A campanha eleitoral em Goiás entrou, a partir desta sexta-feira (28), na TV, na fase em que o eleitor menos interessado começa a perceber que a eleição chegou. Bandeira na rua, carreata e rede social falam com quem já está minimamente conectado. Rádio e televisão ainda têm outra função: alcançam o eleitor que não acorda pensando em política.
O cientista político Guilherme Carvalho resume bem o ponto. A propaganda eleitoral perdeu o peso quase absoluto que tinha antes das redes sociais, mas não virou peça decorativa. Ela continua importante, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, onde o digital não chega com a mesma força, a mesma frequência ou a mesma capacidade de segmentação.
É aí que o horário eleitoral ainda pesa. Não necessariamente para convencer o eleitor ideológico, militante ou já fechado com um candidato. Esse eleitor já foi capturado por grupo de WhatsApp, algoritmo, bolha religiosa, sindical, empresarial ou partidária. A TV fala mais com quem ainda está solto. Com quem sabe que terá de votar, mas ainda não gastou tempo para organizar a própria decisão.
Guilherme chama isso de “atalho informacional”. O eleitor não acompanha convenção, ata, nominata, federação, tempo de TV e cálculo de coligação. Muitas vezes, só começa a ordenar nomes quando a campanha aparece de forma incontornável. O horário eleitoral ajuda a dizer quem é quem, quem está com quem e qual imagem cada candidatura quer fixar.
Daniel Vilela entra nessa fase com a maior vantagem material. Terá quase metade do tempo no programa de governador. Isso permite repetir mensagem, corrigir ruído, mostrar obras, associar-se a Ronaldo Caiado e tentar construir a própria assinatura em cima da continuidade. Para quem lidera, tempo de TV serve menos para ousar e mais para reduzir risco.
Marconi Perillo tem outro problema. É conhecido demais para precisar ser apresentado e rejeitado demais para falar apenas aos convertidos. Sua campanha precisa usar o pouco tempo para tentar transformar memória em futuro. O mote “Goiás Pode Muito Mais” só funciona se o eleitor enxergar comparação útil, não apenas saudade de governo antigo.
Não por acaso, Guilherme avalia que Marconi é quem mais precisa do horário eleitoral. O tucano tem recall, mas tem pouco espaço para errar. Se usar a televisão apenas para atacar Daniel, pode falar para quem já o acompanha. Se conseguir condensar legado, crítica e proposta, talvez encontre algum eleitor que ainda não entrou na campanha.
Wilder Morais terá de resolver outro desafio. O PL tem presença digital, bolsonarismo e Gustavo Gayer como ativo de mobilização. Mas campanha de governo exige mais do que barulho em rede social. A TV pode ser a chance de apresentar Wilder para além da imagem de empresário, senador e candidato de Bolsonaro.
O problema é que o tempo é curto e a mensagem ainda parece em construção. Wilder precisa dizer por que quer governar Goiás, não apenas quem são seus adversários. Sem isso, corre o risco de falar muito para a própria bolha e pouco para o eleitor que liga a televisão para descobrir o que está em jogo.
Luis Cesar Bueno, por sua vez, entra na TV com uma contradição. Terá o segundo maior tempo entre os candidatos ao governo, mas começa a campanha estadual atrasado. Sua propaganda precisará fazer apresentação pessoal, defesa do legado petista, conexão com Lula e enfrentamento ao antipetismo acumulado em Goiás. É tarefa demais para uma campanha curta.
A estratégia é assumida pela própria campanha. Marqueteiro de Luis Cesar, o jornalista Cláudio Curado diz que os três primeiros programas já estão prontos e terão dois objetivos centrais: apresentar o candidato petista e vinculá-lo diretamente ao presidente Lula.
“O Luis já foi deputado, mas ficou alguns anos fora do meio e é desconhecido, segundo as nossas pesquisas, por grande parte da população. Então precisa reapresentar ele e ligar ele ao presidente Lula”, afirma Curado. Segundo ele, a campanha também pretende mostrar obras e ações do governo federal em Goiás para defender “os benefícios de Goiás ter um governador do PT com o presidente do PT”.
A fala explicita o tamanho do desafio. Luís César não pode desperdiçar o tempo de televisão apenas com discurso partidário. Precisa usar Lula como ponte, mas também mostrar por que ele próprio é o nome capaz de representar essa ponte em Goiás. A televisão não faz mais milagre. Mas ainda organiza a disputa para muita gente. Em uma eleição de 45 dias, isso não é pouco.
