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Abril Vermelho e Memória Rosa: Massacre de Eldorado dos Carajás completou 30 anos e expôs a nudez da permanência da violência no campo


Por Fábio Prado em 20/04/2026 - 18:43

Momento do sepultamento das 19 vítimas do massacre no cemitério de Curionópolis/Anistia Internacional. Foto: João Roberto Ripper

Trinta anos após o Massacre de Eldorado dos Carajás, o Brasil voltou a olhar, no último 17 de abril, para um dos episódios mais brutais da violência no campo. A data, marcada por mobilizações em diferentes regiões do país, também ganhou um elemento contemporâneo: em Goiás, a prisão do vereador Fabrício Rosa durante uma manifestação pacífica reacendeu o debate sobre repressão e direito à mobilização.

Em 17 de abril de 1996, 21 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar do Pará durante a desobstrução de um trecho da rodovia PA-150, no sudeste do estado. O grupo integrava uma mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que pressionava pela desapropriação de uma terra considerada improdutiva, uma demanda prevista na própria Constituição brasileira.

A dimensão da violência marcou o episódio como um divisor na história recente do país. Perícias e investigações apontaram execuções à queima-roupa e o uso de instrumentos cortantes contra trabalhadores já rendidos, tornando o massacre um símbolo da atuação violenta em conflitos fundiários.

Desde então, o 17 de abril passou a ser reconhecido como o Dia Internacional da Luta Camponesa, e o chamado “Abril Vermelho” reúne, todos os anos, mobilizações em defesa da reforma agrária e da justiça no campo.

Três décadas depois, a memória do massacre não se limita ao passado. Ela continua a atravessar o presente brasileiro, sobretudo no campo. A Constituição de 1988 estabelece que a propriedade deve cumprir função social e prevê a reforma agrária como instrumento de redução das desigualdades. Ainda assim, o acesso à terra segue concentrado e os conflitos permanecem como parte estrutural do território nacional. Nos últimos anos, o país tem registrado milhares de disputas no campo, envolvendo terra, água e recursos naturais, além de assassinatos recorrentes ligados a essas mesmas tensões.

Esse cenário se intensifica com a expansão de atividades econômicas sobre áreas rurais. No Cerrado, por exemplo, a combinação entre produção agropecuária em larga escala e o interesse sobre recursos naturais amplia a pressão sobre territórios e populações. Em Goiás, essa dinâmica se insere em uma estrutura histórica de concentração fundiária e forte influência política de grupos ligados à terra, o que mantém o tema agrário como um dos pontos sensíveis do debate público.

É nesse contexto que a memória de Eldorado dos Carajás encontra o presente. Os atos realizados no último 17 de abril relembraram as vítimas de 1996, mas também ampliaram a reflexão sobre acesso à terra, desigualdade e formas de repressão. Em Goiás, a detenção de um representante eleito durante uma manifestação pública adicionou um elemento contemporâneo a esse cenário, ao recolocar em debate os limites da atuação policial e o direito à livre manifestação, como quem manda um recado aos que desejam se manifestar contra todos os tipos de opressão, seja no campo ou na cidade.

De hoje em diante, a luta do Dia Internacional da Luta Camponesa ganha uma outra cor a ser relembrada pra sempre por todos que acreditam na possibilidade de um mundo novo, o Abril Vermelho, em Goiânia, se torna também um abril Rosa, de Fabrício. A coincidência entre memória e repressão é simbólica e expõe permanências de uma realidade que, embora distante no tempo, segue com raízes no presente. Trinta anos depois, o país que reconhece oficialmente a data como marco da luta pela terra ainda convive com tensões semelhantes às que levaram ao massacre. Se, em um ato público e visível, um parlamentar pode ser detido com esse nível de violência, a situação de trabalhadores anônimos, especialmente no campo, permanece ainda mais vulnerável.

A memória de Carajás, portanto, é uma lembrança que funciona como medida de tempo e continuidade e jamais deve ser esquecida. Ao atravessar Goiás neste marco de 30 anos, levanta uma pergunta que segue sem resposta definitiva: o Brasil mudou a forma de lidar com a luta pela terra ou apenas deslocou o silêncio sobre onde ela continua a ser reprimida?

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