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O peso da máquina

Reta final testa quanto uma poderosa estrutura vale na urna e onde termina a força política e começa o debate sobre uso do Estado


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 20/09/2026 - 11:44

(Foto: Divulgação)

Cento e vinte e três prefeitos estavam diante de Daniel Vilela quando o governador transformou a mobilização da base numa competição. No “Dia do 15”, em Aparecida de Goiânia, pediu empenho aos aliados e anunciou que a cidade onde obtiver a maior votação proporcional poderá escolher uma obra para receber num eventual novo mandato. A campeã estadual, acrescentou, teria “presente dobrado”.

A fala atravessou o palanque. No dia seguinte, PL, Novo e Wilder Morais levaram o episódio ao Tribunal Regional Eleitoral de Goiás. A ação acusa Daniel e o vice Luiz do Carmo de abuso de poder político e captação ilícita de sufrágio. A acusação ainda será julgada pela Justiça Eleitoral. A controvérsia nasceu justamente no ato que melhor sintetizou o tamanho da estrutura reunida ao redor da candidatura governista.

Segundo a campanha, Daniel conta com o apoio declarado de 227 dos 246 prefeitos de Goiás, mais de 92% do total. Reúne 12 partidos e os prefeitos das dez maiores cidades. No “Dia do 15”, 123 gestores compareceram, além de vice-prefeitos, vereadores, candidatos ao Senado e o ex-governador e candidato à presidência da República Ronaldo Caiado (PSD). A pergunta é quanto isso vale quando o eleitor entra sozinho na cabine.

227 prefeitos não são 227 currais

Para o cientista político e professor Guilherme Carvalho, o peso dos prefeitos depende do tipo de eleição. Ele compara 2026 a 2018, quando Ronaldo Caiado venceu num ambiente de ruptura apesar de contar com uma estrutura municipal muito menor. Agora, diz, o cenário é de continuidade e Daniel reúne quase a unanimidade dos gestores.

“A máquina é muito atrativa”, resume Carvalho. Prefeitos, segundo ele, fazem uma leitura de projeção de poder: aproximam-se de quem enxergam com maior capacidade de manter investimentos, parcerias e espaço político. Depois, administram as diferenças partidárias e os rearranjos necessários.

O prefeito não é dono do voto, mas oferece uma rede. Organiza agendas, mobiliza vereadores, reúne lideranças, apresenta obras feitas em parceria com o Estado e leva a campanha a lugares onde uma coordenação estadual dificilmente chegaria sozinha.

Carvalho chama os prefeitos de principais cabos eleitorais de candidatos a deputado, senador e governador e vê uma relação de reciprocidade. “É uma troca em que estrutura joga a favor da continuidade de estrutura.” Para ele, essa lógica não nasceu com Daniel. Também existia nos governos de Marconi Perillo; a diferença atual está no grau de unidade alcançado pela base.

As dez maiores cidades

A estrutura não está concentrada apenas nos municípios pequenos.

Com a adesão do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, Daniel passou a contar também com o apoio dos gestores das dez maiores cidades de Goiás. Juntos, esses municípios concentram cerca de 2,4 milhões de eleitores, quase 48% do eleitorado estadual.

As pesquisas mostram Daniel na liderança, mas não permitem atribuir essa posição diretamente à estrutura. Na Paraná Pesquisas divulgada em 11 de setembro, ele aparece com 45,1%, contra 23,2% de Marconi Perillo. Aprovação do governo, imagem dos candidatos, alianças, propaganda e o legado de Caiado também entram na equação.

Continuidade favorece estrutura

É aqui que a leitura de Guilherme Carvalho ganha outra dimensão. Para o professor, 2018 foi uma eleição de ruptura. Em 2026, ele não identificou até aqui o mesmo desejo de mudança capaz de neutralizar o peso das estruturas locais.

