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MPI e Fiocruz assinam acordo de R$ 1,1 milhão para combater contaminação por agrotóxicos em territórios Guarani e Kaiowá

Parceria de R$ 1,1 milhão prevê capacitação e planos de supressão de exposição em três territórios críticos no Mato Grosso do Sul após mortes de bebês por intoxicação


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 19/05/2026 - 15:47

MPI e Fiocruz assinam acordo de R$ 1,1 milhão para combater contaminação por agrotóxicos em territórios Guarani e Kaiowá
MPI e Fiocruz assinam acordo de R$ 1,1 milhão para combater contaminação por agrotóxicos em territórios Guarani e Kaiowá

O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) oficializaram, no último sábado (16), a assinatura de um Termo de Execução Descentralizada (TED). Com investimento global de R$ 1.146.880 e vigência de 12 meses, a parceria foca no apoio técnico-científico e operacional para enfrentar os graves danos ambientais e agravos de saúde decorrentes da contaminação por agrotóxicos em territórios Guarani e Kaiowá, no sul do Mato Grosso do Sul .

A urgência da medida responde a uma crise humanitária na região. O território registrou dois óbitos de bebês em apenas três meses no tekoha Jopara, localizado no município de Coronel Sapucaia. Em ambos os casos, moradores relataram vômitos, diarreia e cefaleia imediatamente após pulverização em lavouras vizinhas, sintomas compatíveis com intoxicação aguda por agrotóxicos .

Além disso, em abril de 2025, um indígena faleceu na Terra Indígena Guassuty, em Aral Moreira, após ingerir bebida armazenada em galão de agrotóxico. Segundo o ministério, a prática ocorre devido à falta de assistência adequada e de acesso à água potável nas comunidades .

Dados alarmantes sobre contaminação

Dados coletados pelo Gabinete de Crise Guarani Kaiowá, coordenado pelo MPI, revelam que a contaminação é uma rotina em 51 territórios pesquisados. Cerca de 60,8% das áreas apresentam moradores com sintomas de intoxicação, sendo crianças e gestantes as principais vítimas .

O diagnóstico aponta que 27,5% das áreas sofrem pulverização aérea e 64,7% terrestre, com equipamento conhecido como “formigão”. Isso atinge não apenas a saúde humana, mas também fontes de água e roças de subsistência .

Em pelo menos cinco territórios, há denúncias de que agrotóxicos são usados intencionalmente como arma química contra as comunidades. Dessa forma, a violência contra os povos indígenas assume um contorno ainda mais grave .

Atuação do Gabinete de Crise

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, enfatizou que o projeto está diretamente vinculado às ações estruturantes do Gabinete de Crise Guarani Kaiowá, criado em setembro de 2023 após episódios de violência na região. O gabinete atua em três eixos prioritários: o fundiário, o acesso à água e o enfrentamento à contaminação .

Ao tratar dos dados de contaminação e dos óbitos recentes, o chefe da pasta alertou para a gravidade da situação mapeada pelas equipes técnicas. “Mais de 60% das comunidades sofrem impactos diretos de agrotóxicos. Esses dados exigem um enfrentamento técnico e político sério”, afirmou .

No âmbito fundiário, a Funai reabriu as demarcações paralisadas pela gestão anterior. Foi assinada a portaria declaratória da Terra Indígena Ipuí, além do envio do processo de Amambai ao Ministério da Justiça. No eixo do acesso à água, foram entregues 20 poços, com previsão de mais 30 unidades em áreas de retomada .

Metas e entregas do acordo

O plano de trabalho do TED está dividido em duas frentes principais de ação :

Capacitação em Vigilância Popular em Saúde: Focada em treinar indígenas, profissionais da SESAI e gestores do SUS para o reconhecimento precoce de sinais de intoxicação e o estabelecimento de nexo epidemiológico. Serão produzidos três vídeos bilíngues (português e guarani), duas cartilhas bilíngues e um relatório descritivo das oficinas.

Planos de Supressão da Exposição: Desenvolvimento de estratégias em pelo menos três territórios críticos para reduzir ou eliminar o contato com agrotóxicos, incluindo diagnóstico de rotas de exposição, mapeamento de áreas vulneráveis e definição de medidas emergenciais.

Territórios prioritários

Embora o mapeamento final dependa de seminários participativos com lideranças, três áreas são candidatas naturais devido à gravidade dos casos :

  • Tekoha Jopara (Coronel Sapucaia): onde ocorreram os dois óbitos de bebês
  • TI Guassuty (Aral Moreira): onde houve o falecimento por ingestão acidental, com registro de galões de agrotóxicos próximos a poços d’água
  • TI Guyraroká (Caarapó): que conta com Medida Cautelar nº 458-19 da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), obrigando o Estado brasileiro a mitigar riscos de pulverização

A TI Guyraroká é um caso emblemático. Os Guarani-Kaiowá reivindicam a área de aproximadamente 12 mil hectares, mas aguardam demarcação definitiva desde 2009. Estudos antropológicos já confirmaram a tradicionalidade do território, mas a decisão do STF em 2014 derrubou a demarcação .

Protagonismo indígena e antecedentes

O TED está juridicamente ancorado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 709 e no Programa de Consolidação da Posse Indígena (PCPI). A escolha da Fiocruz como executora baseia-se em sua atuação na região desde 2021, monitorando a qualidade da água em territórios como Guyraroká .

Antes mesmo de qualquer ação de campo, o plano de trabalho exige etapas de diálogo formal com o Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) e a assembleia Aty Guasu, organização representante dos indígenas Guarani Kaiowá. Dessa forma, o protagonismo comunitário é garantido.

A diretora da Fiocruz, Jislaine Guilhermino, destacou a metodologia participativa da instituição. “Nessas ações, nesses projetos, é importante a gente destacar que a nossa equipe não trabalha sozinha, nós temos pesquisadores indígenas. A população indígena não é objeto de pesquisa. São sujeitos que participam ativamente de todo esse processo” .

O Gabinete de Crise Guarani Kaiowá funciona como o centro de articulação interinstitucional que coordena as diligências entre os diferentes órgãos federais, incluindo IBAMA, FUNAI e IAGRO. A atuação conjunta visa transformar o conhecimento técnico gerado pela Fiocruz em medidas concretas de proteção territorial e responsabilização jurídica .

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