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Prefeito da Cidade de Goiás quer transformar tricentenário em obras e reparação

Aderson Gouvêa quer transformar os 300 anos da Cidade de Goiás em uma agenda de obras, preservação do patrimônio e reparação histórica pela transferência da capital para Goiânia


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 06/06/2026 - 17:48

Prefeito da Cidade de Goiás, Aderson Gouvêa (PT)
Aderson Gouvêa defende que o tricentenário da antiga capital impulsione investimentos e uma agenda de valorização histórica para o município (Foto: Divulgação)

Prefeito da Cidade de Goiás, Aderson Gouvêa (PT) quer transformar os 300 anos do município, celebrados em 2027, em uma agenda de reparação histórica, obras estruturantes e articulação política com o Governo de Goiás, a Assembleia Legislativa e a União. Em entrevista à Tribuna do Planalto, ele defende investimentos no centro histórico, no Rio Vermelho, no turismo, na preservação do patrimônio e na criação de mecanismos permanentes de financiamento para cidades históricas. Um dos três prefeitos petistas de Goiás, Aderson também fala sobre a relação com Daniel Vilela, a eleição de 2026, o futuro do PT no Estado e os desafios para impedir que o crescimento turístico coloque em risco o título de Patrimônio Mundial da Humanidade. 

Tribuna do Planalto: Prefeito, a Cidade de Goiás lançou a programação dos 300 anos. Qual será o eixo central da administração nesse período?

Aderson Gouvêa: A cidade está se preparando para as celebrações dos 300 anos. Para isso, instituímos uma comissão com entidades civis, secretarias municipais e pessoas ligadas à cidade. Essa comissão organiza as ações de comemoração, mas também pensa em obras e projetos que deixem legado.

Temos projetos em andamento, como o “Dá da Literatura”, voltado à requalificação de praças e ao incentivo à leitura. Também já licitamos a construção de um portal com características da arquitetura colonial na entrada da cidade. Além disso, há um acordo com a Saneago para universalização de água e esgoto e despoluição do Rio Vermelho.

O objetivo é usar os 300 anos para colocar a Cidade de Goiás em evidência. Foi a primeira capital, foi capital por quase 200 anos e hoje é a única cidade de Goiás reconhecida como Patrimônio Mundial. Tudo isso entra no nosso planejamento.

O senhor tem tratado os 300 anos também como uma pauta de reparação histórica. O que isso significa na prática?

Quando a capital foi transferida para Goiânia, a Cidade de Goiás perdeu muito mais do que a sede administrativa. Perdeu estrutura de governo, empregos públicos, universidades e parte importante de sua vida intelectual. Havia cursos de farmácia, odontologia e direito. Era uma cidade universitária.

A transferência não foi feita de forma dialogada, com garantias de que a antiga capital continuaria prestigiada. A cidade ficou fragilizada e sobreviveu pela força de sua gente, de sua cultura e de quem permaneceu aqui.

Na Constituição de 1935, havia a previsão de que o município seria compensado. Foi elaborado um projeto de lei com medidas para salvaguardar a cidade, mas ele não avançou. Houve uma votação, sem sequência, e a capital acabou sendo transferida por decreto. O que queremos agora é retomar esse debate e atualizar essa reparação para as necessidades atuais.

Há registro do motivo pelo qual o projeto de compensação pela transferência da capital não avançou naquele período?

Há. Jalles Mendonça, do IHGG, no livro A Invenção de Goiânia, narra essa história. Certamente há outros livros também, mas é preciso fazer uma pesquisa mais aprofundada.

Houve uma articulação que acabou impedindo a finalização do projeto, e a cidade ficou no prejuízo. Agora estamos retomando essa história, sabendo da importância da Cidade de Goiás como guardiã da memória e de sua contribuição para todo o Estado.

Goiânia hoje é uma capital que cresce a cada dia. Mas o nascedouro foi aqui. Por isso estamos dialogando com a comissão dos 300 anos, com a Assembleia Legislativa e com o Governo do Estado. A Assembleia acolheu bem essa conversa e criou uma frente parlamentar para dar vazão ao trabalho.

Também tivemos audiência com o governador, que se mostrou sensível à causa e entendeu a importância dessa pauta.

O projeto de lei de 1936 já foi localizado? Como ele pode ser atualizado para as demandas de 2026 e 2027?

Nós temos o exemplar do projeto de lei. Ele também está no livro A Invenção de Goiânia, de Jalles Mendonça. Aquelas medidas servem como inspiração, porque mostram que já havia, naquele tempo, a compreensão de que a Cidade de Goiás precisava ser compensada.

