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Zezé di Camargo: um gigante da música que não precisa desafinar na política

Zezé é também um representante simbólico do agronegócio brasileiro


Rodrigo Zani Por Rodrigo Zani em 17/12/2025 - 13:11

Zezé
A música de Zezé permanecerá. A política, não

Zezé di Camargo é, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da música brasileira. Sua trajetória é conhecida: origem simples, infância marcada por dificuldades, trabalho desde muito jovem e uma obstinação rara que o levou, ao lado do irmão Luciano, ao topo da música sertaneja. O sucesso não veio por acaso; veio de talento, persistência e conexão genuína com o povo brasileiro.

Ele é orgulho da música sertaneja, orgulho de Goiás e símbolo de um Brasil profundo que canta suas dores, suas alegrias e sua identidade. Zezé levou o universo sertanejo para todos os cantos do país e para o mundo — e, junto com ele, levou também o nome de Goiás, suas raízes e sua cultura.

Falo disso, inclusive, com um sentimento pessoal. Fui vizinho do pai de Zezé, o Seu Francisco, no Jardim América, em Goiânia. Conheci o Seu Francisco e alguns parentes da família. Zezé é “gente nossa”, alguém que nunca esteve distante da realidade do povo simples que o acolheu e o consagrou. Isso torna sua voz ainda mais potente — e, por isso mesmo, mais responsável.

É justamente por essa grandeza que causa estranheza vê-lo se aproximar do bolsonarismo. Um movimento político que, hoje, carrega o peso de investigações graves, condenações de aliados, ataques às instituições democráticas e uma tentativa explícita de ruptura institucional. Em um país continental como o Brasil, com histórico autoritário, a assimilação da gravidade desses atos é lenta — mas o que ocorreu não foi trivial. Houve tentativa de golpe de Estado, e isso é algo que a história não relativiza.

Zezé se envolveu, equivocadamente, em uma polêmica recente ao criticar as filhas de Silvio Santos pelo espaço dado ao presidente Lula. Trata-se de um erro político e institucional. Lula foi eleito pela maioria do povo brasileiro, está em seu terceiro mandato e ocupa, legitimamente, a Presidência da República. Independentemente da posição ideológica de qualquer cidadão — inclusive artistas — o respeito à figura do presidente não é opcional: é parte do pacto democrático.

É verdade que Zezé pediu desculpas públicas após a repercussão negativa. O gesto é importante, mas insuficiente. Mais do que pedir desculpas, é preciso repensar posições, reavaliar alianças e corrigir rotas. Figuras públicas não falam apenas por si; falam para milhões.

Zezé é também um representante simbólico do agronegócio brasileiro. É compreensível, portanto, que tente não vincular sua imagem ao PT ou ao presidente Lula, especialmente diante da narrativa construída pela extrema direita — com certa leniência da esquerda — de que o PT seria “inimigo do agro”. Mas essa narrativa não resiste aos fatos.

Se o governo Lula fosse contra o agronegócio, por que teria aberto mais de 500 novos mercados internacionais para os produtos brasileiros? Por que teria lançado, sucessivamente, planos safra recordes? Por que teria atuado diplomaticamente para proteger as exportações brasileiras diante de barreiras comerciais e tensões internacionais? Não faz sentido sustentar um discurso ideológico que contradiz frontalmente a prática concreta do governo federal.

O que há, na verdade, é uma ampliação da agenda: o agronegócio segue fortalecido, enquanto a agricultura familiar — historicamente negligenciada — também passa a ocupar espaço. Isso não é ameaça; é maturidade econômica e social.

Zezé di Camargo já fez história. Sua obra atravessa gerações, inspira milhões e está definitivamente inscrita na cultura brasileira. Justamente por isso, não há necessidade — nem ganho — em atrelar sua imagem a líderes ou movimentos políticos marcados por autoritarismo, ressentimento institucional e desprezo pela democracia.

O tempo passa, os fatos se impõem e a história, cedo ou tarde, esclarece tudo. A música de Zezé permanecerá. A política, não. Que ele siga sendo lembrado pelo que sempre fez de melhor: cantar o Brasil — e não desafinar diante dele.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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