O acidente com césio-137 em Goiânia provocou mudanças no controle de materiais radioativos no Brasil e influenciou o destino de um presente entregue ao país por Marie Curie há cem anos. As agulhas com sais de rádio-226 doadas pela cientista em 1926 foram utilizadas no tratamento de pacientes com câncer, posteriormente se tornaram rejeitos e agora serão reaproveitadas em pesquisas.
Marie Curie e sua filha, Irène Joliot-Curie, desembarcaram no Rio de Janeiro em 15 de julho de 1926. Durante 44 dias, participaram de conferências, receberam homenagens e visitaram diferentes cidades brasileiras. Entre 16 e 18 de agosto daquele ano, Marie esteve em Belo Horizonte e entregou as agulhas ao recém-criado Instituto do Radium, atualmente Hospital Borges da Costa, ligado ao Hospital das Clínicas da UFMG.
O material foi empregado na braquiterapia, procedimento que aproximava tubos radioativos do tumor para tentar reduzi-lo. O Instituto do Radium foi o primeiro do país a utilizar a técnica. As agulhas, semelhantes às utilizadas em costura, não possuíam identificação nem um registro detalhado sobre quantidade e dimensões.
Com o avanço do conhecimento sobre os riscos envolvidos, fontes de rádio foram gradualmente abandonadas e substituídas por tecnologias mais seguras. O decaimento do rádio pode produzir radônio, gás altamente contaminante. A pressão interna também poderia provocar fissuras nas fontes seladas e permitir o vazamento de radiação, expondo pacientes e equipes médicas.
Foi após o grave episódio de contaminação por césio-137 em Goiânia, que deixou quatro mortos, que o país passou a adotar uma ação sistematizada para localizar e recolher materiais radioativos. Em meados da década de 1990, hospitais, indústrias e outros serviços que ainda mantinham essas fontes foram orientados a comunicar a situação à autoridade responsável pela segurança nuclear.
O chefe do Serviço de Gerência de Rejeitos do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), Rogério Mourão, relaciona diretamente essa mobilização às consequências do acidente ocorrido em Goiânia. A tragédia expôs a necessidade de reforçar o controle sobre materiais capazes de provocar contaminação.
As agulhas doadas por Marie Curie permaneceram acondicionadas em estruturas de chumbo e concreto no CDTN, em Belo Horizonte. No ano passado, foram encaminhadas aos Estados Unidos para reprocessamento por meio de uma parceria entre a Comissão Nacional de Energia Nuclear, a farmacêutica Niowave e pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares.
Durante três anos, a empresa deverá produzir actínio a partir do rádio. Em contrapartida, cientistas brasileiros participarão de treinamentos e receberão periodicamente doses do novo material para estudos. O actínio tem sido utilizado no tratamento de tumores metastáticos agressivos que não respondem bem às terapias tradicionais.
Assim, um material que chegou ao Brasil como instrumento de combate ao câncer, tornou-se rejeito radioativo e passou a ser controlado em um cenário transformado pela tragédia de Goiânia deverá retornar ao país com uma nova finalidade científica.











