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PT em Goiás: tradição democrática, impasses internos e o desafio de entrar em campo rumo ao Palácio das Esmeraldas

Um projeto bem estruturado do PT e do campo progressista em Goiás será positivo não apenas para o partido, mas para a qualidade do debate público eleitoral


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 25/02/2026 - 09:28

PT
O debate no PT é, portanto, extremamente amplificado

O Partido dos Trabalhadores (PT) é um partido histórico da política brasileira, fundado em 1980, no contexto da redemocratização do país. Sua formação se deu, principalmente, nas bases da Igreja Católica — especialmente nas Comunidades Eclesiais de Base —, entre os movimentos sindicais do ABC paulista e com forte influência de intelectuais da Universidade de São Paulo (USP). Essa combinação de militância popular, organização sindical e reflexão acadêmica moldou o DNA do partido: participação de base, debate político intenso e formulação programática estruturada.

Ao longo de sua trajetória, o PT preservou características marcantes de democracia interna e amplo debate. Suas decisões estratégicas, via de regra, são precedidas de plenárias, encontros e congressos nos quais o confronto de ideias prevalece. Trata-se de uma cultura organizativa que valoriza o contraditório e busca legitimar suas decisões por meio da construção coletiva.

Em Goiás, o partido conta hoje com nomes consolidados na cena política, como Adriana Accorci, Rubens Otoni, Bia de Lima, Mauro Rubens, Antônio Gomide, Fabrício Rosa, Kátia Maria, Edward Madureira, Delúbio Soares, Olavo Noleto, Luiz Cezar Bueno, entre outros quadros com trajetória partidária e inserção social. São lideranças com experiências diversas — no parlamento, na gestão pública, na militância social e na vida acadêmica — que compõem um leque significativo de possibilidades para a disputa majoritária.

A organização interna do PT se estrutura a partir de seu Diretório Regional, instância máxima de deliberação no estado, além de secretarias temáticas que organizam a atuação em áreas como organização, comunicação, formação política, finanças, mulheres, juventude e movimentos sociais. Um elemento central da dinâmica petista são as chamadas “tendências”: correntes internas organizadas, com coordenações próprias e linhas políticas definidas, que atuam dentro da estrutura geral do partido. Essas tendências expressam visões distintas sobre estratégia, alianças e rumos programáticos — e é natural que, em determinados momentos, divirjam entre si.

O debate no PT é, portanto, extremamente amplificado. Se, por um lado, essa característica fortalece a legitimidade das decisões e garante densidade política às candidaturas, por outro pode tornar o processo decisório mais lento. A construção de consensos demanda tempo, negociação e maturação interna.

Esse ritmo mais cauteloso ocorre justamente em um momento delicado do cenário estadual. Talvez pela ausência, até aqui, de um posicionamento político-eleitoral claro do PT em Goiás sobre a disputa ao governo, o ambiente de pré-campanha vem se consolidando como uma polarização entre dois polos da direita. De um lado, o chamado “Caiadismo”, liderado pelo governador Ronaldo Caiado e que deve ser representado por Daniel Vilela; de outro, o campo alinhado ao bolsonarismo, que tende a ter como nome o senador Wilder Morais.

Há ainda a força eleitoral do ex-governador Marconi Perillo, que já sinalizou publicamente, em diversas ocasiões, que refuta qualquer aliança com o PT e com a base mais fiel do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Goiás. Sua movimentação reforça a fragmentação do campo não alinhado ao atual governo estadual, mas também impõe limites objetivos para composições mais amplas.

Nesse contexto, a ausência de uma definição clara por parte do PT pode estar contribuindo para que a disputa, neste momento crucial de pré-campanha, se organize predominantemente entre forças conservadoras. O risco é que um eleitorado consistente, identificado com o projeto nacional liderado por Lula e com uma agenda progressista para Goiás, fique sem referência clara e acabe disperso ou desmobilizado. Trata-se de um capital político que poderia estar sendo melhor trabalhado na consolidação de um projeto alternativo ao Palácio das Esmeraldas.

Enquanto isso, outras forças já se movimentam com maior nitidez estratégica. As articulações estão em curso, os palanques começam a ser desenhados e a narrativa eleitoral ganha contornos cada vez mais definidos. O PT, por sua vez, ainda não conseguiu “entrar no gramado” com a mesma objetividade.

Para além de resolver sua definição interna, o partido tem ainda a missão de organizar o campo de alianças das legendas que compõem a base do presidente Lula em Goiás, como o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Partido Verde (PV) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), além da possibilidade de diálogo com setores de centro, a depender da estratégia construída.

Hoje, o PT declara publicamente que existem dois nomes no páreo para a disputa ao governo de Goiás: o ex-reitor da Universidade Federal de Goiás, professor Edward Madureira, e o advogado Valério Luiz Filho. No entanto, ainda não há indicação clara de quem será o escolhido para liderar o projeto.

Na política, não existe o “cedo demais”; existe apenas o “tarde demais”. A demora na escolha de um nome — seja no âmbito do PT, seja no conjunto da base de apoio do presidente Lula em Goiás — dificulta a formação de alianças, a definição de estratégia, a capilarização da pré-campanha e a consolidação de uma narrativa pública.

Um projeto bem estruturado do PT e do campo progressista em Goiás será positivo não apenas para o partido, mas para a qualidade do debate público eleitoral e para o fortalecimento da democracia no estado. Afinal, eleições competitivas e com alternativas programáticas claras elevam o nível do confronto de ideias — e isso é sempre saudável para a sociedade.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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