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Ministério Público move ação contra o ITA por prisões de alunos e professores na ditadura

Instituição de ensino é acusada de perseguir alunos e professores entre 1964 e 1975, com prisões, tortura e desligamentos sob falsa acusação de comunismo


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 01/06/2026 - 18:00

Ministério Público move ação contra o ITA por perseguição a 24 pessoas durante a ditadura militar. MPF pede R$ 5 milhões em indenização e medidas de reparação.
Ministério Público move ação contra o ITA por perseguição a 24 pessoas durante a ditadura militar. MPF pede R$ 5 milhões em indenização e medidas de reparação - Foto: Roberto Nakamura

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública na Justiça Federal de São José dos Campos na última quarta-feira (27). A ação exige que o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) implemente medidas de memória e reparação por perseguições ocorridas durante a ditadura militar.

A procuradora da República Ana Carolina Haliuc Bragança assina a ação. Ela pede ainda uma indenização à sociedade no valor de R$ 5 milhões pelos danos coletivos causados pelas violações.

Os impactos da repressão se estendem até hoje, segundo a procuradora. “Até hoje a sombra das violações a direitos perpetradas espraia-se sobre o ITA, mal-contada, mal-resolvida, e sem espaços onde possa ser rememorada e rechaçada”, afirma na ação .

As violações aconteceram entre 1964 e 1975. Ao todo, 21 alunos, dois professores e um servidor da instituição foram desligados e presos sob a falsa acusação de comunismo. Um dos alunos foi torturado no Doi-Codi, órgão de repressão do regime militar .

Centro Acadêmico era alvo da perseguição

O Centro Acadêmico Santos Dumont foi o pivô da perseguição ao primeiro grupo de presos em 1964. A entidade realizava mostras de filmes soviéticos, tchecos, poloneses e japoneses em São José dos Campos. O CA também levou à cidade o Teatro Oficina e o músico Vinicius de Moraes .

“Em 1964, o debate político foi encerrado com violência. Promover festivais de cinema tcheco, russo ou polonês era crime”, afirmou o engenheiro Luiz Maria Esmanhoto à Comissão da Verdade de São José dos Campos. Ele se referia ao dia em que o campus foi invadido e ocorreram as prisões de 12 alunos, dois professores e um servidor .

Entre os docentes presos estava o polonês Szmul Jakob Goldberg, conhecido como Kuba. O apelido lhe rendeu a pecha de comunista, o que motivou sua demissão e prisão em 1964. Estima-se que, além das prisões, 200 dos 500 alunos do ITA foram interrogados por militares. Por causa do clima de medo, não houve festa de formatura naquele ano .

Perseguições continuaram em 1965 e 1975

Em 1965, Esmanhoto e mais três colegas foram desligados da instituição. Eles planejavam uma homenagem aos colegas e professores presos no ano anterior. Todos estavam prestes a se formar .

Desde 1974, os estudantes tentavam reorganizar o Centro Acadêmico Santos Dumont. Eles não sabiam, no entanto, que agentes infiltrados no ITA os monitoravam. Em 1975, ocorreu a prisão do estudante Clovis Goldemberg e de outros quatro colegas. A acusação foi terem se reunido com um político de oposição que era comunista .

Clovis foi levado incomunicável ao Doi-Codi num domingo e foi brutalmente torturado, conforme descreve a procuradora na ação. Quatro alunos foram até o reitor do ITA questioná-lo sobre o ato. Todos foram presos e levados ao Doi-Codi, mas foram poupados da tortura depois de assinarem confissões forjadas .

Após serem libertados em liberdade provisória, os cinco estudantes presos em 1975 prestaram exames e seguiram a vida acadêmica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Todos se tornaram professores da universidade .

Medidas de reparação são insuficientes, diz MPF

Em 2003, o então reitor Michal Gartenkraut criou o Projeto Reconciliação, conhecido como Grupo dos Sábados. A iniciativa incluiu ex-alunos desligados e membros militares do ITA. O grupo conseguiu a diplomação de seis alunos expulsos em julho de 2005. Três semanas depois, Gartenkraut foi demitido .

O grupo também fez uma placa comemorativa com o nome de todos os alunos atingidos pela repressão. A placa, no entanto, foi dada como sumida e só foi encontrada anos depois, atrás de um armário na reitoria, após cobrança do MPF. A instalação ocorreu em setembro de 2024 no H8, área do campus das moradias estudantis que não é acessada por toda a comunidade acadêmica. Um brigadeiro do ITA chamava a placa de “aquele troço”, conforme o MPF .

Para o MPF, as medidas realizadas até agora são insuficientes. O instituto não possui “centros físicos de memória que tragam lume às violações ocorridas, facilmente acessíveis a estudantes, servidores e professores do ITA”. O órgão entende ainda que a União deve ser condenada a indenizar a sociedade como um todo em R$ 5 milhões, pois as condutas do ITA causaram dano coletivo .

A ação também pede que o ITA seja condenado a pedir desculpas a toda a sociedade e às vítimas por todas as violações de direitos humanos que ocorreram contra estudantes, professores e funcionários da instituição .

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