Skip to content

Por que ser progressista é também defender a agricultura brasileira


Por Rodrigo Zani em 05/11/2025 - 08:55

Entre a memória de Eldorado e a guerra de narrativas: Reforma Agrária, Segurança Pública e a crise política em Goiás

É possível ser progressista e defender a agenda nacional da agricultura?

Claro que sim. E mais do que possível — é necessário, estratégico e patriótico.

A história da agricultura no Brasil é, antes de tudo, a história da própria formação do nosso povo. Muito antes da colonização europeia, os povos originários já dominavam técnicas de cultivo em harmonia com a natureza. Praticavam a agricultura de forma sustentável, com saberes ancestrais sobre o manejo da terra, das águas e das florestas. Essa relação equilibrada entre produção e meio ambiente foi brutalmente interrompida pela chegada do colonizador, que impôs o extrativismo e as monoculturas voltadas à exportação.

Com o tráfico de escravos africanos, o país formou a base de sua economia e do seu tecido social em torno do trabalho forçado. Milhões de homens e mulheres africanos foram trazidos para o campo, onde suas mãos, saberes e culturas ergueram o Brasil agrário. Depois, a ocupação europeia consolidou os latifúndios e a concentração de terras, transformando a agricultura em símbolo de poder econômico e desigualdade social. Essa é a origem da agricultura que hoje conhecemos — complexa, contraditória, mas fundamental para entender o país que somos.

Compreender essa história é projetar o Brasil para o futuro.

E esse futuro depende de uma agricultura forte, tecnológica, sustentável e socialmente justa.

O agronegócio empresarial brasileiro é hoje uma das forças mais relevantes da nossa economia. Ele sustenta boa parte das exportações nacionais, impulsiona a balança comercial e fortalece as relações internacionais do país. É também um dos setores que mais investem em tecnologia, ciência e inovação — pilares de qualquer projeto progressista de nação. A ciência, afinal, é uma agenda progressista. Graças à força e à credibilidade do agronegócio, o Brasil tem conseguido negociar com firmeza e equilíbrio com outras potências, como os Estados Unidos, defendendo seus interesses de forma soberana e técnica, sem submissão a agendas ideológicas. O recente diálogo diplomático entre o presidente Lula e Donald Trump mostrou que é possível alinhar comércio e política externa com base em princípios de igualdade e respeito mútuo — e isso se deve, em grande parte, à robustez do nosso setor agrícola.

Mas o Brasil rural não é apenas o agronegócio.

É também o coração da agricultura familiar, que garante o alimento na mesa dos brasileiros, preserva o meio ambiente, gera milhões de empregos e mantém viva a cultura rural em todas as regiões. A agricultura familiar é um dos instrumentos mais poderosos de inclusão social e sustentabilidade, e é o campo progressista que melhor compreende e defende essa agenda. Fortalecer a agricultura familiar é fortalecer a democracia e a justiça social.

Nesse contexto, a reforma agrária volta a ser uma pauta central — e precisa ser debatida com maturidade.

O campo progressista reconhece, antes de tudo, o direito constitucional à propriedade privada, princípio inviolável e sacramentado na Constituição Federal. Entretanto, compreende que esse direito convive com outro preceito constitucional igualmente fundamental: o da função social da terra.

Uma terra agrícola no Brasil deve cumprir seu papel produtivo, estar em dia com as obrigações tributárias de interesse nacional e operar dentro da legalidade técnica e ambiental. Sabemos que existem proprietários que não cumprem esses preceitos constitucionais, ao mesmo tempo em que há milhões de brasileiros e brasileiras aptos e preparados para a produção rural, mas sem acesso à terra.

Conciliar esses interesses num projeto de nação — garantindo o direito de propriedade e promovendo a justiça social — é dever do campo progressista e necessidade da sociedade brasileira.

Nenhum país se desenvolveu plenamente sem reorganizar seu território e democratizar o acesso à terra. Japão, Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos são exemplos históricos de reformas agrárias que impulsionaram o crescimento econômico e reduziram desigualdades. No Brasil, essa agenda precisa ser vista não como um conflito, mas como uma oportunidade: otimizar a produção, ampliar a eficiência e promover dignidade no campo.

Defender os direitos dos trabalhadores rurais é também defender o Brasil. Ainda convivemos com o horror de situações análogas à escravidão — uma ferida aberta que mancha a imagem da agricultura brasileira no mundo. O campo progressista combate essa realidade com firmeza, porque compreende que o trabalho digno é condição inegociável para qualquer nação civilizada. Nenhum lucro pode nascer da violação dos direitos humanos.

A segurança pública no campo também deve ir além da lógica armamentista. O campo precisa de proteção, sim, mas principalmente de políticas sociais de inclusão: educação rural, aposentadoria justa, saúde no campo, pacificação territorial. O verdadeiro apoio ao produtor vem de políticas públicas que promovem cidadania, e não de uma cultura de medo e violência.

Ao olhar para o futuro, é impossível dissociar agricultura e meio ambiente. O Brasil sediará a COP-30, e o planeta estará atento à nossa liderança climática. Somos o país da biodiversidade, das florestas e das águas, e o equilíbrio climático é essencial à nossa produção rural. O campo progressista tem sido historicamente defensor dessa causa: agricultura e meio ambiente são irmãos siameses. Sem equilíbrio ecológico, não há colheita possível. E o mundo sabe disso.

Por fim, é preciso reafirmar a democracia brasileira, construída sobre a diversidade. O Brasil é plural — e essa pluralidade é sua maior força. Por isso, ser progressista e defender a agricultura não são agendas opostas. São, na verdade, partes complementares de um mesmo projeto de nação. Um Brasil que valoriza o produtor, a ciência, o meio ambiente e os direitos humanos. Um Brasil que cresce sem destruir. Que exporta sem se submeter. Que planta, colhe e reparte.

A agricultura brasileira, em toda a sua diversidade, é o solo fértil onde o progressismo pode semear o futuro do país.

E esse futuro precisa de todos nós — no campo e na cidade — unidos por um Brasil mais justo, produtivo e sustentável.

 

Leia também:
A chacina do Rio e o colapso moral do Estado brasileiro

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

Pesquisa