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Entre a flexibilidade e a sala de aula: nova política de EAD muda rotina de estudantes

Decreto do governo federal amplia atividades presenciais e estabelece novos formatos para a graduação; em Goiás, modalidade já reúne 137,2 mil matrículas e responde por 44,6% do ensino superior


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 15/08/2026 - 20:42

Amanda Rodrigues durante estágio ambulatorial na UBS Alto Paraíso, em Aparecida de Goiânia, em 2025 Foto: Arquivo pessoal

Quando foi contemplada pelo Prouni, Amanda Rodrigues escolheu a Uniasselvi entre as instituições disponíveis. A modalidade de Educação a Distância (EAD) acabou sendo uma opção que se encaixava na rotina da estudante, que trabalhava em regime CLT das 8h às 18h e precisava conciliar o emprego com a graduação em Fisioterapia. Além da flexibilidade, ela se interessou pela metodologia da instituição, que oferecia aulas teóricas on-line ao vivo, com professores disponíveis para tirar dúvidas e interação entre os alunos. 

Amanda começou o curso em 2021 e agora está no 10º e último período de Fisioterapia. Na época, a parte teórica era realizada a distância, enquanto as avaliações ocorriam presencialmente. Para ela, o diferencial estava na forma como as aulas eram conduzidas. “Não eram simplesmente aulas gravadas: eram aulas ao vivo, com professores que estavam presentes, tiravam nossas dúvidas e permitiam uma troca entre os alunos”, relata.

A possibilidade de estudar à noite permitiu que ela mantivesse o emprego enquanto avançava na formação. Além do trabalho e da graduação, ela também tem uma filha. A flexibilidade, segundo a estudante, foi o que tornou possível manter as diferentes responsabilidades.

“Eu tenho filha, trabalho e outras responsabilidades, então ter a possibilidade de realizar a parte teórica on-line me permite organizar melhor os meus horários e não precisar escolher entre estudar, trabalhar ou estar presente com a minha família”, afirma.

A experiência da estudante ocorre no contexto do Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025, que criou os formatos presencial, semipresencial e a distância e estabeleceu como princípios o acesso, a permanência, a aprendizagem e a interação. Para os cursos EAD, a regulamentação determina ao menos 10% da carga horária em atividades presenciais e outros 10% em atividades presenciais ou síncronas mediadas. 

Como ingressou antes da nova regulamentação, Amanda não teve mudanças significativas na reta final do curso. Os encontros presenciais continuam espaçados, o que facilita a conciliação com outras atividades. Para ela, porém, a prática é indispensável à formação. “Na Fisioterapia, existe uma parte prática que precisa ser vivenciada, principalmente porque estamos lidando diretamente com pessoas e pacientes”, afirma.

Durante a graduação, Amanda já passou por estágios em uma UBS e em um estúdio de Pilates, com jornadas de seis horas diárias, e em breve inicia estágio em uma UPA. Para ela, a vivência prática ajudou a transformar o conteúdo estudado on-line em conhecimento aplicado. “Essa combinação entre teoria on-line e prática presencial contribuiu muito para a minha formação”, avalia.

Nova política tenta equilibrar tecnologia, interação e presencialidade

A mudança promovida pelo governo ocorre em um momento em que o EAD já representa parcela expressiva do ensino superior. A nova Política de Educação a Distância estabelece como princípios acesso, permanência, aprendizagem, valorização dos professores, infraestrutura dos polos e interação. O novo modelo também amplia a responsabilidade das instituições sobre estrutura física, tecnológica e de pessoal.

A regulamentação impõe restrições a determinadas graduações. Medicina, Direito, Enfermagem, Odontologia e Psicologia não podem ser ofertados integralmente a distância. Cursos da área da saúde e licenciaturas também passam a ter limitações para a oferta exclusivamente EAD.

Para Amanda, a discussão deve priorizar a qualidade da formação. “Não acho que o caminho seja simplesmente restringir ou acabar com a modalidade EAD, porque ela possibilita que muitas pessoas tenham acesso ao ensino superior, como aconteceu comigo”, afirma. Ela também defende aulas on-line mais interativas e destaca a importância da troca com professores e colegas.

A Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED), no Manifesto EaD & ODS, defende que a regulação priorize qualidade, supervisão, evidências e boas práticas, e não apenas o formato. A entidade também aponta o papel do EAD na ampliação do acesso, sobretudo para estudantes distantes dos grandes centros ou com dificuldades econômicas e territoriais.

Em Goiás, 137.253 estudantes estavam matriculados em cursos EAD em 2023, o equivalente a 44,6% das matrículas do ensino superior. A modalidade cresceu 11,5% em um ano, contra 2,1% no presencial, e concentrou 60,9% das novas matrículas. A rede privada reúne 98,1% das matrículas EAD, enquanto a pública tinha 2.654 estudantes.

Entre os 41,3 mil concluintes da graduação em Goiás em 2023, 37,1% eram de cursos EAD, com crescimento de 28% no número de formandos da modalidade. Ao mesmo tempo, a evasão nacional subiu de 32% em 2014 para 40,1% em 2023, colocando a permanência no centro do debate.

Dados do Observatório do Ensino Superior, coordenado pela Semesp, mostram diferenças no engajamento entre estudantes classificados como “Neutro” e “Diferenciado”. O segundo grupo apresentou índices maiores em todos os indicadores: permanência no acesso (91% contra 46%), desempenho (82% contra 48%), acesso a aulas assíncronas e materiais (100% contra 76%), frequência em aulas síncronas (73% contra 58%) e participação em fóruns (64% contra 50%).

Os dados não permitem atribuir a evasão isoladamente a esses fatores, mas mostram que a qualidade do EAD vai além do acesso à plataforma. Permanência, interação, desempenho e acompanhamento também integram a experiência acadêmica.

Fonte: Observatório do Ensino Superior/Semesp, com base em dados do Inep

Instituições terão prazo para adaptação

A nova regulamentação não representa uma mudança imediata para todos os estudantes. As instituições têm prazo para adaptação às novas regras e precisam ajustar seus cursos, projetos pedagógicos, infraestrutura e processos acadêmicos às exigências do novo marco.

Para a reportagem, foram procuradas PUC-GO, UniEvangélica, Estácio e UniCesumar. PUC-GO, UniEvangélica e Estácio não responderam aos questionamentos até a publicação. Em nota enviada à reportagem, a UniCesumar informou que segue as diretrizes do MEC e está alinhada ao novo marco regulatório. A instituição afirmou ainda que possui estrutura consolidada nos polos, com laboratórios e ambientes destinados às atividades acadêmicas.

Segundo a UniCesumar, os ajustes para o cumprimento integral das novas regras estão sendo realizados dentro do prazo de adaptação de dois anos estabelecido pelo MEC. A instituição também reforçou o compromisso com a qualidade acadêmica, a conformidade regulatória e a formação dos estudantes.

Para Amanda, a experiência resume o desafio da nova fase do EAD: preservar a flexibilidade da modalidade sem abrir mão da qualidade. “Eu defenderia uma modalidade EAD com qualidade, aulas on-line realmente interativas e uma formação prática presencial bem estruturada”, afirma. Após quase cinco anos entre aulas on-line, encontros presenciais e estágios, ela avalia que a modalidade permitiu conciliar estudos, trabalho e família.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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