Mas a realidade hoje é outra. Na época, falava-se em manter instituições de ensino, garantir água potável, rede de esgoto e incentivar atividades econômicas. Agora precisamos atualizar essa pauta. A cidade precisa de infraestrutura, melhoria das galerias pluviais, recuperação do calçamento histórico, proteção contra enchentes, investimento em cultura, turismo e educação.

Um encaminhamento do Governo do Estado é a criação de um grupo de trabalho, com representantes do município, do Estado e do Iphan. Esse grupo vai estudar o que era previsto no projeto original, o que ainda faz sentido e quais são as demandas mais urgentes da cidade hoje.

O Governo de Goiás propôs a criação de um grupo de trabalho para discutir essa pauta. Como o senhor avaliou essa sinalização?

Avaliei muito positivamente. O governador poderia dizer que essa história ficou para trás, mas não fez isso. Ele demonstrou sensibilidade e reconheceu o papel histórico da Cidade de Goiás.

A criação de um grupo de trabalho é o melhor caminho. O projeto original foi interrompido há 90 anos, e a realidade de hoje exige atualização. Esse grupo poderá reunir município, Estado e Iphan para estudar o que era previsto naquele momento, o que ainda faz sentido e quais são as demandas atuais da cidade.

O fato de o Governo se colocar aberto ao tema já é uma vitória importante. Um eventual projeto de lei precisa nascer no Executivo estadual, por isso a participação do governador é fundamental.

Requalificação do centro histórico, Rio Vermelho e curso de medicina estão entre as demandas citadas pelo senhor. Essas pautas são inegociáveis para a Prefeitura?

São pautas importantes para o momento atual da cidade. A Cidade de Goiás precisa desenvolver melhor seu maior potencial, que é o turismo, mas também precisa de intervenções estruturantes.

O centro histórico precisa de requalificação. O Rio Vermelho exige atenção permanente. A cidade também precisa avançar como polo universitário. O curso de medicina é um sonho local e faz sentido pela estrutura que já temos, com UFG, outras instituições de ensino, policlínica, UTI e uma rede de saúde que pode ser fortalecida.

A Cidade de Goiás é reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade. Esse título ajuda na captação de recursos ou ainda tem peso mais simbólico do que prático?

O título ajuda, mas ainda não garante recursos permanentes. Ele reconhece a importância da cidade diante do mundo, projeta Goiás para o turismo e abre portas. Muita gente viaja justamente para conhecer cidades com esse reconhecimento.

O problema é que, no Brasil, ainda não existe uma fonte fixa de financiamento para cidades patrimônio mundial. Essa é uma luta nossa. O título abre possibilidades, mas precisamos buscar recursos caso a caso. Por isso defendemos a criação de um fundo específico para manutenção dessas cidades.

As cidades patrimônio mundial defendem acesso a fontes permanentes de financiamento. Como esse debate tem avançado junto à União?

Essa é uma pauta constante da Organização das Cidades Brasileiras Patrimônio Mundial. No governo Dilma, houve o PAC das Cidades Históricas, que foi muito importante. A Cidade de Goiás recebeu cerca de R$ 30 milhões para recuperar seis prédios e espaços públicos.

Mas isso precisa ter continuidade. Defendemos a criação de um fundo permanente, tanto na União quanto no Estado. Goiás é a única cidade do Estado reconhecida como Patrimônio Mundial. No Centro-Oeste, temos Goiás e Brasília. Se houver um fundo para cidades históricas, não será bom apenas para Goiás, mas para outros municípios que também preservam a memória do Estado.

Isso é valorizar a cultura, valorizar o povo. Um povo, um Estado que não reconhece a sua cultura e a sua história, é um povo que não tem futuro. Isso é muito importante.

O governador Daniel Vilela é do MDB e apoia um campo político diferente do PT na eleição presidencial. O senhor teme que a disputa de 2026 contamine a agenda dos 300 anos?

Não acredito que a eleição de 2026 vá contaminar essa pauta. Da nossa parte, vamos tratar o tema com maturidade. Eu represento o município e o governador Daniel representa o Estado. Existem pautas que estão acima da disputa partidária.

A Cidade de Goiás vai completar 300 anos e tem importância para toda a história do Estado. A política eleitoral tem seu lugar, mas essa agenda precisa ser tratada em outro patamar. Faremos tudo para que não haja contaminação do ambiente eleitoral.

O PT elegeu apenas três prefeitos em Goiás. Isso mostra resistência do partido no interior ou dificuldade de ampliar presença em um Estado conservador?

É uma questão complexa. O PT já governou mais municípios em Goiás, mas o Estado vive uma conjuntura conservadora. Ainda assim, onde as pessoas têm a oportunidade de conhecer uma gestão petista, a resistência diminui.

