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Lula em Goiás: quem dará voz ao campo progressista em 2026?

Apesar desse capital político, o campo progressista no estado ainda enfrenta dificuldades para canalizar esse apoio de forma estruturada


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 07/10/2025 - 08:22

Lula em Goiás
Lula não apenas moldou a esquerda brasileira — ele a lidera ( Foto: Ricardo Stuckert / PR)

Por mais de três décadas, Luiz Inácio Lula da Silva tem sido o maior símbolo do campo progressista brasileiro. De líder sindical a fundador do Partido dos Trabalhadores, deputado constituinte e presidente da República por três mandatos, Lula não apenas moldou a esquerda brasileira — ele a lidera. Desde 1989, seja como candidato ou como fiador político, seu nome é presença obrigatória nas disputas nacionais e nos palanques que se formam em todo o país.

No entanto, quando olhamos para Goiás, a história revela um desafio persistente para o lulismo e para o PT. Trata-se de um estado marcado pela hegemonia conservadora, onde o campo progressista nunca obteve vitórias majoritárias em eleições estaduais e enfrenta grande dificuldade de estruturação para disputar com densidade o Palácio das Esmeraldas.

Mesmo com um histórico adverso, Lula mantém força expressiva em Goiás. Em 2022, mesmo com pouquíssima estrutura de campanha nas ruas, sem placas, comitês visíveis ou mobilizações comparáveis a outros estados, ele conquistou 41,29% dos votos no segundo turno. Isso comprova a existência de um “lulismo silencioso” em Goiás: um eleitorado que, mesmo sem se manifestar publicamente, confia no projeto de Lula e o elege como representante legítimo dos interesses populares.

Apesar desse capital político, o campo progressista no estado ainda enfrenta dificuldades para canalizar esse apoio de forma estruturada. Em 2022, o professor Wolmir Amado, candidato do PT ao governo, obteve apenas 6,98% dos votos, evidenciando um abismo entre o prestígio de Lula e a capacidade local de organização partidária.

A deputada federal Adriana Accorsi, delegada de carreira, é hoje o principal nome do PT goiano. Tem forte ligação com o presidente, é prestigiada na militância petista e representa a identidade clássica do partido. No entanto, sua capacidade de dialogar com setores fora da bolha progressista ainda precisa ser testada.

Outro nome com peso político é o do ex-governador José Eliton, que foi um dos principais articuladores da campanha de Lula em Goiás em 2022. Advogado, empresário ligado ao agronegócio e próximo de Marconi Perillo, Eliton tem perfil mais palatável ao centro político e até a setores da direita — um ativo importante para furar a bolha ideológica e ampliar o diálogo.

A vereadora Aava Santiago desponta como uma voz jovem, progressista e com forte articulação junto ao meio evangélico — um segmento historicamente resistente ao PT, mas central para qualquer projeto vitorioso no estado.

O professor Edward Madureira, ex-reitor da UFG, é uma figura com credibilidade acadêmica e ampla respeitabilidade, enquanto o deputado federal Rubens Otoni, um dos fundadores do PT em Goiás, tem experiência e trajetória consolidada, embora represente mais a tradição do que a renovação do partido.

Se quiser ser competitivo em 2026, o campo progressista precisará mais do que apenas bons nomes. Terá que construir pontes com setores da sociedade historicamente refratários ao PT e a Lula: agronegócio, forças de segurança e o campo evangélico. O diálogo com esses grupos não pode ser superficial — deve ser baseado em escuta, respeito e construção de propostas reais.

Há também o delicado xadrez das alianças nacionais. O MDB do vice-governador Daniel Vilela faz parte da base do governo Lula em Brasília, assim como o PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin. No entanto, em Goiás, qualquer articulação que envolva Daniel Vilela esbarra em um constrangimento político inevitável: ele é o vice do governador Ronaldo Caiado, um dos mais duros e constantes opositores do governo Lula e da esquerda nacional. Seria, no mínimo, desconfortável — para não dizer contraditório — que aliados de Lula dividissem palanque com Caiado em 2026.

Nesse cenário, o nome de Marconi Perillo, ex-governador e presidente nacional do PSDB, também volta à mesa. Perillo possui uma relação pessoal e política de longa data com Geraldo Alckmin, com quem foi colega de governança nos anos 2000 e aliado em diversas frentes. Essa relação pode ser uma ponte importante para negociações mais amplas entre o PSDB e o campo democrático.

O tempo está correndo
Goiás continua sendo um terreno hostil ao campo progressista, mas não é um território intransponível. Lula mostrou que tem voto, mesmo sem estrutura. Agora, cabe aos líderes locais organizarem esse capital político em um projeto viável, de diálogo com a sociedade e com potencial de vitória.

O palanque de Lula em Goiás precisa começar a se erguer — com firmeza, clareza de projeto e disposição para o diálogo. O tempo, como sempre, será o juiz mais implacável da política.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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