Conheci Eduardo Leite ainda muito jovem, quando era vereador em Pelotas. Ele foi a Goiânia para um congresso nacional da juventude da social-democracia, e foi ali que nos conhecemos. Desde aquele primeiro contato, já se destacava não pelo improviso, mas pela consistência, pela escuta atenta e pela capacidade de articulação.
Algum tempo depois, tornou-se prefeito de Pelotas em uma vitória surpreendente. Sua trajetória, porém, nunca foi feita de atalhos. Na primeira eleição, não conseguiu se eleger vereador, ficando como suplente. Apenas na segunda tentativa conquistou uma cadeira na Câmara Municipal. Chegou à presidência da Casa e, mais tarde, à prefeitura. Um percurso que revela resiliência — qualidade cada vez mais rara na política contemporânea.
Quando era prefeito, tive a honra de recebê-lo em Nerópolis. Ao lado da juventude nacional do PSDB, participou de uma feijoada solidária que eu promovia em meus aniversários. A proposta era simples: reunir amigos e incentivar doações para a Casa da Sopa de Nerópolis, apoiando pessoas em situação de vulnerabilidade. Eduardo sempre demonstrou sensibilidade social — algo que não se ensina, apenas se revela.
Mesmo bem avaliado e com reeleição praticamente garantida, decidiu não disputar um segundo mandato. Manteve coerência com o que defendia publicamente, apoiou sua vice — que acabou eleita — e seguiu para o exterior para aprimorar sua formação. Em um ambiente político frequentemente marcado pelo apego ao poder, esse gesto ganha ainda mais relevância.
De volta ao Brasil, iniciou mais um capítulo improvável. Ao lançar candidatura ao governo do Rio Grande do Sul, poucos acreditavam em sua vitória. Lembro de uma reunião em Brasília, com coordenadores da campanha de Geraldo Alckmin, em que Eduardo ainda era visto como um nome periférico dentro do partido. A política, no entanto, costuma surpreender.
No auge do bolsonarismo e em meio à crise do PSDB, foi eleito governador, contrariando previsões. Em certa ocasião, perguntei se ele havia sido o mais jovem a ocupar o cargo. Com precisão, citou Getúlio Vargas como alguém que chegara antes, ainda mais jovem. A resposta revela não apenas conhecimento histórico, mas também senso de perspectiva.
Seu primeiro mandato foi consistente e ampliou sua projeção nacional. Em um cenário político cada vez mais polarizado, marcado por disputas de narrativa e radicalização, passou a ser visto por setores do PSDB como uma alternativa viável à Presidência da República.
Para disputar as prévias do partido, tomou uma decisão que merece registro: afastou-se do cargo de governador do Rio Grande do Sul, deixando claro que não utilizaria a máquina pública em benefício próprio e reafirmando seu respeito às regras democráticas. Ainda assim, acabou preterido pelos caciques partidários, que optaram por João Doria em um processo de prévias contestado. Posteriormente, com a desistência de Doria, tentaram lançá-lo às pressas como candidato. Eduardo recusou — não por falta de disposição, mas por leitura estratégica — e decidiu disputar novamente o governo estadual.
Na eleição, enfrentou dois polos da política nacional: de um lado, Onyx Lorenzoni, ex-ministro de Jair Bolsonaro; de outro, Edgar Pretto. Venceu ambos, superando a polarização e retornando ao Palácio Piratini com legitimidade renovada.
Com o tempo, assumiu a presidência nacional do PSDB, mesmo diante de resistências internas. Mais tarde, deixou o cargo para se dedicar integralmente ao governo estadual. Ao perceber o esgotamento de seu espaço no partido, conduziu sua saída com equilíbrio, sem rupturas.
Seu destino foi o PSD, liderado por Gilberto Kassab, um dos mais habilidosos articuladores do país. Ali, passou a dividir protagonismo com outros governadores bem avaliados, como Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado — nomes colocados como possíveis candidatos à Presidência.
No caso de Ratinho Júnior, que em determinado momento era visto como favorito dentro do PSD para uma candidatura ao Palácio do Planalto, o cenário mudou. As condições políticas no Paraná tornaram-se mais adversas após rearranjos locais que fortaleceram outros grupos competitivos, o que levou o governador a priorizar sua permanência no cargo até o fim do mandato. Sua estratégia, agora, concentra-se em preservar a força política de seu grupo no estado, garantindo continuidade administrativa e competitividade regional.
Já Ronaldo Caiado merece um registro especial. Governador de perfil firme e liderança consolidada, ele deverá entregar a Goiás ao seu sucessor, Daniel Vilela, uma base política robusta: múltiplos nomes competitivos para o Senado, uma disputa de alto nível para a vice-governadoria e chapas estruturadas tanto para a Assembleia Legislativa quanto para a Câmara dos Deputados. Caiado construiu essa musculatura com forte apoio do agronegócio brasileiro — setor que conhece como poucos. Sua trajetória remonta à tradição política que ajudou a organizar o agro no país, sendo reconhecido como uma das vozes que contribuíram para a consolidação dessa força no Congresso Nacional, hoje representada por uma das bancadas mais influentes do Parlamento. Não por acaso, lideranças do setor reconhecem sua contribuição histórica e sua capacidade de articulação.
Nesse contexto, uma aproximação entre Caiado e Eduardo Leite pode se revelar estratégica para o centro democrático brasileiro. Mais do que uma aliança eleitoral, trata-se da possibilidade de construção de um projeto que, com densidade política e capilaridade nacional, consiga ultrapassar a dicotomia que hoje domina o debate público — uma alternativa real à polarização entre bolsonarismo e lulismo.
O PSD já sinaliza a intenção de ter candidatura própria, buscando romper a lógica binária que domina o país. E é nesse contexto que surge a pergunta: por que Eduardo Leite pode ser a escolha mais estratégica?
Primeiro, pela trajetória. Representa uma renovação construída na base, sem heranças políticas ou atalhos, marcada por consistência e vitórias improváveis.
Segundo, pela capacidade de diálogo. Em um país dividido, sua postura equilibrada, distante de radicalismos, pode funcionar como ponte entre campos que já não se escutam.
Terceiro, pelos dados. Pesquisas qualitativas indicam alto potencial de crescimento, especialmente entre eleitores cansados da polarização e ainda indecisos.
Por fim, há o fator geracional. O Brasil precisa começar a olhar para o futuro além das figuras que dominam o cenário há décadas. Reconheço méritos no atual governo, especialmente na composição com Geraldo Alckmin, mas é evidente que o país segue dividido, o que impacta diretamente a governabilidade.
Talvez seja o momento de experimentar algo novo — não como ruptura irresponsável, mas como renovação consciente. Um projeto que una experiência administrativa, compromisso democrático e capacidade de diálogo.
Nesse cenário, Eduardo Leite não surge como aposta, mas como construção. E, se bem conduzido, pode ser o nome capaz de ajudar o Brasil a sair do impasse e reencontrar o equilíbrio.



Por Rodrigo Zani em 24/03/2026 - 11:28










