Empresas Hapag-Lloyd e CMA CGM suspenderam ou reduziram serviços para a ilha, afetando o envio de alimentos, medicamentos, painéis solares e insumos médicos. ONU alerta para “cumprimento excessivo” das sanções e interrupção de tratamentos contra o câncer.
Milhares de contêineres com alimentos, medicamentos e outros produtos destinados a Cuba estão retidos em portos do Caribe após as empresas de navegação Hapag-Lloyd e CMA CGM reduzirem ou suspenderem seus serviços para a ilha. A restrição ocorre em resposta às sanções impostas pelos Estados Unidos, que aumentaram a pressão econômica sobre o país.
Segundo o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, cerca de 7.000 contêineres permanecem detidos em vários portos do mundo. A maioria contém alimentos, medicamentos e dispositivos médicos, com cargas previamente contratadas e pagas conforme as normas do comércio internacional.
Suspensão de serviços e “cumprimento excessivo”
As empresas Hapag-Lloyd, da Alemanha, e CMA CGM, da França, anunciaram em maio a suspensão de novos pedidos com destino a Cuba. A decisão seguiu a Ordem Executiva 14404, assinada pelo presidente Donald Trump em 1º de maio, que amplia as sanções e ameaça congelar ativos de pessoas ou entidades que apoiem o governo cubano.
A CMA CGM posteriormente retomou parcialmente os serviços, mas apenas para alimentos, medicamentos e insumos médicos. Ainda assim, outras cargas continuam retidas. A empresa deixou dezenas de contêineres no porto de Kingston, na Jamaica, incluindo um carregamento com mais de 3,5 milhões de seringas e agulhas destinadas ao sistema de saúde de Santiago de Cuba.
Segundo Francisco Pichón, coordenador da ONU em Cuba, as sanções provocaram um efeito de “cumprimento excessivo” por parte das empresas. Elas evitam operações que possam resultar em punições dos Estados Unidos, mesmo quando as cargas são de natureza humanitária.
Ajuda humanitária da ONU também é afetada
Entre as cargas retidas estão dezenas de contêineres de ajuda humanitária adquiridos por agências da ONU. Os itens incluem antibióticos, contraceptivos, testes de gravidez, kits para tratamento de água e painéis solares. Até a semana passada, a ONU aguardava a entrega de 30 contêineres com esses produtos.
A restrição também afetou o transporte aéreo e levou à interrupção de entregas de medicamentos contra o câncer. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) informou que milhares de frascos de doxorrubicina, fármaco usado em tratamentos oncológicos, não chegaram ao país após companhias aéreas suspenderem voos para Cuba.
Crise humanitária e escassez
Cuba já enfrenta escassez de combustível e alimentos, apagões frequentes e dificuldades no sistema de saúde. As novas sanções agravaram esse cenário. O bloqueio petrolero imposto em janeiro levou os cortes de energia a níveis críticos, com uma média diária de apenas duas horas de eletricidade para a população.
A escassez de medicamentos atinge diretamente pacientes crônicos. Apenas 30% do fornecimento básico de remédios está disponível no país, o que significa que sete de cada dez medicamentos essenciais estão em falta. Entre os mais afetados estão 16.000 pacientes oncológicos que dependem de radioterapia e outros 12.400 que necessitam de quimioterapia.
O governo cubano classifica a situação como uma crise humanitária e acusa os Estados Unidos de impedir a chegada de recursos vitais. O chanceler Bruno Rodríguez afirmou que impedir a chegada dessas mercadorias tem como objetivo “arreciar o castigo coletivo que o governo dos Estados Unidos está impondo ao povo cubano”.
A situação em Cuba se assemelha, em silêncio, ao que ocorre em Gaza. Enquanto a comunidade internacional concentra atenções no Oriente Médio, a crise humanitária cubana se aprofunda sem a mesma repercussão global, deixando milhares de pacientes sem acesso a tratamentos essenciais e a população sem alimentos e energia elétrica.
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