáticos, polinizadores, o solo e a saúde humana, especialmente quando há uso inadequado ou excesso de aplicação.
A ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, também participou do evento. Segundo ela, o painel já permite identificar onde estão as culturas e os locais com maior nível de contaminação por agrotóxicos.
“Esse conjunto de informações, agora disponíveis, oferece um mapa confiável para que a gente possa dar a dimensão que o problema tem”, disse Machiaveli.
Transparência e controle social
A secretária nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas da Secretaria-Geral da Presidência da República, Kelli Mafort, ressaltou a importância do controle social sobre as informações.
“O painel é fundamental para que a gente possa avançar no controle social das informações sobre o uso de agrotóxicos e os impactos para o meio ambiente e a saúde humana. Não conseguimos transformar uma realidade se não temos uma base científica confiável sobre o que acontece”, pontuou.
O diretor-presidente interino da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Leonardo Goes, salientou a importância da pesquisa ter sido realizada nos recursos hídricos. “A qualidade da água é um dos pilares da segurança hídrica. Monitorar a presença de contaminantes em corpos hídricos é fundamental, não apenas para a preservação ambiental, mas também para proteger o abastecimento humano, a produção de alimentos e o desenvolvimento de atividades econômicas estratégicas”, afirmou.
Participação do Ministério Público Federal
O Ministério Público Federal (MPF) participou da cerimônia de lançamento. A coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF, Luiza Frischeisen, ressaltou a relevância de mecanismos públicos de monitoramento ambiental .
“Nós sabemos que o Brasil é um país que usa muitos agrotóxicos, mas precisamos produzir alimentos sem prejudicar a saúde dos trabalhadores e das populações”, afirmou .
Frischeisen destacou ainda que, para quem trabalha com o tema no dia a dia, ter o conjunto de informações de forma fácil, com dados científicos, é muito importante.oe “Parte do trabalho do MPF é atuar para que haja implementação de mecanismos de transparência como esses”, concluiu .
Panorama do uso de agrotóxicos no Brasil
Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apontam que, apenas em 2023, foram comercializadas 755,4 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos no país. Em 2024, o glifosato permaneceu como o produto mais vendido no Brasil, com 231,9 mil toneladas comercializadas .
Estudo da Universidade de São Paulo (USP) identificou que a combinação de agrotóxicos e vinhaça, resíduo necessário na produção de etanol utilizado como fertilizante que podem provocar desequilíbrios ecológicos em rios, lagos e lagoas. A combinação afeta a biodiversidade aquática, reduz os níveis de oxigênio na água e compromete funções essenciais para o equilíbrio desses ambientes .
Próximos passos e ampliação do monitoramento
Capobianco afirmou que a ferramenta está em fase inicial de consolidação. Atualmente, 49 tipos de agrotóxicos são monitorados, mas esse número deve crescer progressivamente à medida que a cobertura territorial for ampliada .
“O painel representa um primeiro esforço estrutural do governo federal para entregar e dar transparência aos dados nacionais de monitoramento ambiental de agrotóxicos. Sua importância crescerá progressivamente à medida que ampliarmos a cobertura territorial”, disse o ministro .
Nos próximos anos, o Pronara prevê a ampliação das redes de monitoramento ambiental e laboratorial, o incentivo ao desenvolvimento e uso de bioinsumos e alternativas de menor risco, além do aperfeiçoamento contínuo dos instrumentos regulatórios, de fiscalização e avaliação de risco .
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