O Partido Liberal (PL) nunca foi um partido de ideias. Sua trajetória revela uma agremiação moldada muito mais pela lógica do poder do que por convicções ideológicas consistentes. No plano nacional, essa característica se materializa na figura de seu presidente — e verdadeiro “dono” da sigla — Valdemar da Costa Neto, personagem central do escândalo do mensalão, episódio que resultou em sua prisão e deixou marcas profundas na história do partido. Ainda assim, o PL jamais deixou de operar com desenvoltura no sistema político brasileiro, sempre se adaptando às circunstâncias.
A ausência de lastro ideológico do partido fica ainda mais evidente quando se observa sua impressionante elasticidade programática. Foi o PL que indicou o empresário mineiro José Alencar para compor, como vice-presidente, a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. À época, a legenda se apresentava como uma ponte entre o petismo e setores do empresariado nacional. Duas décadas depois, o mesmo partido abriga o bolsonarismo e se afirma como o principal polo institucional da extrema direita brasileira. Poucos exemplos são tão didáticos: o PL já foi vice de Lula e hoje hospeda o bolsonarismo. Isso não revela capacidade de síntese política, mas ausência quase total de compromisso ideológico.
Durante anos, esse pragmatismo encontrou abrigo natural no centrão, espaço no qual o partido sempre se sentiu confortável, negociando apoio em troca de cargos, emendas e influência. Esse lugar, no entanto, foi abandonado quando o PL decidiu acolher Jair Bolsonaro. Ao fazê-lo, deixou de ser apenas mais um partido fisiológico e assumiu um novo papel na política nacional: o de representante formal da extrema direita.
Bolsonaro foi o grande responsável por organizar social e politicamente a direita brasileira contemporânea. Construiu um movimento com forte capilaridade nas igrejas evangélicas, entre militares e no agronegócio, além de mobilizar parcelas expressivas da classe média urbana. Durante boa parte de seu governo, contou também com o apoio — ou ao menos a simpatia — do grande capital, impulsionado pela agenda ultraliberal conduzida por Paulo Guedes. Essa elite dominante, que controla os fluxos do capital e influencia decisivamente os rumos da economia nacional, talvez não seja a única responsável, mas é certamente a principal responsável pelas profundas desigualdades sociais que estruturam o Brasil.
Hoje, Jair Bolsonaro está preso. E esse fato reorganiza profundamente o tabuleiro da direita brasileira. Mais do que uma consequência jurídica, sua prisão tornou-se um elemento central da estratégia política do bolsonarismo e do PL. Uma nova vitória de Lula da Silva na eleição presidencial, cenário considerado provável, tende a manter Bolsonaro preso por muitos anos, encerrando — ao menos no plano institucional — qualquer possibilidade de retorno político do ex-presidente.
Ao se tornar a casa do bolsonarismo, o PL rompeu definitivamente com o centrão e ganhou protagonismo. Passou a liderar uma extrema direita com tentáculos espalhados por todo o território nacional e com conexões internacionais. Mas esse protagonismo cobra um preço: o partido passou a depender politicamente de um líder preso e de uma narrativa permanente de confronto com as instituições.
Em Goiás, esse cenário se expressa de forma particularmente intensa. O estado talvez esteja entre aqueles com maior adesão social e política à extrema direita no país. O PL goiano é presidido pelo senador Wilder Morais, político experiente, que já foi aliado de Marconi Perillo e do governador Ronaldo Caiado. Hoje, Wilder se coloca como pré-candidato ao governo do estado — e, do ponto de vista tático, dificilmente haveria um momento mais oportuno. O bolsonarismo ainda mantém forte recall eleitoral em Goiás.
Esse capital político, contudo, pode não ser duradouro. Com Bolsonaro preso e possivelmente afastado da vida pública por muitos anos, não está claro até que ponto esse eleitorado permanecerá mobilizado sob a mesma identidade política. A depender do desfecho das eleições presidenciais, o bolsonarismo pode entrar em um processo acelerado de esvaziamento ou fragmentação.
Wilder parece correto ao tentar agora. Talvez não exista outra janela tão favorável. Mas os entraves são evidentes. O primeiro deles é a conjuntura nacional. A direita busca se unificar contra Lula, e Goiás é governado por Ronaldo Caiado, liderança histórica da antiga UDR, adversário ideológico de Lula e também pré-candidato à Presidência da República. Para o projeto nacional de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do bolsonarismo, é estratégico contar com Caiado, seja no primeiro, seja no segundo turno. Uma disputa direta entre o PL e a base caiadista em Goiás poderia gerar ruídos graves nesse projeto nacional.
O segundo entrave atende pelo nome de Gustavo Gayer. Deputado federal, forjado no bolsonarismo, Gayer é hoje uma das lideranças mais influentes — e mais radicais — da extrema direita brasileira. Não é segredo que o PL tem no Senado seu principal objetivo estratégico. É nessa Casa que a extrema direita acredita poder interferir institucionalmente no Supremo Tribunal Federal, inclusive por meio de pedidos de impeachment de ministros. A grande agenda nacional desse campo político é explícita: impedir a consolidação das responsabilizações de Jair Bolsonaro e trabalhar politicamente para sua libertação.
Nesse contexto, Gayer no Senado seria uma peça-chave para esse “grande” — e aqui cabe a ironia — projeto de país. Ele possui engajamento militante e capilaridade eleitoral, mas talvez não votos suficientes, sozinho, para vencer uma eleição majoritária. Com o apoio da robusta base caiadista, poderia furar a bolha da extrema direita e alcançar prefeitos, vereadores, deputados e a máquina política do governo estadual. Wilder conseguiria oferecer essa mesma estrutura? Tudo indica que não.
O impasse está posto. Wilder já se lançou candidato ao governo e recuar agora significaria desgaste e perda de prestígio interno. Gayer quer o Senado — de preferência com Caiado. Flávio Bolsonaro precisa de Caiado no projeto nacional. Este é o nó da direita em Goiás. Como acomodar interesses tão sensíveis sem provocar fraturas irreversíveis?
O que parece mais sólido é o seguinte: se a base de Ronaldo Caiado — que aposta no jovem, tecnicamente preparado e ainda sem desgaste público Daniel Vilela — conseguir compor com o PL, essa aliança se torna praticamente imbatível em Goiás. Do outro lado, os adversários tendem a ser Marconi Perillo, político experiente, porém hoje isolado, e o candidato do PT, provavelmente o professor Edward Madureira, uma das figuras mais respeitadas do estado, mas que ainda enfrentará a histórica resistência do eleitorado goiano ao partido.
Caiado trabalha para reduzir ao máximo o número de concorrentes contra Daniel Vilela — e, até aqui, tem tido êxito. Mas a política é dinâmica. O jogo ainda está sendo jogado e tudo pode mudar de uma hora para outra. O tempo das grandes decisões está se esgotando. Quem errar o cálculo agora pode pagar um preço alto depois.
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