No dia 19 de junho celebra-se o Dia do Cinema Brasileiro, data que remete à primeira filmagem realizada em território nacional, atribuída ao italiano radicado no Brasil Afonso Segreto, que em 1898 registrou imagens da Baía de Guanabara a bordo de um navio que chegava ao Rio de Janeiro. Desde então, o cinema brasileiro percorreu uma trajetória marcada por desafios, reinvenções, conquistas e pela permanente busca de sua identidade cultural própria.
Ao longo de mais de um século, o Brasil produziu obras que ultrapassaram fronteiras e projetaram o país para o mundo. De clássicos como O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962, passando pelo impacto do Cinema Novo de Glauber Rocha, até sucessos contemporâneos como Central do Brasil, Cidade de Deus, Tropa de Elite, Bacurau, Ainda Estou Aqui e tantas outras produções reconhecidas internacionalmente, o cinema nacional demonstrou capacidade de dialogar com questões universais sem perder suas raízes culturais.
Essa data comemorativa ganha ainda mais significado em Goiás, especialmente neste mês de junho, quando ocorre a 27ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental – FICA, realizado na histórica Cidade de Goiás. Considerado um dos maiores festivais de cinema ambiental do planeta e o principal da América Latina, o evento transformou-se em referência internacional ao unir produção audiovisual, ciência, educação ambiental, cultura popular e debates sobre sustentabilidade.
Mais do que um festival de cinema, o FICA tornou-se um espaço de reflexão sobre os desafios contemporâneos da humanidade. Ao reunir realizadores, pesquisadores, estudantes, povos tradicionais e representantes da sociedade civil, o evento demonstra que o audiovisual pode ser muito mais do que entretenimento: pode ser instrumento de conscientização, preservação da memória e transformação social. A edição de 2026, dedicada ao tema “Água e Clima no Brasil das Nascentes”, reforça essa vocação ao colocar o Cerrado e a crise climática no centro das discussões globais.
O cinema brasileiro vive atualmente um momento de evidente amadurecimento técnico e artístico. A qualidade da fotografia, dos roteiros, dos efeitos visuais, da direção e das atuações alcançou padrões internacionalmente competitivos. A expansão das plataformas digitais permitiu que produções nacionais chegassem a públicos antes inacessíveis, ampliando o alcance das narrativas brasileiras e valorizando a diversidade cultural do país.
Entretanto, apesar dos avanços, permanece um paradoxo que não pode ser ignorado. O Brasil celebra seu cinema, exalta seus festivais e comemora os prêmios conquistados no exterior, mas ainda investe muito menos do que poderia em políticas estruturantes para o setor audiovisual.
A cultura continua sendo frequentemente tratada como despesa e não como investimento. Em diversos momentos da história recente, o setor enfrentou contingenciamentos orçamentários, insegurança regulatória e descontinuidade de políticas públicas fundamentais para a produção cultural. O resultado é a dificuldade enfrentada por milhares de produtores, roteiristas, técnicos, diretores e artistas que lutam diariamente para manter viva uma das mais importantes expressões da identidade nacional.
Não se trata apenas de financiar filmes. Trata-se de incentivar uma cadeia econômica complexa que gera emprego, renda, inovação tecnológica, turismo, educação e projeção internacional. Trata-se de compreender que países que valorizam sua cultura fortalecem sua soberania simbólica e sua capacidade de influenciar o mundo por meio de suas próprias narrativas.
Nesse contexto, festivais como o FICA assumem papel estratégico. Além de fomentar a produção audiovisual, promovem a democratização do acesso à cultura, estimulam o turismo, movimentam a economia local e aproximam a população de debates fundamentais para o futuro da sociedade.
Celebrar o Dia do Cinema Brasileiro é reconhecer a importância de uma arte que ajudou a contar a história do país, denunciou injustiças, retratou transformações sociais e eternizou personagens que fazem parte da memória coletiva nacional.
Mas celebrar também exige reflexão. O reconhecimento dos avanços alcançados não pode servir de justificativa para acomodação. O fortalecimento do cinema brasileiro depende de políticas permanentes, de financiamento estável, de formação de novos talentos e de uma compreensão mais ampla de que cultura não é privilégio, tampouco gasto supérfluo: é patrimônio, desenvolvimento e instrumento de construção da cidadania.
No dia 19 de junho, portanto, a homenagem ao cinema brasileiro deve ir além da lembrança de grandes filmes e cineastas. Deve servir como convite à valorização efetiva da cultura nacional e ao fortalecimento de iniciativas como o FICA, que demonstram, ano após ano, que a arte continua sendo uma das formas mais poderosas de compreender o presente e imaginar um futuro melhor.
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