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11 de setembro: uma das maiores tragédias recentes da história da humanidade

Enquanto o mundo lamenta o atentado de 2001, a mesma data carrega a ferida do golpe que instaurou a ditadura de Pinochet no Chile e a aliança repressiva que matou dezenas de milhares na América Latina


Por Fábio Prado em 11/09/2026 - 18:00

11 de setembro: uma das maiores tragédias recentes da história da humanidade
O ditador chileno Augusto Pinochet caminhando diante de seus soldados - Foto: reprodução/YouTube

O 11 de setembro é uma data que o mundo aprendeu a associar à dor. Em 2001, os ataques às Torres Gêmeas e ao Pentágono mataram quase três mil pessoas, deixaram milhares de feridos e mudaram para sempre a política de segurança dos Estados Unidos e do mundo. As imagens dos prédios em chamas, do pó cobrindo as ruas de Nova York e das pessoas saltando das janelas ficaram gravadas na memória coletiva como um símbolo do terror. Lembrar essas vítimas é um dever humanitário. Mas o 11 de setembro não pertence apenas a Nova York.

Trinta e dois anos antes, no mesmo dia, o Palácio de La Moneda, no Chile, era bombardeado. Aviões da Força Aérea Chilena atacaram a sede do governo, enquanto tanques cercavam o prédio e militares tomavam as ruas de Santiago. O presidente Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu dentro do palácio. Era o início de uma ditadura que duraria 17 anos, comandada pelo general Augusto Pinochet, e que se tornaria uma das mais sangrentas da América Latina. O golpe não foi um acidente da história. Foi arquitetado com o apoio direto do governo dos Estados Unidos, que temia a experiência socialista chilena e atuou para desestabilizar o país desde antes da posse de Allende.

O que se seguiu foi um período de terror planejado. O Chile de Pinochet deixou mais de três mil mortos e desaparecidos, cerca de 40 mil presos e torturados, e forçou aproximadamente 200 mil pessoas ao exílio. A repressão não se constrangeu em ficar dentro das fronteiras chilenas. Em 1975, representantes das ditaduras do Cone Sul se reuniram em Santiago para formalizar a Operação Condor, uma aliança secreta entre os regimes militares do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O objetivo era caçar, sequestrar, torturar e matar opositores políticos onde quer que estivessem. Um argentino sequestrado no Chile, um uruguaio preso no Brasil, um brasileiro desaparecido na Argentina: a Condor transformou o continente em um único território de perseguição.

Os números da Operação Condor são a medida do horror. As estimativas apontam que a aliança deixou pelo menos 50 mil mortos, 30 mil desaparecidos e mais de 400 mil presos políticos em toda a América Latina. No Brasil, a ditadura empresarial militar (1964-1985) matou e desapareceu com 434 pessoas, segundo a Comissão Nacional da Verdade. Na Argentina, a ditadura que durou de 1976 a 1983 deixou cerca de 30 mil desaparecidos. No Chile, os relatórios oficiais contabilizam mais de 40 mil vítimas entre executados, detidos, desaparecidos e torturados. São números que se somam, que se cruzam, que revelam uma engrenagem de violência coordenada entre países que diziam agir em nome da segurança nacional.

A morte, nesse contexto, não era apenas um resultado. Era um método. As pessoas eram torturadas para delatar companheiros, para confessar crimes que não cometeram, para serem quebradas antes de serem assassinadas. Os corpos eram enterrados em valas clandestinas, jogados ao mar, incinerados. Muitas famílias nunca receberam os restos mortais de seus parentes. Outras passaram décadas sem saber se aquele irmão, aquela filha, aquele pai estava morto ou se ainda estava preso em algum centro clandestino. A ditadura chilena, em particular, ficou marcada pelo uso sistemático do desaparecimento forçado como arma de terror. O Estádio Nacional de Santiago, transformado em centro de detenção, recebeu milhares de pessoas nos primeiros meses após o golpe. A Operação Condor exportou esse modelo de repressão para o continente.

Hoje, o 11 de setembro é lembrado com cerimônias solenes nos Estados Unidos. O mundo para para honrar as vítimas do atentado de 2001. E é justo que o faça. Mas por que a mesma data no Chile não recebe o mesmo peso? Por que a memória das vítimas do golpe de 1973 não é celebrada com a mesma intensidade global? Por que a Operação Condor, que matou dezenas de milhares de pessoas em nome da luta contra o comunismo, permanece uma página menos conhecida da história mundial do que os ataques às Torres Gêmeas?

A resposta talvez esteja em quem escreve a história. O terror que atinge o centro do poder econômico global é lembrado como uma tragédia universal. O terror que atinge a periferia do mundo, em nome da manutenção dessa mesma ordem global, é muitas vezes tratado como um detalhe regional. Mas a dor de uma mãe chilena que nunca encontrou o corpo do filho não é menor do que a dor de uma mãe americana que perdeu o filho no World Trade Center. A violência de Estado que queima pessoas vivas, que arranca unhas, que simula execuções para quebrar a mente de um prisioneiro político não é menos terrorista do que a violência de um atentado.

O 11 de setembro deveria ser lembrado em todas as suas dimensões. As vítimas do atentado de 2001 merecem nosso luto. As vítimas do golpe no Chile, da Operação Condor e de todas as ditaduras da América Latina também. Lembrar o 11 de setembro de 1973 não é diminuir a dor de Nova York. É reconhecer que a mesma data carrega, em outro continente, uma ferida igualmente profunda. E questionar por que algumas tragédias são lembradas para sempre enquanto outras são silenciadas não é um exercício de ressentimento. É um exercício de justiça histórica.

Se o 11 de setembro de 2001 deve ser lembrado por gerações, o 11 de setembro de 1973 também deveria. As vítimas do Chile, da Argentina, do Brasil, do Uruguai, do Paraguai e da Bolívia não foram números em uma planilha de segurança nacional. Foram pessoas que lutaram por um mundo mais justo e que foram torturadas e mortas por isso. Se queremos falar de terrorismo, que falemos de todos os terrorismos. Se queremos honrar a memória, que honremos todas as memórias. E se queremos construir um mundo onde a dignidade humana seja o valor supremo, precisamos olhar para o 11 de setembro inteiro, não apenas para a metade que o Ocidente escolheu ver.

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