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Ser de esquerda no Brasil: uma escolha histórica e moral

O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, mas também uma das mais desiguais.


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 16/07/2025 - 08:08

Ser de esquerda no Brasil não é uma questão de moda, de identidade de grupo ou de simples posicionamento ideológico. É, sobretudo, um posicionamento ético diante de uma história marcada pela concentração de privilégios, pela desigualdade e pela exclusão social sistemática. Para entender por que me coloco como um social-democrata, um progressista moderado, é preciso revisitar nossa trajetória como nação — desde os tempos coloniais até os dias atuais.

Nosso país nasceu sob o signo da exploração. Durante o período colonial, Portugal estruturou sua presença aqui em torno da pilhagem de riquezas naturais, do extrativismo predatório e da escravidão como pilar econômico e social. Os privilégios eram concentrados em uma elite branca e europeia, enquanto a imensa maioria da população — formada por indígenas e africanos escravizados — era subjugada e desumanizada. Essa herança brutal atravessou os séculos, moldando o Brasil como uma das sociedades mais desiguais do planeta.

Com a abolição formal da escravidão em 1888, não houve reparação, inclusão ou redistribuição. A população negra foi simplesmente largada à própria sorte, sem terra, sem educação, sem trabalho digno. O Brasil manteve sua estrutura social excludente com a consolidação da República dos Coronéis, marcada pela violência política, pelo clientelismo e pela perpetuação de uma elite agrária no poder. Os povos indígenas, por sua vez, continuaram sendo sistematicamente assassinados, expulsos de suas terras e apagados de nossa memória oficial.

Nesse cenário de injustiça histórica, os raros momentos em que o Estado se voltou para os mais pobres são marcos a serem defendidos. Getúlio Vargas, ainda que com contradições, foi o primeiro a institucionalizar uma rede de proteção aos trabalhadores, criando direitos que até hoje sustentam a dignidade de milhões. Juscelino Kubitschek, com seu projeto modernista, impulsionou a industrialização e promoveu o desenvolvimento do interior do país com a construção de Brasília. João Goulart, por sua vez, pagou caro por tentar ir além: suas reformas de base, que buscavam redistribuir renda e democratizar o acesso à terra e à educação, foram duramente atacadas pelas elites conservadoras e acabaram sendo enterradas pelo golpe civil-militar de 1964.

A ditadura militar que se seguiu aprofundou as desigualdades, suprimiu as liberdades civis e perseguiu os que lutavam por justiça social. Foi apenas com a mobilização popular das Diretas Já e a eleição simbólica de Tancredo Neves, em 1985, que o Brasil começou a trilhar novamente o caminho da democracia. A Constituição de 1988 marcou um novo pacto social, dando espaço a um projeto de país mais justo, inclusivo e plural.

Os governos de Fernando Henrique Cardoso representaram uma etapa importante desse processo. Sua atuação pragmática consolidou o Plano Real, estabilizou a economia e implantou políticas sociais relevantes como o Bolsa Escola e o Fundef. FHC soube exercer a política com diálogo e responsabilidade institucional, fortalecendo a democracia e promovendo avanços dentro de uma lógica de centro moderado. Sua contribuição para a estabilidade do país e para a construção de pontes entre diferentes setores políticos é inegável.

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi um divisor de águas. Um operário, ex-metalúrgico, chegava à presidência pela força do voto popular, levando consigo a esperança de milhões de brasileiros que nunca antes haviam se sentido representados no poder. Sob seu governo, o Brasil viveu um período de crescimento com distribuição de renda, redução da pobreza extrema, valorização do salário mínimo e expansão de políticas sociais. Lula foi sucedido por Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente da República, que deu continuidade ao projeto progressista.

Infelizmente, a reação conservadora não tardou. O impeachment de Dilma Rousseff, embora tenha seguido os ritos formais, foi fruto de uma manobra política que visava interromper o ciclo de inclusão social iniciado nos anos 2000. O resultado foi desastroso: o vácuo democrático foi preenchido pelo avanço do bolsonarismo, que reacendeu os fantasmas do autoritarismo, do negacionismo, da intolerância e da desigualdade como projeto de governo.

Diante dessa longa trajetória de injustiças, retrocessos e lutas, ser de esquerda no Brasil se tornou, para mim, uma obrigação moral. Defendo uma esquerda democrática, moderada, comprometida com a justiça social e com o fortalecimento das instituições. A social-democracia é, hoje, o melhor caminho para reconstruir um país mais igualitário, onde o Estado atue para corrigir desigualdades históricas e garantir direitos básicos para todos.

O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, mas também uma das mais desiguais. Essa contradição é insustentável. A luta por justiça social não é ideológica — é cívica, é patriótica, é uma exigência ética diante de nossa história.

É por isso que sou de centro-esquerda. É por isso que sou social-democrata. Porque acredito que o futuro do Brasil passa, inevitavelmente, por mais democracia, mais inclusão e mais justiça social.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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