Enquanto as big techs avançam sobre o campo ao lado do agronegócio, movimentos populares brasileiros decidiram disputar também o futuro da inteligência artificial. Desenvolvida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), pela Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e pela Associação Internacional para a Cooperação Popular (Baobab), a Inteligência Artificial da Reforma Agrária e Agroecologia (IARAA) foi lançada neste sábado (16).
A plataforma é voltada à agroecologia, à reforma agrária e à soberania tecnológica. A ferramenta reúne conhecimento camponês, modelos chineses de código aberto e assistência técnica popular para construir respostas a partir dos territórios.
Disputa pelo futuro da IA
A iniciativa nasce em um momento em que a inteligência artificial se consolida como novo campo de concentração econômica e disputa política. Relatório da Oxfam divulgado em janeiro deste ano aponta que três bilionários concentram quase 90% do mercado global de chatbots de IA.
No campo, organizações populares veem esse processo avançar em associação com empresas do agronegócio. Isso ocorre por meio de plataformas digitais, sensores, sistemas automatizados e coleta de dados sobre produção, solo, clima e manejo.
“Tem uma grande junção hoje das big techs com as empresas do agronegócio para atualizar esse modelo que vem desde a Revolução Verde”, avalia Natália Lobo, militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e integrante da Sempreviva Organização Feminista (SOF). Segundo ela, esse modelo está ligado ao uso de agrotóxicos e transgênicos, à expulsão dos povos do campo e à concentração de terra.
Como funciona a IARAA
Para as organizações envolvidas no projeto, a IARAA responde a essa disputa ao organizar conhecimentos produzidos por agricultores, universidades, institutos de pesquisa e movimentos populares. A plataforma foi pensada para responder perguntas sobre manejo de solo, controle agroecológico de pragas, restauração ecológica, organização produtiva e formação política.
A ferramenta não substitui o trabalho de assistência técnica ou os saberes construídos nos territórios. “A IARAA nasce dessa demanda que os movimentos do campo já tinham, da necessidade de tecnologias desenvolvidas para a agricultura familiar e para a agroecologia”, explica Carolina Cruz, integrante da Frente de Tecnologia da Informação do MST.
“Hoje, o que a gente tem para o campo é muito na área do agro, focado em monocultura, agricultura em larga escala e aplicação de agrotóxicos”, complementa.
Parceria com a China
A IARAA começou a ser desenhada em julho de 2025, durante um curso de inteligência artificial para movimentos populares realizado em Xangai, na China. A experiência reuniu militantes e especialistas de diferentes países do Sul Global para discutir o avanço da IA e as possibilidades de desenvolvimento de tecnologias voltadas às necessidades populares.
“A China está construindo um modelo diferente da junção entre produção de alimentos e tecnologia”, diz Natália. Segundo ela, a experiência chinesa mostrou aos movimentos do campo a possibilidade de usar tecnologias digitais para fortalecer a permanência dos povos nos territórios e apoiar a produção de alimentos.
A parceria internacional articulada pela Baobab levou a IARAA a adotar modelos chineses de linguagem de código aberto, como o MiniMax M2.1 e o GLM-4.7. A plataforma também utiliza sistemas desenvolvidos em software livre para organizar e consultar sua base de conhecimentos agroecológicos.
Soberania sobre os dados
Segundo as organizações envolvidas no projeto, a disputa tecnológica passa também pelo controle sobre os dados produzidos nos territórios rurais. Hoje, boa parte dessas informações é armazenada e processada em infraestruturas controladas por empresas privadas, como Microsoft e Amazon.
No manifesto de lançamento da plataforma, os movimentos populares afirmam que os dados se tornaram um “quinto fator de produção”, ao lado da terra, do trabalho, do capital e da tecnologia. O documento compara a disputa atual pelas infraestruturas digitais ao processo de cercamento de terras ocorrido durante a Revolução Industrial.
“No modelo estadunidense das big techs, há uma grande apropriação dos dados das pessoas para a acumulação de capital dessas empresas”, afirma Natália. Ela acrescenta que a IARAA busca construir uma política própria de proteção de dados voltada aos trabalhadores do campo e às informações produzidas nos territórios.
Construção coletiva com protagonismo feminino
Para organizar a base da IARAA, os movimentos reuniram um coletivo de especialistas populares em agroecologia. O grupo trabalhou na seleção de materiais, na definição dos temas prioritários e na tradução de concepções políticas e técnicas para orientar as respostas da plataforma.
Carolina Cruz explica que a ferramenta funciona como uma biblioteca especializada. A base reúne materiais de universidades, institutos de pesquisa, Embrapa, organizações populares e experiências sistematizadas por camponeses e camponesas. Diferente das plataformas comerciais, a IARAA informa as fontes usadas nas respostas.
“A gente não só está desenvolvendo uma ferramenta para os agricultores, mas os agricultores estão dentro da IARAA também, desenvolvendo a plataforma”, destaca Carolina.
A construção da ferramenta também tem forte presença feminina. Natália Lobo ressalta que o campo da tecnologia digital ainda é dominado por homens, mas a equipe da IARAA é majoritariamente formada por mulheres. A economia feminista foi incorporada como eixo de análise da plataforma.
“As respostas que a IARAA dá sempre trazem o feminismo ou a vida das mulheres, como as mulheres estão na produção, qual é o lugar das mulheres na produção, como um eixo constitutivo”, explica.
Modos de uso
A plataforma tem três modos de uso:
Semeadura: voltado a perguntas práticas do dia a dia no campo
Mutirão: pensado para assistência técnica e organização coletiva
Quintal Produtivo: direcionado a pesquisa, conceitos e aprofundamento teórico
Para Kallen Oliveira, engenheira agrônoma responsável pelo Centro Agroecológico Paulo Kageyama (CAPK), em Jarinu (SP), o principal ganho é democratizar o acesso ao saber agroecológico. Ela avalia que muitos conhecimentos produzidos nos territórios não estão nos livros ou não chegam a todos os assentamentos.
“A assistência técnica agroecológica nos foi negada e agora a gente tem ela com acesso na palma da mão”, afirma.
Horizonte internacional
A IARAA também é tratada pelas organizações como um ensaio de política pública para a soberania digital no Brasil. Para Natália, a experiência mostra a necessidade de o país desenvolver modelos próprios de linguagem, infraestrutura tecnológica soberana e regras de proteção dos dados.
Paula Veliz, integrante do escritório latino-americano da Baobab, afirma que a ferramenta nasce com caráter internacional. Além do Brasil, a Baobab já articula uma experiência semelhante em Gana, com foco na produção camponesa de cacau.
“A IARAA é uma iniciativa que é do povo para o povo”, resume Paula. Segundo ela, a ideia é compartilhar com organizações de outros países do Sul Global o aprendizado acumulado no Brasil.
Para Carolina Cruz, o processo de desenvolvimento da plataforma mostra que movimentos populares também podem criar tecnologias próprias. “A IARAA tem potencial não só de desenvolver uma ferramenta útil para a gente, mas também de mostrar outro modelo de desenvolvimento, soberano e de tecnologias que atendam às necessidades das pessoas”, considera.
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