Como dizem lá na roça: “catitu fora do bando vira presa fácil pra onça.” Essa sabedoria simples, passada de geração em geração, explica com clareza um princípio essencial para a sobrevivência e o fortalecimento da agricultura familiar: a união.
Falo isso não apenas como produtor, mas como alguém que dedicou boa parte da vida à gestão pública e à política em Goiás. Iniciei minha trajetória no governo aos 18 anos e encerrei aos 33. Foram 15 anos de aprendizado intenso, começando lá de baixo — estagiário do curso de Direito na antiga Secretaria de Estado do Planejamento e Desenvolvimento. Depois, atuei como assistente técnico da comissão de licitação, gerente de mobilização social da Secretaria de Articulação Institucional, assessor especial da Governadoria e, por fim, chefe de gabinete da FAPEG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás).
Essas experiências me ensinaram o funcionamento da máquina pública, o valor da técnica e a importância da boa gestão para que as políticas públicas cheguem, de fato, a quem mais precisa.
Também vivi, modestamente, o outro lado: o da política partidária. Fui secretário-geral e, depois, presidente da Juventude da Social Democracia em Goiás, além de dirigente do diretório estadual do PSDB. Estive à frente de diversas campanhas, articulando mobilizações políticas e sociais. Essa vivência me deu uma compreensão clara da dinâmica política goiana, seus desafios e suas potencialidades.
Hoje, não tenho mais vínculos com partidos políticos. Minha atuação se concentra nas questões institucionais, especialmente voltadas à agricultura familiar — causa que escolhi defender por acreditar que dela depende o futuro do campo e da alimentação do nosso povo. Apesar de ter deixado a vida partidária para trás, mantenho os mesmos princípios que me motivaram a ingressar na política: a busca por uma sociedade mais justa, inclusiva e democrática. São esses valores que ainda orientam minha atuação, agora de forma independente, mas sempre comprometida com o bem comum.
Ao deixar o governo, troquei os gabinetes e os ternos pela vida simples e honesta na roça. Fui viver no Sítio Cabeceira do Capivara, que pertenceu ao meu avô, Geraldo Gomes de Morais. Lá, tornei-me produtor da agricultura familiar, dedicando-me à produção de leite, milho e quiabo.
O começo foi duro. Enfrentei muitas dificuldades técnicas, sem orientação nem apoio. Foi nesse período que percebi, de forma dolorosa, a ausência de políticas públicas efetivas voltadas à agricultura familiar em Nerópolis. Essa realidade me marcou profundamente e me fez compreender, na prática, o quanto o produtor familiar está desamparado quando não há apoio institucional consistente.
Foram cinco anos de aprendizado verdadeiro. A roça ensina valores que a cidade muitas vezes esquece: caráter, paciência, resiliência, respeito ao tempo da natureza e ao meio ambiente. Durante esse período, a agricultura familiar foi minha única fonte de sustento e a base do aprendizado que levo comigo até hoje.
Mesmo com as mãos na terra, o olhar de gestor público e de cidadão continuava atento. Passei a observar o quanto as políticas públicas fazem diferença no dia a dia do produtor. Sem apoio institucional, o agricultor familiar enfrenta sozinho um mercado cada vez mais competitivo, caro e tecnológico. E sozinho, como diz o ditado, “vira presa fácil pra onça”.
Nesse caminho, tive a oportunidade de fortalecer ainda mais minha relação com as entidades representativas do setor. Fui diretor de Agricultura da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agricultura de Nerópolis (ACIANER), função que exerci com grande carinho e responsabilidade, buscando aproximar o comércio local dos produtores e fomentar iniciativas de integração produtiva. Também conduzi a assembleia de fundação do Sindicato Rural de Nerópolis, um passo importante na organização da classe, que infelizmente não pude levar adiante por questões pessoais. Ainda assim, guardo enorme respeito e admiração pela Faeg, e em especial pela Faeg Jovem, que desenvolve um trabalho inspirador na formação de novas lideranças do campo.
Mais recentemente, encontrei na UNICAFES (União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária) um espaço de aprendizado e contribuição. Atuei como secretário de formação política e, hoje, sou gestor de projetos da entidade, empenhado em fortalecer cooperativas e ampliar as oportunidades para os pequenos produtores. Essas experiências reforçaram minha convicção de que a sociedade civil organizada desempenha papel decisivo na formulação e implementação de políticas públicas voltadas à agricultura familiar. É no diálogo permanente entre o poder público e as organizações representativas que surgem as soluções mais duradouras e eficazes para o campo.
A agricultura familiar é o coração do campo brasileiro. Emprega milhões de pessoas, movimenta as economias locais e garante comida boa e acessível na mesa do povo. Mas, para que continue forte, depende de gestores comprometidos, entidades organizadas e cooperação entre os produtores.
Organizar os pequenos agricultores exige habilidade, técnica e experiência. A formação de cooperativas, associações e comitês é essencial para enfrentar os desafios da comercialização, da inovação tecnológica e do crédito rural.
Recentemente, tive a alegria de participar da Primeira Feira de Agricultura Familiar de Goiânia. Fomos muito bem recebidos, e dali nasceu uma ideia promissora: a criação de um Comitê de Gestores da Agricultura Familiar da Região Metropolitana de Goiânia.
A proposta é simples, mas poderosa: reunir gestores municipais, entidades e lideranças do setor para compartilhar experiências, propor ações integradas e ampliar o poder de articulação da agricultura familiar. Para que esse projeto saia do campo das ideias e se torne realidade, será indispensável o apoio institucional das entidades representativas e dos governos municipais, garantindo estrutura e legitimidade para que o comitê tenha continuidade e impacto real nas políticas públicas locais.
Esse fortalecimento ganha ainda mais relevância no contexto atual. No ano em que o Brasil sedia a COP 30, a agricultura familiar ocupará lugar de destaque nos debates nacionais e internacionais sobre sustentabilidade, segurança alimentar e transição ecológica. O mundo voltará os olhos para o país que alimenta sua população com base em pequenas propriedades — e essa visibilidade precisa ser acompanhada de ações concretas. Todas as formas de apoio — técnico, financeiro e institucional — devem ser ampliadas e fortalecidas para garantir a sobrevivência desse setor da economia que alimenta o povo, protege as florestas e promove justiça social.
Porque, como aprendemos lá na roça, catitu fora do bando vira presa fácil pra onça. Unidos, somos mais fortes. Unidos, garantimos que a agricultura familiar continue sendo sinônimo de dignidade no campo, de comida saudável na mesa, de respeito à biodiversidade e de justiça social e democracia.