A partir de agora, cada candidato tentará fabricar uma imagem mais simples de si mesmo. Daniel, o governador da continuidade com inovação. Marconi, o ex-governador do legado. Wilder, o empresário da direita. Luis Cesar, o candidato de Lula. A campanha sai do bastidor e entra na sala do eleitor. Quem não conseguir ser entendido rápido pode não ter tempo para explicar de novo.
COLUNA DA ESQUERDA
Conta cheia
Goiás tinha 894 candidaturas registradas na base estadual consultada. Só para deputado federal, eram 260 nomes até o fechamento desta edição na sexta-feira (28). O número ajuda a explicar por que as campanhas majoritárias terão dificuldade para controlar as dobradinhas. Cada candidato proporcional fará sua própria conta de sobrevivência, mesmo quando o partido manda seguir outro palanque.
20 na mira
O Ministério Público Eleitoral contestou 20 registros de candidatura em Goiás nas eleições deste ano. O balanço parcial nacional chegou a 974 impugnações. Os casos envolvem, de forma geral, suspeitas de inelegibilidade, condenações, contas rejeitadas, falta de filiação e ausência de desincompatibilização. Agora, a palavra final será da Justiça Eleitoral.
Peneira aberta
A fase de impugnações é o primeiro filtro real depois das convenções. Partido costuma tratar registro como etapa burocrática, mas é nesse momento que candidatura com problema antigo vira dor de cabeça nova. Em Goiás, os 20 casos contestados pelo MP Eleitoral ainda precisam ser individualizados nos processos, mas já mostram que a campanha também corre no tribunal.
Senado no cartório
Na disputa ao Senado por Goiás, Gracinha Caiado, Isaura Lemos, Cíntia Dias e Gustavo Mendanha já aparecem com registro deferido na lista extraída do DivulgaCand. Outros nomes da disputa, como Gustavo Gayer, Vanderlan Cardoso, Zacharias Calil, Oséias Varão, Ernesto Roller, Iure de Castro e Guilherme Darques, ainda constavam como aguardando julgamento na mesma base.
PT com baixas
Na lista de candidatos a deputado estadual, Ariel Luz Mota Portela Rodrigues, do PT, aparece com situação de renúncia. O partido tenta sustentar palanque para Lula em Goiás, candidatura ao governo com Luís César Bueno e nominata proporcional competitiva.
Chapa sob risco
A ex-vereadora por Goiânia Tatiana Lemos teve a candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral. Ela é candidata a deputada federal e integra uma chapa que tem Aava Santiago como uma das principais apostas para a Câmara. Qualquer baixa relevante pode mexer no cálculo da nominata.
Prazo apertado
A impugnação se baseia em uma condenação eleitoral de 2018. A Procuradoria sustenta que Tatiana ficaria inelegível até 7 de outubro de 2026. Como a eleição será no dia 4, ela ainda estaria inelegível na data da votação.
Defesa confia
Advogado da candidata, o eleitoralista Bruno Pena contesta a tese. Ele afirma que mudança na Lei Complementar 64 passou a permitir candidatura quando a elegibilidade é recuperada antes da diplomação, mesmo depois da eleição.
Aava no cálculo
O caso é acompanhado de perto por aliados de Aava Santiago. A ex-vereadora aposta em votação ampliada para chegar à Câmara dos Deputados, depois de ter o mandato cassado em Goiânia. No PSB, a avaliação é que Aava está tranquila. Aliados dizem que há alternativas para evitar que eventual problema jurídico envolvendo Tatiana imploda a chapa proporcional.
Aposentado, mas nem tanto
O ex-deputado federal Jovair Arantes (PSDB) diz a este colunista que não pretende disputar eleição, mas evita o rótulo de aposentado político. O político afirmou que “da política você não se afasta nunca”. A urna pode ter ficado para trás. O bastidor, não.
O elogio do outro lado
Jovair Arantes elogiou a gestão Sandro Mabel e deu nota entre 7 e 8 ao prefeito de Goiânia. Disse ainda que, se avançar em áreas como saúde, trânsito e creches, Mabel pode entrar na disputa pelo posto de “melhor prefeito da história” da capital.