Na Cidade de Goiás, estamos no quarto mandato seguido do PT. Era uma cidade tida como conservadora, mas o nosso modelo de gestão, mais inclusivo e voltado às pessoas, conseguiu superar essa barreira. Em Itapuranga, o prefeito foi reeleito. Em Professor Jamil, também há uma trajetória de continuidade. Onde o modo petista de governar é experimentado, ele mostra resultado.

O governo do presidente Lula também ajuda a recolocar esse debate. É um governo que combina inclusão social, fortalecimento da educação e desenvolvimento econômico. O país viveu uma polarização muito maléfica, e Goiás também precisa superar isso.

A Cidade de Goiás está no quarto mandato seguido de gestões petistas. A que o senhor atribui essa continuidade?

Atribuo isso a um modelo de administração que olha para as pessoas. Criamos políticas públicas que dialogam com os anseios da população e abrimos espaço para temas importantes dentro da gestão. Criamos a Secretaria das Mulheres e a Secretaria da Igualdade Racial em uma cidade com maioria negra.

Também há uma história local que ajuda a explicar isso. A Cidade de Goiás teve uma forte presença da Igreja Católica nos anos 1970 e 1980, discutindo os problemas reais da comunidade, a luta pela terra e a formação dos trabalhadores. Depois vieram as universidades, que contribuíram para formar um povo mais crítico.

Mesmo com limitações orçamentárias, temos conseguido atrair recursos e parcerias. As informações que temos indicam uma avaliação positiva na casa dos 60%, algo próximo da votação que tivemos.

Já é possível discutir a sucessão municipal?

Ainda não é hora de discutir nomes. É claro que queremos que esse modelo continue. Dentro do grupo, pensamos na sucessão como projeto, mas não como escolha de candidato neste momento.

A cidade precisa seguir preservando sua memória, mas também olhando para a frente. Nosso objetivo é fortalecer o turismo, melhorar a vida das pessoas e fazer com que a economia local avance.

A vice-prefeita Zilda Lobo, filiada ao Progressistas, pode ser considerada uma opção para sucedê-lo?

Ainda não aprofundamos essa discussão. Quero manter o foco na gestão e na defesa das pautas do município. Teremos eleições nacionais e estaduais pela frente, que também vão definir muita coisa. A sucessão municipal será discutida no momento certo.

O PT ainda não definiu um nome para disputar o Governo de Goiás. Como o senhor avalia esse processo?

É uma discussão complexa e está mais concentrada na direção do partido. Existem nomes, mas é preciso avaliar bem o cenário. Também há uma preocupação com o fortalecimento da bancada federal e do Congresso.

Adriana Accorsi, por exemplo, é um excelente nome. É uma mulher forte, competente, madura e que já demonstrou capacidade política. Mas o partido precisa avaliar o que é mais importante neste momento. O PT sempre disputou, e acredito que nos próximos dias ainda teremos novidades.

O senhor defende candidatura própria do PT ao governo ou uma composição com partidos de centro-esquerda?

O PT é um partido de diálogo. Defendemos um nome do partido, mas nada impede que surja, de partidos aliados de centro-esquerda, um nome capaz de nos representar.

O presidente Lula precisa de um palanque forte em Goiás. A reeleição dele é importante para a continuidade da democracia no Brasil. Não podemos abrir mão dessa discussão no Estado. É preciso defender a democracia e um projeto nacional de desenvolvimento.

A especulação imobiliária tem avançado em cidades turísticas. A Cidade de Goiás monitora esse movimento para evitar impactos no patrimônio histórico?

Sim. A procura pela cidade cresceu. Goiás está sendo mais visitada e isso atrai empreendedores. Estamos finalizando a discussão do plano diretor justamente para permitir que a cidade cresça sem perder o controle.

Queremos fortalecer o turismo, mas sem colocar em risco o título de Patrimônio Mundial. A Cidade de Goiás é histórica, tem características próprias e precisa preservar seu formato. A especulação imobiliária vai existir, mas terá que respeitar regras para que a cidade não perca sua identidade.

O senhor acredita que Governo de Goiás, União e Prefeitura podem construir uma agenda comum para os 300 anos?

Estou muito confiante. O aniversário é em julho de 2027, mas todo o ano será marcado pelos 300 anos. E nós não vamos começar só lá. As articulações já começaram e têm sido positivas.

Precisamos manter essa construção em parceria, envolvendo município, Estado, União e a sociedade. A Cidade de Goiás é Patrimônio Mundial. Não é apenas uma pauta vilaboense, estadual ou brasileira. É uma responsabilidade nacional. O Ministério da Cultura também tem papel importante nessa agenda.

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