“Essa é uma eleição de continuidade. A gente não vê nenhum sinal de tentativa de algum grupo político se sobrepor agora, ou um desejo da população de escolher novos rumos para o Estado”, avalia.

A afirmação é uma leitura do cientista político, não uma conclusão antecipada sobre a urna. Ela ajuda, porém, a explicar por que prefeitos de partidos adversários também aderiram à candidatura governista.

Márcio Corrêa é o exemplo mais visível. Filiado ao PL, partido de Wilder, declarou apoio a Daniel e acabou em conflito com a direção estadual da própria legenda. Na avaliação de Carvalho, movimentos assim revelam que, para prefeitos, projeção de poder e expectativa de contrapartidas administrativas podem pesar mais que a fidelidade à sigla.

Quando apoio vira cobrança

O “Dia do 15” mostrou o outro lado de possuir uma base tão grande.

A menos de três semanas do primeiro turno, Daniel convocou os aliados a acelerarem a campanha. A presença de 123 prefeitos num mesmo ato é demonstração de estrutura, mas também revela uma necessidade: fazer a engrenagem funcionar.

Apoio declarado não significa dedicação cotidiana. Há prefeitos que dividem compromissos entre diferentes candidatos ao Senado e às proporcionais. Uma base de 12 partidos multiplica força, mas também interesses.

A reta final separa apoio protocolar de campanha efetiva.

Daniel já reuniu prefeitos. Agora precisa converter presença política em mobilização e, finalmente, em voto.

A fronteira mais delicada

É nesse ponto que a promessa feita em Aparecida ganha importância maior que a frase isolada. Candidatos prometem obras e investimentos durante campanhas. A controvérsia surgiu porque Daniel relacionou uma obra ao desempenho eleitoral proporcional dos municípios.

PL, Novo e Wilder sustentam que houve condicionamento de investimento público ao resultado das urnas. A defesa ainda poderá se manifestar, e caberá ao TRE-GO decidir se a declaração ultrapassou os limites da legislação eleitoral. Daniel é candidato, mas continua governador.

Os prefeitos que sobem em seu palanque são aliados eleitorais, mas continuam administrando municípios que mantêm convênios e relações institucionais com o Estado. O governo precisa funcionar enquanto a campanha transforma realizações e parcerias em argumentos de continuidade.

É nessa convivência que adversários procurarão indícios de abuso e que a candidatura governista terá de demonstrar a separação entre administração e eleição.

Uma estrutura herdada e ampliada

A rede municipal que Daniel conduz não foi construída apenas por ele.

Parte importante da atual base nasceu durante os dois governos de Ronaldo Caiado. Prefeitos que estiveram em outros campos migraram para a administração estadual enquanto Caiado ampliava sua aprovação e fortalecia relações com os municípios. Daniel herdou essa estrutura e trabalhou para ampliá-la.

A prova da urna

Daniel possui uma rede municipal que nenhum adversário conseguiu reproduzir na mesma escala.

Marconi percorre Goiás tentando reconstruir antigas relações. Wilder trabalha a estrutura do PL e a força do bolsonarismo. Luis César Bueno aposta na ligação com Lula e no eleitorado petista. Daniel administra o Estado e tem ao seu lado a maioria esmagadora dos prefeitos.

A diferença é objetiva. Seu efeito eleitoral ainda precisa ser medido.

Se os apoios locais se converterem em mobilização, a coalizão terá produzido uma vantagem territorial relevante. Se parte deles permanecer apenas na fotografia, ficará exposta a distância entre estrutura política e comportamento do eleitor. O “Dia do 15” condensou as duas dimensões.

De um lado, 123 prefeitos diante do governador. Do outro, uma promessa de obras ligada ao desempenho nas urnas que terminou questionada na Justiça Eleitoral.É esse o peso da máquina: capilaridade, estrutura e mobilização. Quanto maior ela se torna, maior também é o escrutínio sobre a maneira como se movimenta.

 

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